• No results found

O pensamento estratégico é a arte de disponibilizar um conjunto de dados testados em hipóteses de jogos a partir da matemática aplicada, com o objetivo de buscar a melhor decisão ótima possível em situações de conflitos e várias outras do comportamento econômico humano, segundo revelaram vinte anos de estudos de Neumann e Morgenstern (1944) sobre a relação com a teoria dos jogos. Jogos pressupõem algum nível superior de informação associados a alguma forma de ocultação perante os demais participantes. Efetivamente, isso se dá em situação de conflito, onde a tática e o deslocamento de recursos é determinante que sejam conduzidos de maneira reservada e secreta, como demonstra a história militar.

Entretanto, quando se busca um arranjo ou uma conciliação o que está em jogo é a credibilidade dos participantes e daí a importância de sua transparência para uma série natural de debates e esclarecimentos. Assim, se espera o esforço coordenado da pesquisa e desenvolvimento tecnológico entre a universidade, o governo e mercado para que possam juntos construir um avanço material ótimo. A revelação de informações acontece tanto por meio de sinais espontâneos de alerta, como por uma intencional procura ou rastreamento de dados, até que a informação desejada seja distribuída de forma ubíqua e que seja útil para o grupo. A teoria observa que nos jogos ocorrem “movimentos estratégicos”, ou seja, deslocamentos de relações entre seus participantes no campo das suas instituições em meio às discussões de novos quadros jurídicos e quando aparecem sinais determinantes de movimentação de recursos variados entre os participantes. Internos ou não, esses sinais são notados como formas de ameaças, promessas ou compromissos, que poderão implicar uma manipulação de dados e regras. Portanto, a fixação das regras será dependente da capacidade dos jogadores e da quantidade de informação que cada um projeta ter sob seu comando e controle.

Quando refiro-me ao nível superior de informação trato não só do intuito de produzir vantagens competitivas ou contar com elementos qualificados para uma posterior

112 ou contínua avaliação de desempenho. Na realidade, faço uma clara referência à “redução do risco da incerteza”, elemento escondido nesta investigação sobre Estado. Na vida pública, não acontece a alternativa disponível no mundo financeiro, o resseguro, um instrumento que transfere o risco do sinistro inicialmente atribuído a um titular para um terceiro intermediário mais capacitado, que recebe o prêmio original a um novo preço. No Estado, a relação é biunívoca: a conta do sinistro será executada nos próximos orçamentos e/ou no balanço das contas nacionais e, em princípio, todos os participantes pagarão sua parte. Assim se percebe a necessidade de consenso com relação ao conceito de aversão ao risco, tendo em conta que estratégia, em linhas gerais, traduz um plano de ações sequenciadas de longo prazo e de larga escala com elementos de proteção contra riscos.

Neste cenário o destaque é a assimetria de informação, que pode não ser observável por alguns atores intervenientes, levando-o a decisões equivocadas, com alto risco de perdas generalizadas. Como o jogo necessário por jogar deve ter soma diferente de zero e quer aportar resultado positivo, será necessário revelar a informação selecionada e de confiança. Um regime de incentivos e punições pode acompanhar e ser estabelecido para evitar a ocultação de informação, para filtrar entre os rótulos e as realidades, as próprias informações errôneas e coibir a abstenção ou a não-cooperação, por vezes empregada para imunizar-se de ameaças e compromissos.86

Daí, o Estado Estratégico prover meios para armazenamento de informações em bancos de dados, alimentando-os continuamente, ampliando o leque de fontes de suprimento no esforço de um arquivo geral ou uma memória coletiva. No caso dos EUA, os melhores exemplos no corpo burocrático pesquisado são o Serviço do Censo dos EUA e a Agência de Informação Energética, do Departamento de Energia. A memória também é anotada nas bases de dados de fundações privadas, nas bibliotecas e organizações comunitárias, municipais e estaduais e pelas universidades por todo o país. A comunidade organiza a memória pública, processa dados e forma o pensamento coletivo. A classificação das informações permite a revelação das identidades sociais frutos de um conjunto de

86

Exemplo: ao desenvolver o censo agrícola no país, o Serviço Nacional de Estatística Agrícola do USDA compromete-se com os produtores rurais a seguir regras de confidencialidade, que preservam a publicidade de relatórios contendo informações baseada na coleta de dados individuais. Todo o processo estará sujeito a uma auditoria, sendo previstos um prazo de prisão por 5 anos e multa de US$ 250 mil para os agentes infratores. Vide http://www.agcensus.usda.gov/About_the_Census/Confidentiality_Pledge/index.asp

113 negociações espaciais, isto é, inter-reações diversas entre categorias sociais, o mercado e os representantes políticos. São as instituições que conferem identidade ao cidadão.

Na teoria dos jogos, a estratégia sempre toma em consideração as circunstâncias em função das ações de todos os jogadores que participam com um interesse ou uma finalidade qualquer anunciados. Distingue-se de imediato da palavra “tática”, expressão muito próxima da noção de “curto prazo” ou de uso em “pequena escala”. Neste sentido, as estratégias espelham escolhas dos indivíduos. Porém, a ciência política recomenda escolhas melhor elaboradas, pois poderão ocorrer conclusões em cima de eventos condicionados a uma só experiência, um só espaço ou um só tempo, quando existirão ações e reações resultantes da interação com outras partes. Finalmente, hão de existir, por prudência, opções para contingências, a alternativa coloquialmente referida pela expressão “Plano B”.

Estratégia é ciência e arte a cada tempo (DIXIT e SKEATH, 1999, 223), tal qual a política. É ciência a partir da observação do comportamento humano, quando se apontam “movimentos estratégicos” expressos em compromissos, ameaças ou promessas, que precificam de alguma forma o conceito de credibilidade e invariavelmente afetam, não apenas o resultado de uma sequência de jogos, mas, sobremodo, o futuro comportamento dos jogadores que restarem em jogo. É possível mesmo que alguns deles desistam do jogo. Além da informação há o conhecimento. Nesse ponto, estratégia é arte da inclusão do contexto, um desafio certamente maior do que os dados evidentes, para gerar a máxima eficiência de resultado pelo conhecimento. Assim, o Estado Estratégico terá recursos para lidar com os riscos e, particularmente, construirá a habilidade de mitigá-lo e manipulá-lo, ou ainda, aplicar a simples experiência de conviver com risco e sobre este permanecer atento. “Nos jogos sociais, econômicos ou políticos, a gênese das novas estratégias é presumivelmente governada pela história, cultura e a experiência dos indivíduos ou institições jogadoras; a capacidade das pessoas assimilarem e processarem informação e experimentar diferentes estratégias também tem um papel” (op. cit., 438).

O conhecimento forma o “pensamento estratégico” (DIXIT e NALEBUFF, 2008, 32), que representa mais arte do que ciência. Tanto quanto a teoria dos jogos não está completa, atualmente é visto com meio de cooperação e convencimento face ao interesse exclusivamente centralizado no indivíduo. Pensamento estratégico é a arte de interpretação e de revelar informação, de colocar-se no lugar do outro, predizendo e influenciando o este

114 que fará. Certamente, o consumo desse conceito é acolhido imediatamente nos meios político e empresarial como uma forma de sobrevivência à competição de candidatos e firmas concorrentes.

Ao Estado Estratégico cabe incentivar continuamente todos os indivíduos, grupos ou as partes interessadas a compor um conjunto de atores intervenientes (“stakeholders”), para que abram e troquem entre si informações e desenvolvam um conhecimento conjunto de um tema comum. Originalmente escrito na época da extrema competição e destinado a superar adversários sabendo que eles fazem o mesmo. A teoria ajuda a recordar que as estratégias (e porque não incluir aqui a sua ausência) surgem efetivamente de uma variedade de decisões aparecem de um “jogo” onde não há informação perfeita, na grande maioria das vezes.87

É uma descoberta que coincide com conclusões práticas, aspecto esse de implicações muito sérias estudadas também pelo economista Joseph Stiglitz, recentemente divulgadas, quando desenhou , com base no relacionamento entre bancos e clientes, um modelo de equilíbrio para um novo paradigma para a economia monetária, onde a assimetria de informação inerente à relação credor-devedor, compromete o crédito e o crescimento econômico (STIGLITZ, GREENWALD, 2004,10).88

Estima-se, então, que um Estado Estratégico possa ser visto como um jogo que não pode desconsiderar ou ser indiferente a desvios na execução de suas ações e programas,

87

Schelling lembra que como se trata do processo imperfeito de decisão, quando se convive regularmente com a ameaça de se exercer represálias ou até o risco de precipitar um conflito armado, persiste sempre a ideia de que algumas das mais importantes decisões do governo são adotadas por um processo que não é completamente predizível. Ainda que algum governo sereno e dotado de dirigentes justos e responsáveis – e acrescento, ainda que o espaço territorial não seja o de um país, onde as dimensões são pequenas, podendo ser uma área metropolitana ou uma zona rural – o processo de decisão pode não estar plenamente “sob controle”. Os atos podem nem ser inteiramente deliberados, mas poderão causar consequências involuntárias, quando não se tem “a priori” a exatidão dos resultados e seus cálculos, por falhas na descontinuidade da comunicação, por reações ao abuso de autoridade e, o mais provável, por erro humano. Num passo adiante a essas ideias sobre compromisso e movimentos estratégicos em favor da desobstrução de informação, de Schelling, foi dado por seu colega de Nobel de Economia de 2005, Robert Aumann, que desenvolveu o conceito de

“conhecimento comum” para a teoria dos jogos, embora sua ausência seja o caso mais comum (sic). Tem-se,

assim, um processo que passa da ocultação para a revelação e interpretação de informações, ciclo que requer estratégias próprias para cada um dessas etapas ou passos (como, o que e porque ocultar, revelar, interpretar, etc.), pois os participantes, diante da incerteza, circulam num espaço de especulação, custoso e lento, à procura de uma melhor informação.

115 mas que exige reconhecê-los tempestivamente e corrigir as políticas públicas específicas, buscando com eficácia enfrentar as demais externalidades, que escapam às variáveis e agentes do mercado. Devido à pluralidade de participantes é possível que as ações adotadas não estejam de acordo com os interesses de alguns indivíduos que compõem o jogo que se forma no Estado Estratégico. O resultado ótimo não é automático, tampouco racionalmente satisfeito ou realizado, pois o convívio social vive o impacto da lógica da ação coletiva de uma realidade onde se espera que um dos participantes imponha seus interesses contrariando os demais, valendo-se do esforço dos outros, sem esperança de atingir o princípio do equilíbrio de Nash, o qual estabeleceria a satisfação de todos os pleitos individual de cada um dos jogadores (OLSON,1999, 14).