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Fifth Conference of Parliamentarians of the Arctic Region

In document of the Arctic Region (sider 47-50)

Começando com a mãe de Antonia, que está a morrer, e que morre a falar mal do seu marido, estas mulheres (Danielle, Teresa, Antonia e a mãe de Antonia) têm pouca necessidade e interesse nos homens, à exceção daquilo que eles lhes podem dar, tendo em conta os seus desejos, quer seja um filho ou uma relação sexual. Isto significa que elas têm necessidade de ter relações sexuais – quer seja pelo prazer, pela procriação ou pelo amor. As cenas de amor, são talvez as únicas em que a mulher funciona como espetáculo (no sentido de Mary Ann Doane), pois o seu corpo é apresentado nu, para o espetador, como a cena em que Danielle está a fazer sexo com o irmão de Letta, e de repente está a fazer o pino, ou como quando Danielle está a fazer amor com a professora de Teresa.

Apesar de, na minha opinião, talvez devido à maturidade que a protagonista atinge, Antonia faz do agricultor Bas um amigo e aliado. Quando a ligação entre estas duas personagens acontece, Antonia já está nos seus quarenta anos, e pouco ou nada revela dos seus desejos sexuais. Após a sua chegada à aldeia, Bas e os seus cinco filhos vão fazer uma visita à protagonista. O agricultor pede a mão de Antonia, mas ela rejeita-o, pois não vê a utilidade do casamento, sobretudo, numa altura da sua vida que é marcada pela sua independência feminina do poder e dos negócios patriarcais. A insistência de Bas passa pela necessidade de encontrar também uma mãe para os seus cinco filhos.

I wanted to have a word. What about?

About you and me… About marriage... I thought that… you being a widow and my wife dead… You are a good-looking woman… My sons need a mother.

But I don’t need your sons. You don’t.

No.

Don’t you want a husband, either?

What for? You can come round from time to time. There’s the odd job we can’t do ourselves, and I’d be grateful if you’d lend a hand.

What’s in it for me?

A cup of coffee, fresh eggs, vegetables.

I’ve got all that myself. Okay. I’ll think about it. (Antonia’s Line, 1995)

Após esta confissão são-nos mostrados os filhos, e todos eles já são grandes, o que nos leva a pensar, sobre a necessidade de Antonia ocupar a posição de mãe. Ela, claramente, não está interessada em ocupar o papel de esposa nem de mãe, mas oferece-se para ser amiga, servindo chá ou preparando o pequeno-almoço. Bas responde que não vê a utilidade desta contraproposta de Antonia (“I’ve got all that myself”), mas acaba por aparecer regularmente na quinta da protagonista. Anos mais tarde ela concorda em dormir com ele, mas não casar, “You can’t have my hand, but you

83 can have the rest.” (Maslin 1996) Eles concordam então em começar a ter estes encontros, mas Antonia pede que seja noutro lugar que não a sua casa, por considerar a confusão feita por ter sempre muitas pessoas nas quintas. Assim, Bas vai construir uma pequena cabana no bosque para que a concretização destes encontros seja possível. Numa cena do filme, Teresa a meio da noite levanta-se quando começa a ouvir vários gemidos. Nesta cena temos a justaposição de três momentos diferentes, numa montagem paralela que põe em relevo três atos sexuais: Deedee está a fazer amor com Loony Lips, Danielle com a professora, e Antonia com Bas (ainda que num espaço geográfico completamente diferente). Numa cena parecida, a Flora de Jane Campion presencia uma cena exatamente igual, ao ver a sua mãe a fazer amor com Baines, mas ambas, como crianças, vão reagir de forma diferente. Ada vai levar a sua mãe à desgraça, enquanto Teresa, embora obviamente incomodada com o barulho, parece indiferente ao sucedido.

Danielle mantém, possivelmente, uma das relações mais polémicas da narrativa, uma relação homossexual com a professora de Teresa. Após conhecer esta professora, Danielle, num momento artístico e criativo, vai imaginá-la como a Vénus, no quadro de Botticelli, nua sobre uma concha (cf. Maslin, 1996).

A filha e neta, Teresa, um prodígio da música e da matemática, ao contrário da mãe e da avó, parece não ser capaz de encontrar um homem com um intelecto igual ao seu, apesar das suas tentativas que vão conferir ao filme, um certo tom de comédia. Assim, também ao contrário de Antonia, insiste num relacionamento especificamente sexual com Bas, e de Danielle, que parece encontrar a pessoa que ama, Teresa vai acabar por se casar com o seu melhor amigo, Simon, com quem cresceu e que a ama incondicionalmente (Steve Taylor 2010; Maslin 1996). Devido às diferenças entre os dois, a dinâmica deste relacionamento será mais distanciado e frio do que os anteriores, uma vez que Simon é capaz de mostrar afeto pela sua filha, enquanto Teresa tem uma preocupação maior com os estudos e a educação. Assim, Teresa, entre as mulheres principais na narrativa, é a única que leva a sua necessidade pela independência ao extremo, incluindo o seu próprio relacionamento com o pai da sua filha. Curiosamente parece que Teresa, continuou onde a sua mãe parou quando precisou de um homem para conceber uma filha.

Desde o seu início que o filme revela uma série de relacionamentos amorosos, para além daqueles que as mulheres principais da narrativa protagonizam. Tal como Ebert argumenta (1996), Loony Lips e Deedee, que têm ambos problemas mentais, encontram a felicidade em conjunto e o padre que um dia atira a sua batina para o ar e grita “I’m free” encontra a sua parceira (Letta) e tem uma dúzia de filhos. No entanto, nem toda a gente parece encontrar a felicidade, como Mad Madonna e o Protestante. Em noites de lua cheia, Mad Madonna abria a janela e uivava, enquanto o protestante ouvia-a. Este foi um dos casais que sofreu com as leis patriarcais e as leis da religião, pois ambas impediram-nos de viver uma vida em conjunto. Assim, todos aqueles que vão depois

84 fazer parte da vida de Antonia, Loony Lips, Deedee, o Padre, Letta, entre outros, vão ter com Antonia como forma de fugir das normas limitadoras da autoridade patriarcal.

1.4. A comunidade

Na opinião de Brussat, Gorris apresenta uma celebração multidimensional da hospitalidade, sobretudo na personagem de Antonia. A protagonista enfrenta e quebra as barreiras da sociedade ao criar um espaço em que todas as pessoas, quer sejam nativos ou estrangeiros, excêntricos ou tradicionalistas, mulheres ou homens, heterossexuais ou homossexuais, jovens ou velhos, tenham um lugar para onde ir e onde se sentem acolhidos e confortáveis. Estas pessoas são aquelas que foram excluídas pela sociedade, como Anthony Bolton declara: “We do not need you. You are not important. We do not want you. You are the cause or our problems. You bring us only suffering.” (2010) Na crítica de Brussat, a hospitalidade de Antonia é uma espécie de reunião com o poder patriarcal, pois ela está a fazer algo que a sociedade estereotipa na mulher, o seu lado maternal, cuidadoso e a fé. No entanto, o resultado desta ação de Antonia pode ser tudo, menos estereotipada, uma vez que ela ajuda sem discriminar e cria um espaço de pessoas que foram rejeitadas pelas normas da sociedade patriarcal. Desta forma, Antonia desafia as leis patriarcais através de um simples ato de ajuda ao próximo. Tal como Brussat descreveu, esta comunidade vai funcionar como um círculo de amigos, que se vão proteger e ajudar, mas acima de tudo, é uma comunidade em que as pessoas vão à procura de liberdade e de paz. Assim, tal como Anthony Bolton (2010) afirma, o filme torna-se numa representação do significado e da importância da hospitalidade. Os excluídos vão ter à quinta de Antonia porque eles encontram um “espaço livre”, um espaço que permite a libertação, e a liberdade; um “space where a stranger can enter and become a friend”.

O primeiro a juntar-se a esta comunidade é Loony Lips que farto de ser maltratado pelas crianças, um dia decide seguir Antonia, depois de ela castigar uma das crianças que lhe atiravam pedras enquanto ele trabalhava. A segunda é Deedee, que como Loony Lips, também parece sofrer de uma doença mental. Tal como Loony Lips, Deedee também é maltratada pela sua família, e sobretudo pelo seu irmão que a viola incessantemente, levando a que Danielle a ajude e a leve consigo para a quinta. Todas as outras pessoas que aparecem na quinta, são pessoas que ou vêm de visita ou de passagem, e encontram em Antonia e na quinta um lugar a que podem chamar casa sem serem julgados. Assim, tal como Anthony Bolton (2010) afirma, esta comunidade será um lugar de união e de força para aqueles que sofreram castigos injustificados e para aqueles que foram rejeitados, neste espaço eles são livres de serem quem querem ser.

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