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Com base nas entrevistas realizadas com os sujeitos da pesquisa (gestores e catadores de material reciclável) nas fontes de evidências visitadas (cooperativas) todo o conteúdo gravado foi transcrito para que as análises pudessem ser efetuadas de acordo com o quadro teórico formulado. Assim, buscou-se responder à seguinte pergunta de pesquisa: “As cooperativas de reciclagem promovem a inserção socioeconômica de seus cooperados?”.

A coleta de dados e a observação direta não participante ocorreram entre os dias 15 e 22 de julho de 2014, in loco, tendo sido feito um primeiro contato com as organizações nos dois meses que antecederam as visitas. Em cada cooperativa, foram entrevistados quatro cooperados num total de 12 pessoas, sendo dois gestores e dois catadores na Cooper PaC, um gestor e três catadores na Cooper Nova Esperança e um gestor e três catadores na Cooper Vira Lata. Vale destacar que o único critério utilizado previamente para as entrevistas foi que, pelo menos, um cooperado na função de gestor, em cada cooperativa, participasse do processo de entrevistas.

Para a análise dos dados, houve a utilização do software Atlas.ti, para apoio na organização textual e construção de esquemas teóricos das categorias definidas nas dimensões econômica e social, ou seja, renda, trabalho, educação e saúde.

Os dados que indicaram a incidência das variáveis da categoria renda (patrimônio/padrão de vida e renda mensal), trabalho (características como autonomia, identidade e coletividade), educação (acesso ao conhecimento e grau de escolaridade) e

saúde (expectativa de vida e acesso a serviços de saúde) foram extraídos a partir das falas dos

entrevistados de acordo com as transcrições das entrevistas efetuadas.

4.3.1 Dimensão econômica

Neste trabalho, a dimensão econômica é entendida como a geração de trabalho e renda na área da reciclagem. Além disso, como ressalta Campos et al. (2009), essa dimensão contribui com outros aspectos como economia de energia, recursos naturais e redução da área para a instalação de aterros sanitários. Vale lembrar que estas alternativas são viáveis para que os catadores de material reciclável possam melhorar suas condições de vida, convergindo para o desenvolvimento do processo de inserção social.

Holanda et al. (2003) descrevem que essa via pode ser considerada por vários aspectos como benéfica para a transformação social e economia dos indivíduos. Assim, as pessoas envolvidas nesse tipo de atividade terão mais acesso à educação, saúde, habitação, meio ambiente, emprego, renda, riqueza, infraestrutura etc.

O termo inclusão e/ou inserção social implica, por outro lado, a construção de uma sociedade na qual as pessoas possam ter oportunidades de compartilhar os mesmos direitos (SILVA, 2005). Já quando se trata de exclusão social, esta é associada aos fatores como renda e justiça social (WERTHEIN e NOLETO, 2004). Essa relação deve ser realizada para que possam ter seus índices minimizados numa sociedade firmada pelas diferenças sociais e econômicas.

É importante citar Souza, Paula e Souza-Pinho (2012) quando dizem que as cooperativas de reciclagem se configuram como alternativas para que os catadores não sejam explorados no complexo mercado da reciclagem. Isso lhes possibilita serem favorecidos na sua renda e, também, em suas condições de trabalho.

Desse modo, se faz necessário que os catadores, reconhecidos como agentes ambientais, sejam apoiados na sua formação profissional e que sua autonomia no ambiente de trabalho seja incentivada.

Não obstante, deve ser levado em conta que a identidade deles como sujeitos de direitos seja respeitada e que o trabalho como cooperados traga significado à vida de cada um deles e à sociedade em que vivem, na qual a economia seja, de fato, mais inclusiva.

4.3.2 Dimensão social

A dimensão social nessa pesquisa é caracterizada pela oportunidade que os cooperados têm à educação e ao acesso a serviços de saúde. A partir do momento em que as cooperativas de reciclagem implementam estratégias que visam minimizar os impactos ambientais causados pelo crescimento de resíduos sólidos urbanos gerados, principalmente nos grandes centros urbanos do país, elas se tornam agentes de integração.

Nesse cenário, a dimensão social, que proporciona acesso à saúde e à educação aos cooperados, é um pilar importante para a construção de uma sociedade mais justa e de um país mais sustentável, no qual a erradicação da pobreza e a diminuição da desigualdade social tendem a assegurar uma melhor qualidade de vida a todos.

Outros dois pilares, não menos importantes, são as dimensões econômica e ambiental que, de acordo com o consultor britânico John Elkington, criador do conceito triple bottom

line ou tripé da sustentabilidade (ELKINGTON, 2000), são conhecidas também como os

“Três Ps” people, planet e profit, ou, em português, pessoas, planeta e lucro. De acordo com esse conceito, um negócio ou organização precisa ser socialmente justo, ambientalmente responsável e financeiramente viável (INSTITUTO FILANTROPIA, 2014).

Castro (2012) argumenta que a reflexão sobre o processo de desenvolvimento de um país não fica circunscrito ao campo da economia, mas inclui elementos inerentes à análise das instituições, das relações sociais, políticas e ambientais e, igualmente, outras áreas do conhecimento humano. O autor afirma que a proteção social dos cidadãos apresenta-se na seguridade social que tem como ideia central a solidariedade às pessoas, famílias e grupos em situações específicas de vulnerabilidade ou dependência, como, por exemplo:

[...] (a) incapacidade de ganhar a vida por conta própria em decorrência de fatores externos, que independem da vontade individual; (b) vulnerabilidade devido ao ciclo vital do ser humano – crianças e idosos, por exemplo; (c) situações de risco, como em caso de acidentes – invalidez por acidente etc. (CASTRO, 2012, p. 1015). A proteção social dos cidadãos conduz, de certa forma, à inclusão deles, que, na visão de Vasconcelos (2007) e Valentim (2007), deve ser compreendida de forma holística, cuja promoção da igualdade social e maximização dos índices sociais e econômicos possibilitam o acesso à saúde, educação, moradia, informação etc., no cotidiano dessas pessoas.

A inserção social prevê, entre outros aspectos, uma educação com acesso amplo ao conhecimento, proporcionando, por intermédio de políticas públicas eficazes e factíveis, um aumento no grau de escolaridade da população. A saúde, na dimensão social, também deve prever acesso a serviços públicos de qualidade e, por consequência, políticas de prevenção de

doenças e acidentes de trabalho, contribuindo assim para o aumento da expectativa de vida da população em geral.

Desse modo, a inserção social deve ser considerada pelos entes públicos, além do terceiro setor e instituições privadas, como um dos caminhos mais eficazes a seguir para que a estrutura social se desenvolva numa perspectiva justa, na qual os valores humanos estejam em evidência (CAMPOS et al., 2009).

No setor privado, as cooperativas de reciclagem assumem papel relevante, visto que reúnem um contingente de trabalhadores que busca melhorar aspectos econômicos (aumentando sua renda) e sociais (valorizando-os ao dar oportunidades de acesso a serviços diversos) (MARTINS, 2003).

Magera (2003) assegura que essas entidades que acolhem os catadores, em sua maioria, são constituídas por pessoas à margem do mercado de trabalho, sem formação educacional e opção de um emprego melhor.

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