Trataremos a seguir de vários aspectos técnicos que ajudarão no conhecimento básico da Flauta Transversal. Em se tratando de especificidades técnicas, vale lembrar que para qualquer instrumentista existem particularidades e exceções que fogem às regras das especificações teóricas, cabendo ao indivíduo adaptar e ajustar sua técnica conforme sua desenvoltura e necessidade.
• Respiração
A respiração empregada por instrumentistas de sopros e cantores é a diafragmática, por permitir o aproveitamento total dos pulmões e o maior controle da coluna de ar. Para os flautistas não é diferente. Com esse tipo de respiração observa-se o enriquecimento na qualidade da produção sonora em frases longas, a ampliação na intensidade do som e a interferência na afinação de notas, principalmente nas mais agudas.
A respiração para os flautistas é essencial na produção sonora, uma vez que é o principal responsável para a emissão do som empregado no momento da execução da peça. O preparo e o controle da respiração são aspectos essenciais para o desenvolvimento técnico deste músico, servindo de alicerce para todo o processo técnico para uma execução de qualidade.
• Embocadura
Uma das características marcantes na execução do instrumento é a embocadura utilizada pelo flautista. Entendemos como Embocadura a forma de posicionar os lábios na flauta para a produção do som.
Segundo cita Thomas Nyfenger, em seu livro Music and the Flute (1986, p. 46), a função da embocadura é a de dar formato e direcionar o jato de ar a partir
dos lábios, dando condições ao flautista de controlar a velocidade do ar expelido e para mudanças de registros e produção de timbres.
A embocadura e a variação da velocidade do ar são responsáveis pela produção das notas musicais em seus diferentes registros. Para as notas da região grave, a pressão e a velocidade do ar devem diminuir, o direcionamento da coluna de ar é voltado mais para baixo, deixando o lábio superior mais para frente. Para as notas medianas, a pressão e a velocidade do sopro aumentam, o jato de ar deve ser direcionado mais para frente e o lábio superior alinha-se com o inferior. Para as notas agudas, a velocidade do sopro aumenta e a abertura do lábio diminui, resultando no aumento da pressão do filete de ar que entra no bocal, e o lábio superior encontra-se mais contraído.
• Afinação
A flauta transversal é fabricada com o diapasão em Lá = 440Hz ou Lá = 442Hz, mas devido a ‘problemas acústicos não resolvidos’32 em seu mecanismo, algumas notas tendem a soar mais baixas ou mais agudas. Cabe ao flautista estar atento, pois cada nota tem tendência de ficar alta ou baixa (afinação) – até mesmo alterações na dinâmica comprometem a afinação, provocando alguma reação do flautista para corrigir, não exatamente a de girar o bocal apenas.
Para afinar a flauta com outros instrumentos, o flautista primeiramente deverá aquecer o instrumento tocando. No caso da afinação estar baixa, o bocal deve ser fechado e, para afinação mais alta, deve-se abrir o bocal. Para este tópico vale lembrar a importância de um ouvido educado e sensível às variações de afinação, uma vez que a desafinação pode ser corrigida com a própria embocadura.
32
• Articulação
Para tratarmos de articulação convém esclarecer seu significado para exemplificar melhor o seu emprego. Encontramos a definição para a palavra articulação no Dicionário de Música Grove (1994, p. 44):
A junção ou separação de notas sucessivas, isoladamente ou em grupos, por um intérprete, e a maneira pela qual isso se faz; a palavra é mais amplamente aplicada ao fraseado musical em geral.
Assim, podemos denominar como articulação os efeitos de ligar ou separar a nota ou agrupamentos de notas para, através de intensidades e duração dos sons emitidos, caracterizarem o fraseado musical.
Para o flautista, a técnica para a execução da articulação deve estar interligada a outros processos como menciona D’AVILA (2004, p. 67):
(...) sabe-se que é impossível dissociar a ARTICULAÇÃO dos processos de EMBOCADURA e da RESPIRAÇÃO, visto que eles se relacionam entre si, resultando a EMISSÃO DO SOM e, consequentemente, as diversas maneiras de articular o som.
Quando tratamos de articulação na flauta, é imprescindível ressaltar o uso da língua na produção do som. Segundo a explicação de RANEVSKY (1999, p. 23), a língua desempenha o papel de uma espécie de ‘válvula’ que permite ou não a passagem da coluna de ar pela embocadura. Esse movimento recebe o nome de golpe de língua. De acordo com WOLTZENLOGEL (1995, p. 94), o golpe de língua produzido pelo flautista dará o caráter mais ou menos acentuado, dependendo do que o compositor escreveu na partitura (staccato, staccatíssimo ou portato):
O ataque mais comum é o simples golpe de língua, que consiste em pronunciar as sílabas “tu” ou “te” no início de cada nota. Este golpe de língua possibilita emitir as notas com ataques curtos e com certa rapidez.
Segundo WOLTZENLOGEL (1995, p. 94), para passagens de grande velocidade em divisões binárias ou quaternárias, o instrumentista recorre ao
duplo golpe de língua, o qual consiste em utilizar um único movimento da língua para produzir dois ataques utilizando as sílabas “tu-ku” ou “te-ke” (para articulação mais incisiva) e “du-gu” ou “te-re” (para articulação mais branda). Para as divisões em ternário, emprega-se o triplo golpe de língua33, cuja pronúncia é a de: “tu-ku- tu”, “te-ke-te” (incisiva) e “du-gu-du” ou “te-re-te” (branda).
Para as notas em legato, que ‘consiste em tocar várias notas sem ataques, com exceção da nota inicial’34, a maior dificuldade encontra-se em manter uma uniformidade na emissão das notas, uma vez que a embocadura varia de nota para nota, dependendo da região: grave, média e aguda.
• Dinâmica
Quando tratamos deste assunto na flauta, cabe dizer que é um dos instrumentos mais difíceis de produzir nuanças entre as intensidades de dinâmica, devido à própria estrutura e mecanismo do instrumento.
Para ajudar na execução de dinâmicas, o controle da respiração e da embocadura é de suma importância e requer muito preparo e estudo de exercícios técnicos específicos para melhor condicionamento e controle de sonoridades específicas.
• Alguns efeitos produzidos na flauta 35 FRULATTO ou FLATTERZUNG
O Frulatto (flatterzung) é produzido pelo pronunciamento da letra “R” a partir da ponta da língua ou guturalmente36 – rrrrrrrrr... – enquanto se toca uma ou
33
Neste caso, a língua fará dois movimentos para produzir três ataques.
34
WOLTZENLOGEL, 1995, p. 68.
35
Todas as definições deste tópico foram retiradas do livro de Celso Woltzenlogel: MÉTODO
ILUSTRADO DE FLAUTA. (1995, p. 311)
36
Gutural: 1. Relativo à garganta. 2. Que (som) é articulado ou modificado na garganta. Definição retirada do NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO DA LÍNGUA PORTUGUESA (1986).
várias notas (geralmente ligadas). Este tipo de efeito é muito usado pelos compositores de música contemporânea e é simbolizado pelas seguintes grafias:
RUÍDOS DE CHAVES e SONS PERCUTIDOS
Para a produção desses efeitos é necessária a utilização das chaves do instrumento. Para os ruídos de chaves usa-se a articulação ou percussão de uma ou mais chaves sem emitir nenhuma nota. Para os sons percutidos utiliza-se do ruído das chaves com sons ‘secos’ produzidos por ataques ligeiros da ponta da língua ao bocal. Estes tipos de efeitos são indicados através de uma bula específica e característica que varia de compositor para compositor (contemporâneo) por não apresentar uma grafia particular para eles.
GLISSANDO
Para este tipo de efeito toca-se a escala cromática girando o bocal para fora – para a produção do glissando ascendente – ou para dentro – para o glissando descendente. Sua grafia é a seguinte:
TOCAR E CANTAR SIMULTANEAMENTE
Consiste em produzir o som utilizando-se da técnica de canto “boca chiuzza” ao mesmo tempo em que se emite o som natural da flauta, movendo-se juntas – como a duas vozes –, e a qualidade deste efeito dependerá da habilidade do flautista na sua produção. Este efeito é utilizado na música contemporânea e no jazz e também não possui uma grafia específica.