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A década de 1930 foi um período de transformação para o Rio Grande do Sul

e para o Brasil em todos os segmentos: economia, política, cultura, jornalismo, literatura, etc. Nesse mesmo sentido, como será visto no capítulo sobre a biografia de Erico Verissimo, essa década representou muito para a carreira do escritor, pois foi em 1930 que ele deixou definitivamente Cruz Alta, sua cidade natal, para morar em Porto Alegre.

Para que se entenda o contexto que Erico encontrou nessa fase de mudança de sua vida, far-se-á uma breve contextualização do que estava acontecendo no Rio Grande do Sul nesse período, principalmente no que se refere à política, à literatura e ao jornalismo, a começar pela Revolução de 1930.

Para se entender o contexto da década de 1930, é preciso voltar um pouco mais no tempo, até a crise que atingiu a República Velha9, que vinha se prolongando

ao longo da década de 1920. As lideranças políticas da República Velha estavam perdendo força com a mobilização do trabalhador industrial, com o enfraquecimento das grandes oligarquias e as dissidências políticas, somadas às revoltas nazifascistas (LOVE, 1975). Com esses acontecimentos, a estabilidade da aliança rural entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, que formavam a política do café com leite10, passou a ficar ameaçada.

Nesse contexto surge, em 1926, em São Paulo, a última dissidência do Partido Republicano. Seus dissidentes fundam o Partido Democrático, que defendia diversas reformas, entre elas, o programa de educação superior e a derrubada do Partido Republicano do poder brasileiro. Com isso, São Paulo chegou dividido às eleições presidenciais de 1930. Aqui, abre-se um parêntese para explicar que o maior desgaste republicano deu-se durante a crise de 192911, com a superprodução de café que levou o governo a frequentes desvalorizações de seu preço.

O mercado internacional do café entrara em colapso, em seguida à quebra das bolsas de valores americanas, em outubro de 1929. Em 1930, as cotações do preço do café, em Nova York, caíram à metade do preço de 1929. O Brasil ainda extraía cerca de 70 por cento de suas divisas externas com o café e a contração da economia americana, acompanhada pelas repercussões na Europa, deixou milhões de sacas de café retidas nos portos brasileiros. A valorização, que mantinha o preço internacional do café artificialmente elevado, havia adiado e exacerbado o problema dos estoques excedentes, atraindo novos plantadores interessados na produção

9 Conforme Love (1975), a chamada República Velha foi o período histórico do Brasil que durou entre a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e a Revolução de 1930 que depôs o então presidente da República Velha, Washington Luís.

10 A política do café com leite era um revezamento do poder nacional por presidentes civis influenciados pelo setor agrário de São Paulo (com forte poder econômico devido à produção de café) e Minas Gerais (maior pólo eleitoral do país e produtor de leite). Revezavam-se no poder representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM) (LOVE, 1975).

11 A crise de 1929, ou Grande Depressão, foi uma grande depressão econômica que teve início em 1929 e que persistiu ao longo da década de 1930, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. A crise é considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX, causando altas taxas de desemprego, quedas drásticas do produto interno bruto de diversos países, quedas dramáticas na produção industrial, nos preços de ações, e em praticamente todo medidor de atividade econômica, em diversos países no mundo. O dia 24 de outubro daquele ano é considerado popularmente como o início da Grande Depressão, mas a produção industrial americana já havia começado a cair desde julho, causando um período de leve recessão econômica que se estendeu até 24 de outubro, quando valores de ações na bolsa de Nova York, a New York Stock Exchange, caíram radicalmente, desencadeando a data que ficou conhecida como Quinta-Feira Negra. Dessa forma, milhares de acionistas perderam grandes somas em dinheiro, sendo que muitos perderam tudo o que tinham (KEYNES, 1992).

de café [...] Com a quebra e a depressão internacional, muitos cafeicultores ficaram arruinados e os salários nas fazendas de São Paulo caíram 40 por cento. Em novembro de 1930, 23,6 milhões de sacas de café foram estocadas em São Paulo - quase o dobro da quantidade da exportação anual do Brasil (LOVE, 1975, p. 251).

Dessa forma, seguindo a linha de raciocínio do mesmo autor, em 1930, São

Paulo estava dividido, e o Rio Grande do Sul, que enfrentava uma guerra civil em 1923, estava unido, com o então líder do Estado, Getúlio Vargas, tendo feito o Partido Republicano e o Partido Libertador se unirem.

Com isso, o Partido Republicano Mineiro (PRM) passa para a oposição, formando a Aliança Liberal com os segmentos progressistas de outros estados e lançando Getúlio Vargas para a presidência, tendo o paraibano João Pessoa como candidato a vice-presidente.

Conforme Love (1975), no começo de 1929, Washington Luís indicou o nome do líder de São Paulo, Júlio Prestes, como seu sucessor. Essa indicação foi apoiada por presidentes de 17 estados. Apenas três estados negaram o apoio a Prestes: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Já os políticos mineiros ficaram à espera de que Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, então governador do estado, fosse o indicado por Washington Luís para ser o candidato à presidência. Assim, a política do café com leite chegou ao fim e iniciou-se a articulação de uma frente oposicionista ao intento do presidente e dos 17 estados de eleger Júlio Prestes. Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba uniram-se a políticos de oposição de diversos estados, inclusive do Partido Democrático de São Paulo, para se oporem à candidatura de Júlio Prestes, formando, em agosto de 1929, a Aliança Liberal.

No dia 20 de setembro de 1929, foram lançados os candidatos da Aliança Liberal às eleições presidenciais: Getúlio Vargas como candidato a presidente, e João Pessoa, como candidato a vice-presidente. Nesse contexto, em 1° de março de 1930, foram realizadas as eleições para presidente da República, que deram a vitória ao candidato governista, que era o presidente do estado de São Paulo, Júlio Prestes, que obteve mais de um milhão de votos, contra apenas 742.794 dados a Getúlio, que obteve quase 100% dos votos no Rio Grande do Sul. A Aliança Liberal, no entanto, recusou-se a aceitar a validade das eleições, alegando que a vitória de Júlio Prestes era decorrente de fraude. A partir daí, iniciou-se uma conspiração, com base no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Em consequência, Júlio Prestes não tomou posse e foi exilado.

A Revolução de 1930 iniciou-se no Rio Grande do Sul em 3 de outubro, como descreve Love (1975, p. 259):

Às 5 horas da tarde do dia 3 de outubro iniciou-se a revolta, no instante em que Flores e Aranha comandaram um ataque aos quartéis-generais do Comando Regional; 20 minutos depois Almeida era feito prisioneiro. Do Palácio do Governo, o Secretário do Interior, Alves, ouviu os tiros e interrompeu sua conversa com Vargas para descobrir o que significava aquilo. Não vá, Simplício, disse Vargas serenamente. É a revolução. Vinte pessoas morreram nas lutas em Porto Alegre mas a resistência geral foi fraca. Dentro de um dia o Rio Grande passava completamente às mãos dos revolucionários, enquanto as unidades avançadas moviam-se rumo ao Norte. Os rio-grandenses apoiaram a revolução entusiasticamente e a mobilização militar levou, em poucos dias, 50000 gaúchos aproximadamente a pegar em armas.

Já no dia seguinte, Getúlio publica uma declaração, explicando a revolta, sob o pretexto de excessos políticos de Washington Luís e sua forma de resolver a crise econômica. No dia 12 de outubro, Getúlio assumiu o comando nominal do exército revolucionário e deixou Porto Alegre em direção à linha de frente. No dia 24 de outubro, foi a vez de o Exército dar um golpe no Rio, depondo assim Washington Luís e instalando em seu lugar uma junta militar tríplice. Após esse episódio, Getúlio finalmente tomou posse do Governo Provisório.

Getúlio fez sua entrada triunfal no Rio no último dia de outubro, de uniforme militar, com um lenço vermelho (uma concessão simbólica aos libertadores) e um chapéu gaúcho de aba larga. A 3 de novembro, investiu-se no posto de Chefe do Governo Provisório. Daí a oito dias suspendeu a Constituição e nomeou inventores em todos os Estados, exceto Minas Gerais, governado por seu aliado Maciel. Caíra a República Velha e o Brasil tinha seu primeiro ditador desde o Marechal Floriano Peixoto (LOVE, 1975, p. 261).

Com isso, a Constituição de 1891 foi revogada. Esses interventores eram, na maioria, tenentes que participaram da Revolução de 1930.

Em relação à economia, a República nunca tinha sido atingida tão duramente quanto em 1930. No entanto, a Revolução de 30 representou mais do que a queda do governo, pois ela também marcou o fim de um sistema político, como destaca Love (1975, p. 261), ao mencionar a participação dos gaúchos na Revolução:

Em 1930 os gaúchos estavam singularmente preparados a conduzir uma revolução contra o governo de Washington Luís: dentre os grupos políticos liderantes, os rio-grandenses eram os menos dependentes do sistema econômico internacional e, portanto, os menos arruinados por seu colapso. A Revolução de 1930 constitui-se num veredicto à viabilidade do federalismo brasileiro e da aliança café com leite em que se baseava. A partir de 1930, as mudanças econômicas, principalmente com a industrialização, introduziram novas tensões políticas no Brasil, enfraquecendo as tradicionais lealdades prestadas aos estados. A industrialização impulsionou a migração interestadual. “As rivalidades regionais abriram caminho para outras divisões, especialmente entre a moderna civilização industrial e urbana, de um lado, e o modo de vida agrário, rural e tradicional, de outro” (LOVE, 1975, p. 263). Esse desenvolvimento urbano fez com que se reduzisse a importância do coronelismo, provocando uma transformação parcial da política. Ou seja, “enquanto padrão de comportamento político, o regionalismo declinou depois de 1930, quando novas linhas divisórias apareceram na política brasileira” (LOVE, 1975, p. 267). A partir de então, a questão social passou a ganhar destaque em grande parte devido ao crescimento nos índices de urbanização e industrialização. “Grupos francamente comunistas, socialistas e fascistas subitamente fizeram a política brasileira parecer muito mais moderna” (LOVE, 1975, p. 267).

Outro acontecimento histórico que marcou a década de 1930 foi a Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida por Guerra Paulista, que foi o movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo entre os meses de julho e outubro de 1932. O objetivo da Revolução era a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova constituição para o país. Conforme Love (1975), a Revolução de 1932 foi uma resposta paulista à Revolução de 1930, a qual acabou com a autonomia de que os estados gozavam durante a vigência da Constituição de 1891. Essa foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas. No total, foram 87 dias de combates, com um saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas, não oficiais, reportem até 2.200 mortos, sendo que numerosas cidades do interior do estado de São Paulo sofreram danos devido aos combates (MALUF, 1986). São Paulo, depois da Revolução de 1932, voltou a ser governado por paulistas, e, dois anos depois, uma nova constituição foi promulgada, que é a conhecida Constituição de 1934, oficializada em 16 de julho pela Assembleia Nacional Constituinte. Ela foi a que menos durou, ficando em vigor apenas por três anos, mas

vigorou oficialmente apenas um ano (suspensa pela Lei de Segurança Nacional). O cumprimento à risca de seus princípios, porém, nunca ocorreu. Ainda assim, ela foi importante por institucionalizar a reforma da organização político-social brasileira.

Paralelamente às movimentações políticas, LOVE (1975) destaca a crescente industrialização da época, com a produção industrial registrada em 1937, que atingiu o dobro da produção existente em meados da década de 1920. As mesmas alterações foram registradas no que diz respeito à burocracia nacional e ao Exército, que também foram modificados. Em 1936, por exemplo, Getúlio Vargas introduziu na burocracia um sistema de funcionalismo baseado em méritos. Já o Exército foi ampliado constantemente, durante a década de 1930, recebendo melhor treinamento e equipamentos. Como ditador, Vargas também mantinha o controle sobre a imprensa e, em 10 de novembro de 1937, fechou o Congresso, proclamando a existência do Estado Novo.

O Estado Novo durou até 1945, ano em que Getúlio foi deposto, sendo substituído por José Linhares, então presidente do Supremo Tribunal Federal, como previa a Constituição. Naquele ano, Erico Verissimo já havia abandonado o trabalho de redação, vindo a exercer exclusivamente a atividade de escritor, como será visto mais adiante.