Ao discorrer sobre as facetas evolutivas neurológicas da música, Gardner (1994, cap. 06) faz referência a estudos científicos sobre os hemisférios do cérebro e as habilidades da linguagem e da música. Estas investigações demonstraram que as capacidades lingüísticas estão quase que exclusivamente localizadas no hemisfério esquerdo do cérebro e que as musicais, na maioria das pessoas, se processam no hemisfério direito. Quando ocorrem danos no hemisfério esquerdo, a linguagem natural fica fortemente prejudicada, enquanto que há apenas prejuízos relativos para as capacidades musicais. Porém, a ocorrência de problemas no hemisfério direito afeta significativamente a percepção e reprodução dos sons e a apreciação musical. Por outro lado, em artigo mais recente (2004, p.26), Eckart ALTENMÜLLER16 explica que até as técnicas mais modernas de imageamento levaram a explicações incompletas sobre as bases anatômicas e fisiológicas da percepção musical. As causas seriam a complexidade inerente à música, os seus vários aspectos processados em diferentes regiões do cérebro - que, inclusive, podem se sobrepor -, e as diferenças entre os indivíduos. O que se sabe hoje, segundo o autor, é que ambos os hemisférios estão envolvidos de forma assimétrica no processamento musical, o que substitui a crença antiga de que a linguagem e o raciocínio se processavam no lado esquerdo e a música, juntamente com as informações emocionais e espaciais, no direito. Trabalhos recentes demonstram que lesões em qualquer hemisfério podem comprometer as habilidades musicais. Seus estudos com a equipe do Instituto para a Fisiologia da Música e da Medicina da Arte, na Alemanha, dão suporte à teoria de que a percepção da música é hierárquica. Parece que intervalos e ritmos se processam do lado esquerdo, enquanto o direito percebe características gerais como a métrica e o contorno melódico. Portanto, lesões em lados diferentes provocam perdas em capacidades diferentes da apreensão musical. Norman WEINBERGER17 (2004, p.78 - 80) afirma que estudos em indivíduos normais ou com danos cerebrais revelaram que não há um centro especializado para a
16
Altenmüller dirige o Instituto de Fisiologia da Música e da Medicina da Arte na Escola Profissional de Música e Teatro em Hannover, Alemanha.
17
Weinberger é fundador do Cento de Neurobiologia do Aprendizado e Memória e do MuSICA (Arquivo Computacional de Informação sobre Música e Ciência), na Universidade da Califórnia.
música no cérebro. Ela ocupa várias regiões, incluindo as usadas em outros tipos de cognição e as áreas ativas variam de acordo com as experiências individuais e o treinamento musical de cada pessoa. Investigações sugerem que música e fala se processam de forma independente e que compartilham duas propriedades: ambas são meios de comunicação e cada uma tem sua sintaxe, ou regras para a combinação de seus elementos (notas, palavras). O imageamento sugere que uma região do lobo frontal trata da construção adequada da sintaxe da música e da linguagem, enquanto outras áreas do cérebro cuidam do seu processamento. A resposta à música é mais complexa, pois envolve a captação das diversas relações numa seqüência de sons, ativando muitas áreas cerebrais.
As pesquisas, segundo Gardner (1994), revelaram que os mecanismos de processamento e armazenamento da música e da linguagem são distintos. Alguns testes mostraram que pessoas com treinamento específico, diante de tarefas musicais mais desafiadoras, tendem também a apoiar-se, pelo menos em parte, no hemisfério esquerdo de seus cérebros. Ao contrário, um leigo se apoiaria principalmente nos mecanismos do hemisfério direito para a resolução de tarefas ou desafios musicais que lhe forem apresentados. Para Gardner ainda não está claramente explicado o motivo pelo qual os efeitos crescentes de processamento no hemisfério esquerdo são observados com o treinamento musical. Na sua avaliação, se verificamos que o processamento da música pode mudar de lugar em certas atividades, é provável que isto ocorra quando os músicos rotulam verbalmente os eventos musicais e utilizam o hemisfério esquerdo para análises e descrições lingüísticas, próprias de uma abordagem formal. Por sua vez, o indivíduo sem formação musical, orienta-se pelo que ouve e pela sua intuição, baseando-se nas suas capacidades da abordagem figurativa para o processamento da música. ALTENMÜLLER também discorre sobre as diferenças no processamento musical entre leigos e músicos (2004, p. 28): os primeiros comparam alturas diferentes no lado direito, e os músicos têm maior atividade no lado esquerdo do cérebro para diferenciar notas ou acordes. Leigos estabelecem relações rítmicas no lado esquerdo, enquanto músicos o fazem no lado direito. Ou seja, o treinamento leva ao refinamento auditivo e a modalidades diferentes na ativação e nas combinações entre regiões cerebrais para perceber a música. Mesmo entre os músicos profissionais, as capacidades desenvolvidas para a
prática musical das diversas especialidades (técnica específica de cada instrumento, habilidades e campo visual de regentes, por exemplo) levam a combinações e reações distintas na atividade cerebral.
Quando nós aceitamos que as individualidades se manifestam pela forma de utilização da linguagem verbal e nível de compreensão das mensagens implícitas nas falas dos outros, podemos acatar que algo semelhante ocorre na comunicação através da música. O desenvolvimento humano na aprendizagem da fala e da escrita também passa por estágios em que se integram os fonemas, as palavras e seus significados, frases, histórias, estilos literários. Gardner (1994) equipara estes estágios com os da percepção musical, desde a apreensão dos sons isolados e de pequenas frases até a compreensão da sua mais complexa estruturação na música. Concordamos com esta equiparação entre as duas formas de comunicação humana e apontamos para aspectos importantes da sua conexão, que, no nosso entendimento, não devem ser colocados à margem quando atuamos numa instituição de ensino. Partindo desta premissa, julgamos pertinente acrescentar à discussão que um professor, mesmo numa escola especializada de música, pode buscar formas para auxiliar seu aluno, caso ele apresente, em algum grau, defasagens na utilização da linguagem. Referimo-nos aos problemas recorrentes neste domínio, com os quais nos deparamos no cotidiano, e que são resultantes de contingências estruturais do ensino regular no país. De fato, ao lidarmos com nossos alunos em contatos individuais ou coletivos, colocamo-nos diante de situações em que, não raramente, carências na utilização verbal ou escrita da linguagem interagem com as particularidades individuais da desenvoltura musical. Portanto, não julgamos ser deslocada, ou, muito menos desnecessária, uma atitude atenta do professor na orientação dada ao aluno com lacunas no domínio lingüístico, para que ele se conscientize e busque ajuda especializada, caso seja indicada. Esta concepção, compartilhada com vários colegas, inclusive de outras unidades acadêmicas das UFMG, sustenta-se numa visão mais global do ensino, direcionada à integralidade do ser humano.
Em conversa recente sobre este tema com um pequeno grupo, em aula coletiva de piano, uma aluna manifestou a sua preocupação com relação à diminuição das oportunidades que tem para escrever depois do seu ingresso na Graduação em
Música, porque ela julga que há pouca cobrança de trabalhos escritos, por parte dos professores. O depoimento da aluna, que cursa o Bacharelado em outro instrumento, fez com que os colegas presentes se manifestassem, concordando com a dificuldade que às vezes sentiam em passar para o papel, de forma clara, suas opiniões ou reflexões acerca de assuntos diversos. É também por estas razões que temos pedido freqüentemente a cada aluno, no primeiro período do Piano Complementar, que escreva sobre as expectativas ou perspectivas pessoais que o motivaram a procurar uma vaga na disciplina, bem como sobre as suas experiências e sua avaliação, ao término de cada semestre letivo. Além disto, nas aulas coletivas, nós realizamos leituras de textos de autores diversos, poetas, escritores, músicos e professores. Os trechos selecionados para essas atividades tratam de temas tais como arte, beleza, individualidade, interpretação e maturidade musicais e o ensino, tanto de uma forma geral, quanto especificamente musical. Nessas ocasiões, os participantes recebem também o incentivo para que estabeleçam, por escrito, paralelos entre os textos que leram, apresentando as suas reflexões, comentários e possíveis analogias entre as concepções dos autores, ou correlações com a sua própria prática musical.
De fato, acreditamos que ações assertivas nesta linha podem, pelo menos, levar os alunos à tomada de consciência com relação às suas lacunas e resultar, principalmente, em progressos com relação à comunicação das próprias idéias e ao acesso e capacidade de interpretação das idéias de outras pessoas. É preciso ter em mente que muitos graduados vão atuar no ensino, campo profissional que vai exigir, além de conhecimentos musicais específicos, as capacidades de observação e reflexão - sobre as interseções entre as práticas artística e docente - e o domínio da linguagem. A segurança e a fluência neste campo são meios auxiliares para a articulação entre todas as competências profissionais específicas da música e são fundamentais para que estas competências possam ser comunicáveis às outras pessoas. Por fim, espera-se de um músico graduado, tanto quanto do profissional graduado em qualquer área do conhecimento - em especial daquele formado por uma universidade pública -, que ele esteja apto a exercer com excelência o seu papel na sociedade.