• No results found

Filtrering – Glatting av signal

In document Motordrive. Undervisningsmodell (sider 31-0)

2.2 Frekvensomformer

2.2.4 Filtrering – Glatting av signal

Em Junho de 2010, ao me mudar definitivamente para a cidade de Brotas numa quinta-feira às dezenove horas, observava um treino da equipe Bozo D’água no trecho do rio próximo à minha casa, ao lado de um componente das equipes secundárias que comentava comigo: “Olha lá, estão galejando!” Ao questioná-lo sobre o que isso queria dizer, ele balançou o tronco pra trás e pra frente. Ou seja, o galejo é um movimento do corpo no sentido de impulsionar o barco para frente que complementa o uso da força do braço e das costas na remada, quando há cansaço. Pode significar também o compasso, ritmo forte imposto à remada que reflete em um sutil movimento do tronco e também à instabilidade sofrida pelo rafteiro posicionado no bote.

Quando perguntei se galejar era uma coisa boa, ele disse: “Se for galejar, tem que ser todo mundo junto. Se um começa a galejar mais de cansaço é ruim. Mas se outro não pode remar por algum motivo e ele galejar, já ajuda, ele não vira só um peso morto no bote e se eles decidem que todos vão galejar forte e remar forte pode até impulsionar mais o barco.” O

galejo da remada é, principalmente, um recurso ou efeito da remada contra a correnteza. A remada que precisa ser mais forte e rápida exige mais do tronco que acaba por se deslocar pra frente e pra trás. É por isso que esta expressão intitula esta pesquisa. Em campo eu parecia sempre remar contra a correnteza.

A esta altura eu começava a dimensionar o obstáculo que ser mulher poderia constituir à minha integração à aventura brotense. Como já havia passado por algo semelhante no surfe e como me interessava realizar uma etnografia sobre técnica e corporalidade e a partir de meu próprio corpo, pensei que levar ao limite minha iniciação na prática e selar minha legitimidade em campo como aprendiz, seria o suficiente para amenizar estas dinâmicas de exclusão de gênero.

Entretanto, o lugar das mulheres em Brotas é predominantemente a casa, a recepção das agências e, eventualmente, a condução em atividades vistas como mais simples, como a

trilha, a tirolesa e o arvorismo. Enquanto isso, eu traçava desavisadamente uma trajetória em campo que me levaria a frequentar o contexto de formação de condutores e atletas de rafting, atividade considerada das mais complexas e, consequentemente, neste lugar, ambiente dos mais masculinizantes.

Isso produziu tensões e limitações para a pesquisa. Por exemplo, os homens considerados sérios procuravam não conversar muito e não sentar comigo nos bancos das calçadas, ônibus ou numa mesa de restaurante ou padaria. Quando conversavam comigo

procuravam ser breves e manter o olhar para baixo. Alguns considerados “não sérios” apresentavam uma postura sedutora com a qual tive extrema dificuldade em lidar.34 E aqueles

moderadamente desenvoltos eram potencialmente repreendidos por suas namoradas e mulheres por interagirem comigo, o que não só me deixava extremamente constrangida, como por vezes me interditava determinadas situações.

Assim aconteceu em uma noite em que entrevistava um guia, por ser ele presidente de uma associação local, na frente de uma casa de guias onde acontecia um churrasco, assim como ele havia sugerido, sentados no meio fio da calçada. Durante a entrevista o celular tocava insistentemente e, em certo momento, ele julgou que precisava atender. Ouvi então uma voz feminina gritar no outro lado da linha: - “Quero ver agora se você tem coragem de mentir. Você vai me dizer agora o que você está fazendo com essa mulher. Eu estou vendo vocês. Se você não voltar agora pra casa eu vou atrás dela”. Ele foi embora, para o meu alívio, mas não houve maneira de retomar a entrevista.

Além destas dinâmicas embaraçosas, outras situações apresentaram-se bastante restritivas ao meu acesso às rotinas e ao estabelecimento de relações de confiança com os

condutores. Depois de ter me mudado para o flat, e de maneira inversa ao que acontecera nos

eventos de aventura, embora alguns condutores contassem ter conhecido outros que lá

viveram, sempre havia comentários que me marcavam como alguém de classe social35 diferente a que pertenciam os condutores em geral, tais como: - “Nossa, você mora no flat? Desculpa, então.” Se nos eventos eu me via estabelecendo relações com pessoas de classes sociais mais abastadas que a minha - não conseguia vislumbrar como aquelas pessoas viabilizavam seus caros empreendimentos aventureiros -, em Brotas os profissionais de

aventura pareciam estranhar como eu viabilizava uma estadia no flat sem trabalhar na cidade. O fato de ter carro entre aqueles que dispõem em sua maioria de bicicletas e motos corroborava para esse entendimento.

Intrigada com estas posturas percebi que meus vizinhos de flat eram funcionários do alto escalão da usina de cana de açúcar e de uma das maiores fazendas de laranja da cidade,

34 Minha dificuldade em lidar com estas situações em campo nada teve a ver com uma expectativa por objetividade científica e neutralidade do pesquisador, já discutidas em alguns trabalhos internacionais como: KULICK, Don; WILLSON, Margaret (orgs.). Taboo: Sex, Identity, and Erotic Subjectivity in Anthropological Fieldwork. London: Routledge,1995. E, em específico no Brasil: ROJO, Luiz Fernando. Rompendo Tabus: a

subjetividade erótica no trabalho de campo. Cadernos de Campo, 2005, p.41-56. Tem sim a ver com formas de

abordagem inevitavelmente associadas por mim aos assédios já sofridos em distintos ambientes de minha trajetória pessoal e profissional.

35

Uso classe no sentido atribuído pelo IBGE, por exemplo, como coletividades delimitadas por faixas de renda: A, B, C, D, E. Se a análise for realizada a partir da renda de meus pais, pertenço, de fato, a uma classe social muito mais privilegiada que a maioria deles.

que vinham de seus municípios durante os dias úteis, mas depois voltavam aos seus lugares de origem. Ou seja, eu passei a ser associada definitivamente aos forasteiros de classe social abastada, enquanto entre os condutores havia um que tinha comprometido seriamente uma das pernas, sem perspectivas de recuperação, em um acidente com um tampa de caldeira da usina e outro que havia perdido um dedo em um acidente na fazenda de laranja, ambos lutando por indenizações.

Somado a isso, quando estabeleci os primeiros contatos em busca de moradia, as pessoas que conhecia sempre me aconselhavam em relação a como conseguir um emprego na cidade. Eu explicava que precisava aprender as técnicas e rotinas da aventura, mas que não podia ser remunerada por isso, já que dispunha de um contrato de financiamento de pesquisa que versava sobre dedicação exclusiva. Esta situação ficou sempre muito obscura para eles e promoveu desconfiança. Quem era essa pessoa que “não precisava trabalhar” e ainda assim morava em um dos melhores locais da cidade? Colaborar comigo poderia prejudicá-los? Porque perderiam seu tempo com minhas perguntas? Percebia, assim, certa resistência em relação à minha presença em diversas ocasiões.

Mesmo depois de ser convidada pelo técnico responsável a compor a equipe feminina de rafting que representaria a cidade no campeonato brasileiro da modalidade, de participar regularmente dos treinamentos junto aos atletas juniores e de estar diariamente na agência como condutora aprendiz, talvez eu nunca tenha deixado de ser vista como uma cliente ou

turista por alguns, e pior, não havia termo específico para isso, mas eu era mesmo uma forasteira para muitos outros.

Frequentemente esquecida ou propositalmente deixada de lado, ainda não entendo como as outras pessoas que treinavam ficavam sabendo das mudanças de planos. Além dos períodos de viagem de competição do técnico no qual os treinos eram suspensos, muitas vezes chegava para treinar e não havia treino ou o horário havia sido alterado. Ou eles já tinham saído em uma descida inesperada com turistas, ido para outra cidade aproveitando uma carona imprevista para fazer uma descida em outro rio, ido procurar patrocínio ou o treino havia sido desmarcado com antecedência por qualquer outro motivo, mas eu não ficava sabendo.

Quando isso acontecia eu procurava conversar com aqueles condutores que estavam disponíveis e acabava às vezes recebendo mais informações sobre a “história” da aventura na cidade ou sobre outras técnicas do que sobre o próprio rafting ou, quando não havia ninguém, ia até a biblioteca da cidade e lia trabalhos já confeccionados sobre Brotas e o tema.

Pareceu-me que a amizade e confiança que Wacquant (2002) diz ter experimentado com os frequentadores de Woodlawn e que lhe permitiram se “fundir com eles” não foi por

mim experimentada entre os adultos. Mas, embora minha expectativa romântica de “fusão” com os nativos tenha sido frustrada em relação aos adultos, acredito ter experimentado alguma amizade com os adolescentes.

Entretanto, ao mesmo tempo que eles me traziam para o interior das dinâmicas do

rafting com mais tranquilidade e leveza, não tinham autorização para falar sobre certos temas ou para me dar acesso a determinadas situações. Esqueci, ao me inspirar em Wacquant (2002), que além de dispor de três anos em campo, muito mais do que um mestrado possibilita, o autor assume que o caráter “oportunista” de sua inserção em campo foi o principal fator a tornar possível a pesquisa:

De fato não entrei no gym com a finalidade expressa de dissecar o mundo do pugilismo. Minha intenção inicial era servir-me da academia de boxe como uma ‘janela’ para o gueto, para observar as estratégias sociais dos jovens do bairro [...] e foi somente ao final de 16 meses de presença assídua, e depois de ter sido entronizado como membro do círculo dos Boys Club, que decidi, com o aval dos interessados, fazer do ofício de boxeador um objeto de estudo totalmente à parte. Não há duvida de que jamais ganharia a confiança nem me beneficiaria da colaboração dos frequentadores de Woodlawn se tivesse entrado na academia com o firme propósito de estudá-la, porque essa própria intenção teria irrevogavelmente modificado meu status e meu papel no contexto social e simbólico considerado (Wacquant, 2002, p.26).

Sentia-me sempre bastante deslocada, a pedir licença e procurar minimizar o mal estar que a minha presença parecia causar, como em qualquer campo de pesquisa. Mas principalmente por ser uma mulher em um universo quase exclusivamente masculino, me incomodavam sobremaneira dinâmicas que à primeira vista pareciam de exclusão e preconceito.

Além disso, o pressuposto desta pesquisa era não escrever sobre algo que não sei fazer, por questões éticas e epistemológicas, já que no campo da aventura é importante ter certo “conhecimento de causa” para merecer autorização para dela falar e visto que meu referencial wacquantiano se comprometia com esse experimento a partir do próprio corpo do pesquisador. Entretanto, desta vez, tive que fazê-lo.

Minha disposição prática e o gosto pela técnica, justamente aquilo que eu acreditava ser minha chave de acesso à antropologia, ou potencialmente a minha contribuição para ela, sucumbiam, entre outros fatores, à urgência das lesões. Além das duas hérnias de disco já mencionadas, a dor que me acometia o joelho esquerdo, multilesionado desde os dezesseis

anos, só piorava depois da cirurgia de reconstrução de ligamentos pela qual passei em 200536. Finalmente em campo, em meu terceiro dia de treinamento, uma dor no punho esquerdo seguida de incômodo constante e crescente me imobilizou por um mês, levando-me de volta à fisioterapia por ocasião de uma tendinite.

Diferentemente da fratura no nariz de Wacquant (2002), que o obrigou a “uma inatividade propícia a um retorno à reflexão”, minha lesão foi extremamente precoce. Embora depois tenha me levado a pensar a relação desses rafteiros com suas lesões, sofrê-la restringiu muito minha aprendizagem técnica. E isto nos leva às narrativas sobre aventura, apreendidas no tempo em que estava imobilizada ou não havia treinos.

36 Em 2009, quando iniciei o mestrado descobri que como resposta à retirada de um enxerto do tendão patelar para a reposição do ligamento rompido, um calo ósseo pontiagudo se formava e perfurava o tendão patelar que era acometido de uma fibrose.

Caderno de Imagens 1: Atividades de aventura em Brotas

Foto 1. Saída de uma trilha Foto2. Chegada de trilha em cachoeira

(Foto: Marília Bandeira) (Foto: Marília Bandeira)

Foto 3. Circuito de arvorismo Foto 4. Trecho de arvorismo

Foto 5. Saída de um canionismo em época de seca

(Foto: Diego Ortiz)

Foto 6. Canionismo em época de cheia

Foto 7. Rafting comercial

(Foto: Tiago Surian) Foto 8. Rafting competitivo

In document Motordrive. Undervisningsmodell (sider 31-0)