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Filosofisk asymmetri i et likeverdig møte

Noen refleksjoner og avklaringer knyttet til mitt empiriske materiale

Del 1: Teori om filosofisk praksis

C: Filosofiske samtaler – klargjøring og utdyping av erfaring

7. Å være filosof i et fengsel – noen selvkritiske bemerkninger rundt min rolle

8.4 Filosofisk asymmetri i et likeverdig møte

Fonte: Acervo da Pesquisa, outubro de 2015

Mais a frente, uma multidão de devotos participam dos últimos momentos da missa campal, cujo sermão é feito sobre um palco armado, na esquina da Travessa Siqueira Mendes com Rua Manoel Barata, o ponto alto da celebração é quando a imagem peregrina é levantada pelo pároco para abençoar os presentes, que em resposta erguem as mãos, em interseção, para recebê-las, ato que se mistura com os vivas!, as faces, em uma espécie de êxtase espiritual, suor, lagrimas, chuva de papel picado e a intensificação da queima de fogos, que contrastam com o cântico: “Oh! virgem mãe amorosa, fonte de amor e de fé. Daí-nos a benção bondosa, Senhora de Nazaré! Daí-nos a benção bondosa, Senhora de Nazaré!”. As falas ao pé do ouvido tentam explicar, às crianças, o que estava acontecendo. Muitas estão sobre os ombros dos pais para enxergar mais de perto a passagem da Santa.

Era hora de se despedir da peregrina, que sob os cuidados da Guarda da Santa e cordas que isolam parcialmente o eixo central do trapiche é conduzida nos braços do pároco, enquanto os devotos se espremem para tentar chegar mais perto da imagem para estender as mãos, pedir a benção, fazer uma foto. Mesmo os que estavam trabalhando, fazendo carretos interrompem suas atividades, assim como, os que festejam a sua maneira o Círio, sentados nos bares, posicionados aos fundos da orla, fazem uma pausa para ver a Santa passar.

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O rio de gente a beira do trapiche, em uma atmosfera de grande consternação emocional, antes da partida da Santa, trouxe-me a lembrança de Icoaraci, antiga vila Pinheiro, em um dos eventos mais marcantes do período cabano ponto de partida da expedição de ataque à Vigia, em 23 de junho de 1835, já durante o governo do Marechal Rodrigues, como resposta a prisão do inicio do mês, do grupo comandado por Bento Ferrão, colocado a ferro nos porões da fragata “Imperatriz”, trazendo aos cabanos a lembrança do massacre do brigue “Palhaço”, notícia que chega aos revolucionários graças a fuga de cabanos, que informaram, sobre os últimos acontecimentos a grupos da Baía do Sol (ilha de Mosqueiro) e do Pinheiro:

“Os cabanos, em número superior a quinhentos, se concentravam no Pinheiro; e com um barco artilhado, um batelão e dezoito canoas, dirigiram- se à vila da Vigia. Em Porto Salvo, distante uma légua da vila, se reuniram em conselho e organizaram o plano de ataque por terra e por mar: o barco e o batelão deveriam fazer fogo pela frente, no porto colégio, para distrair os legalistas e facilitar as outras operações; no porto Pombal (lado oposto) desembarcaria o pessoal das canoas que atacaria pelo franco; outros grupos chegariam de Curucá pela estrada, atacando os vigienses pela retaguarda”. (DI PAOLO 1985, p. 246).

Em pouco tempo, a vila estaria sob o controle dos cabanos, com o ataque seguinte ao “Trem de Guerra”, que ficou conhecido como o “Massacre da Vigia”, com todas as consequências geopolíticas do ocorrido, a fabricação de uma conjuntura de guerra uniformizante da imagem cabana, a prisão de lideranças na capital, entre os quais Francisco Pedro Vinagre, e a fuga de outros para interior, como Antônio Vinagre, Geraldo Gavião e Angelim para organizar as estratégias de retomada de Belém, que leva este último ao comando revolucionário e ao governo da província.

Logo a expedição de bandoleiros contemporâneos, partiriam para Belém, não sem antes, testemunhar a intensificação dos festejos de despedida, em lágrimas alguns devotos se despedem da peregrina, colocada agora no altar na proa do Guarnier Sampaio, que em cores predominantes em branco e laranja também esta enfeitado e logo recebe de uma helicóptero, uma chuva de pétalas de rosas vermelhas e papel picado, uma mistura fantástica de cores, contrastando uma nuvem de fumaça proveniente da queima fogos, trazida pelos ventos, esconde parcialmente a cúpula de vidro enquanto o H-37, identificação em código do navio, que logo desancora habilidosamente do porto, para fazer o percurso de volta, em um balé harmonioso entre as cerca de 500 embarcações, que participam do “Círio Fluvial”, quando estas, respeitado a dimensão do calado, buscam em revezamento a aproximação do barco principal, para acompanhá-lo no trajeto.

104 Foto 6: Após missa matinal em Icoaraci, centenas de embarcações seguem rumo a Belém pela baía do

Guajará tendo ao centro a embarcação H-37

Fonte: G1, outubro de 2015

Toda a festa realizada no caminho até Icoaraci é agora repetida pelo rio de gente que se encontra nas embarcações, e também posicionada na orla de Belém aguardando a passagem da Santa, imponente, reforçando a devoção que chegou a província sob o balanço das águas, é com estreita relação com este elemento simbólico, em função das origens da devoção em Portugal e no Pará.

Como parte de um ciclo devocional, que movimenta cultural e economicamente a região, expandindo fronteiras, disseminando as narrativas de fé e devoção em torno de Nossa Senhora de Nazaré, produzindo um amplo círculo hermenêutico, pela fusão de diferentes horizontes, e distintas formas de explicar, compreender e (re)vivenciar) a grande festa.

Resultando deste modo, em ricas narrativas sobre a devoção, as promessas de navegantes, náufragos, (re)produzindo uma cadeia de falas, uma retórica do evento, num processo imbricado entre passado/presente, assim:

“A narrativa, por isso, pertence a uma cadeia de falas, pela qual se constitui uma comunidade de cultura e pela qual esta comunidade se interpreta a si mesma por via narrativa [...]. Na medida em que esta pertença é fundamentalmente constituída em e por tradições, pode dizer-se que é esta problemática radical que aflora ao nível englobante da comunicação narrativa. A narração – no sentido operatório da palavra – é, assim, a acção que abre a narrativa sobre o mundo em que se desfaz e se consome, e esta abertura é a contrapartida daquilo que o semiólogo conhece apenas como fechamento da narrativa. É a mesma narração que constitui a crista entre estas duas vertentes”. (RICOEUR 1986, p. 169).

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Neste processo multifacetado de narrativas de pertença, que buscam: explicar, compreender e (re)vivenciar), a devoção à Nossa Senhora de Nazaré que teve início em Portugal, com base em agradecimento por milagre alcançado, pelo Fidalgo português D. Fuas Roupinho:

“De origem portuguesa, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré tem uma longa história. Diz-se em Portugal que a imagem que deu origem a esse culto foi esculpida por São José, tendo a própria Virgem por modelo, e teria sido pintada por São Lucas. Depois de muitas idas e vindas, nos primeiros anos do cristianismo, esta imagem chegou às mãos de São Jerônimo e de Santo Agostinho, tendo ido parar na Península Ibérica e depois nas mãos do monge Romano e do rei Rodrigo, dos visigodos, derrotado pelos mouros na batalha de Guadalete. Abandonada numa gruta pelo rei fugitivo, a imagem ficou perdida durante séculos, até ser encontrada por pastores, reavivando-se o seu culto a partir do século XII, depois do famoso milagre de D. Fuas Roupinho, fidalgo português salvo de cair num abismo por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré. O fidalgo, agradecido, passou a propagar a devoção em Portugal”. (Dossiê IPHAN I- Círio de Nazaré, 2006, p.14).

No Estado do Pará, foi o caboclo Plácido José de Souza quem encontrou, em 1700, às margens do igarapé Murucutu (localizado nas proximidades de onde hoje se encontra a Basílica Santuário), uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Após o achado, Plácido teria levado a imagem para o seu casebre e no outro dia ela não estaria mais lá. Plácido correu então ao local do encontro e lá estava a “Santinha”. O fato teria se repetido várias vezes até a imagem ser enviada ao Palácio do Governo. No local do achado, Plácido construiu uma pequena capela onde se iniciou a devoção à Santa.

“A história consagrada diz que um caboclo chamado Plácido achou na mata uma imagem que pensou, logo, ser de algum peregrino, levando-a para sua casa. Mas, para espanto seu, ela voltou ao lugar de origem, onde tinha sido achada. A notícia logo se espalhou e foram muitas as pessoas que acorreram à casa de Plácido para comprovarem o milagre ocorrido. Conta ainda a narrativa popular que o governador da província, na época (século XVIII), mandou buscar a imagem encontrada e a colocou sob guarda no Palácio do Governo. Para surpresa de todos, no dia seguinte, ao abrirem o compartimento em que havia sido guardada, a imagem não mais lá se encontrava, tendo voltado ao seu lugar original. A partir de então foi erguida uma ermida no local em que a imagem foi achada, logo transformada em um local de devoção”. (ALVES 2005, p. 320, 321).

Reforçando a noção de identidade amazônica, estreitamente condicionada pelos simbolismos do mundo hídrico, a imagem segue agora a bordo do H-37, levada de bubuia na baía do Guajará. Proporcionando aos devotos embarcados inúmeras homenagens e celebrações, de cinzas humanas lançadas as águas, a banquetes servidos com requinte nas embarcações de calado maior:

106 Foto 7: De balsa flutuante romeiros lançam cinzas mortuárias nas águas da baía do Guajará

Fonte: Acervo da Pesquisa, outubro de 2014

Neste intervalo, pequenos botos cinza passam, em bando, rapidamente diante da proa do Luzeiro, assustando os devotos, agora o que comandava o movimento no interior da embarcação era uma pequena banda de música que animava a todos. Espetáculo festivo que se repetia por onde o olhar pudesse alcançar.

Após cerca de duas horas e meia de intensas festividades, cores, cheiros e sabores pelas águas turvas da baía do Guajará, o grupo de bandoleiros cabanos contemporâneos estava chegando à escadinha, ponto final da procissão fluvial, onde outra multidão aguardava, em festa, a imagem. De surpresa, antes de ancorar, o Guarnier Sampaio, deslizou calmamente sob a linha d’água, a frente das embarcações, entre fumaça, sons e outra chuva de pétalas de rosas vermelhas, seguindo até as proximidades do Forte do Castelo, contornando a maré para retornar a escadinha, de onde partirá a Moto-Romaria, em direção ao Colégio Gentil e no rumo da Cidade Velha, o Arrastão do Pavulagem:

“O arrastão do boi pavulagem é um cortejo de cultura popular que agrega pessoas de todas as idades em torno da brincadeira do boi bumbá, principal elemento cênico da atividade, e de outras manifestações culturais do estado, pelas ruas de Belém. Manifestação recentemente introduzida na programação cultural da festa (1999), o arrastão acontece sempre na véspera do Círio de Nazaré.

É um desdobramento dos arrastões promovidos no mês de junho por toda a cidade. Tem início após a chegada da procissão pluvial à escadinha do cais do porto, depois da saída da romaria dos motoqueiros, terminando na feira de brinquedos de miriti, na praça Frei Caetano Brandão (Largo da Sé) e na praça do Carmo, ambas no bairro da Cidade Velha. Junto a outros acontecimentos culturais promovidos no período, marca um dos aspectos do lado profano da Festa de Nazaré”. (Dossiê IPHAN I - Círio de Nazaré, 2006, p.57).

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O breve deslocamento do H-37, em direção ao Forte do Castelo, reproduz o bailar de uma força de guerra que vem chegando a Belém, quando da fundação da cidade quatrocentenária, fortemente destruída depois, “Em Tempo Cabano”60

. Segue então, o navio militar rumo ao espaço da cidade que, se juntarmos em uma única cena, as duas imagens seguintes, corresponde ao núcleo dos confrontos cabanos em 183561

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Foto 8: Navio da Marinha do Brasil Guarnier Sampaio - H-37, conduzindo a imagem de Nossa Senhora

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