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Como ressaltado anteriormente, o jornalismo gaúcho conheceu duas fases ou regime jornalísticos, sendo que a primeira fase foi formada por um jornalismo político-partidário, que durou justamente até a década de 1930. A partir de então, o jornalismo passa a entrar na era da informação e da indústria cultural (RÜDIGER, 2003). Dessa forma, Erico Verissimo ingressa no jornalismo, justamente quando ele começa a dar seus primeiros passos rumo a essa segunda fase. No entanto, faz-se aqui a mesma ressalva que Rüdiger (2003), salientando que essas transformações ocorreram de forma lenta e que, mesmo indicando uma divisão do jornalismo gaúcho em duas fases, sabe-se que “as realidades são matizadas e se encontram num fluir cheio de tensões e forças contraditórias, que não se deixam apreender em esquemas” (RÜDIGER, 2003, p. 14).

É também importante que se tenha clara essa divisão, porque, como será visto mais adiante, as personagens-jornalistas da obra de Erico estão integradas a essas duas fases do jornalismo gaúcho: algumas delas estão situadas cronologicamente na primeira fase do jornalismo, já destacada quando foi abordado o surgimento da imprensa no Rio Grande do Sul, enquanto outras já vivenciam a segunda fase.

Antes de se retornar ao contexto da Revolução de 1930, deve-se recordar, brevemente, o declínio da imprensa partidária no Rio Grande do Sul. Conforme Rüdiger (2003), esse declínio está ligado justamente às transformações verificadas na estrutura econômica da sociedade, desde o final do século XIX.

Nesse quadro, houve um processo de complexificação social, que possibilitou a consolidação de diversas camadas médias (burocratas, profissionais liberais, pequenos empresários) cujas expectativas de ascensão viriam a constituir um dos fatores de pressão das estruturas políticas às vésperas da Revolução de 1930. Os públicos estavam se multiplicando e diversificando, conforme mostra, por exemplo, a renovação das práticas culturais verificadas nessa época (RÜDIGER, 2003, p. 53). Nesse sentido, Rüdiger (2003) aponta dois pontos fundamentais para essa mudança no jornalismo gaúcho. Primeiro, as transformações econômicas, que fizeram com que os jornais subissem os seus preços. Em 1923, por exemplo, o valor foi dobrado, passando de 100 para 200 réis. O segundo aspecto é justamente as transformações culturais dominantes, que começaram a se reformular devido à transformação que ocorria na estrutura social, como será exposto mais adiante. “A progressiva ascensão das camadas médias teve correspondência na formação de novas expectativas culturais, com as quais o jornalismo político-partidário não era condizente” (RÜDIGER, 2003, p. 55).

No entanto, o mesmo autor salienta que, após a Revolução de 1930 e a chegada de Getúlio Vargas ao poder, o último jornal político-partidário que pode ser caracterizado como integrante da primeira fase do jornalismo gaúcho foi “A Democracia”, fundado na cidade uruguaia de Rivera, na fronteira com o município gaúcho de Santana do Livramento, que circulou clandestinamente em território sul- rio-grandense até 1937.

Outro ponto que não pode ser ignorado nessa contextualização é o surgimento do jornal Correio do Povo, em 1895, que já passa a estabelecer uma concorrência entre o jornalismo informativo e o jornalismo político-partidário

tradicional. Aliás, antes mesmo do surgimento do Correio do Povo, alguns jornais, como o Jornal do Commercio, de Porto Alegre, já propunham, em seus editoriais, novos valores, como a veracidade noticiosa e a imparcialidade (RÜDIGER, 2003).

Na verdade, os periódicos já vinham multiplicando as seções especializadas, como esportes, cinema, vida social, etc., que correspondiam a essa diversificação do público e à modernização da sociedade (RÜDIGER, 2003). Conforme o mesmo autor, dentro desse contexto, pode-se afirmar que as quatro primeiras décadas do século XX marcaram esse processo de transição, sendo a década de 1930 fundamental para a queda do jornalismo meramente político, principalmente em Porto Alegre. “Na capital, a modernização das relações sociais havia progredido, possibilitando uma diminuição da dependência da imprensa em relação ao campo político, conforme patenteava a trajetória do Correio do Povo” (RÜDIGER, 2003, p. 73).

Como os jornais estavam se transformando, os jornalistas, que neles trabalhavam, também se adaptavam ao novo cenário, no qual a lógica da política partidária passaria a ser substituída, aos poucos, pela racionalidade mercantil, além da substituição do exercício literário pela publicidade noticiosa.

Além do Correio do Povo, fundado em 1895 pelo sergipano Caldas Júnior, que já havia trabalhado em A Reforma e no Jornal do Commercio, o Diário de Notícias também se tornou uma referência na época, justamente por também se adaptar a esse modelo de concorrência. “O Correio e o Diário definiram assim um novo regime jornalístico, cuja chave do fortalecimento foi a organização empresarial, como demonstra também o caso da famosa Revista do Globo” (RÜDIGER, 2003, p.80-1). A Revista do Globo, fundada em 1929 pela Editora Globo, que já funcionava desde 1883 em Porto Alegre, foi justamente o lugar onde Erico Verissimo encontraria espaço para atuar como jornalista, a partir da década de 1930.

Disponibilizando de sólida estrutura gráfica e editorial, o quinzenário realizou a façanha de ter sido a primeira publicação gaúcha do gênero que conseguiu circulação nacional e, como tal, ajudou a projetar diversos nomes de nosso meio jornalístico e intelectual, a começar por Erico Verissimo (RÜDIGER, 2003, p. 81).

Na década de 1930, começou a se consolidar esse novo regime jornalístico, com as matérias informativas suplantando os artigos políticos. Outro aspecto para a concretização desse cenário era a ampliação da circulação, que contava com o controle do departamento comercial sobre a redação, no mesmo modelo que se

conhece nos dias de hoje. Esse processo também foi acompanhado pela profissionalização da atividade, transformando esses trabalhadores em uma categoria assalariada. É ainda na década de 1930, conforme Rüdiger (2003), que surgem as primeiras agências de propaganda, estabelecendo uma ligação estrutural entre o modo de produção e o consumo pela mediação dos meios de comunicação.

Nesse aspecto, começa a se fortalecer, enfim, na década de 1930, a ligação dos jornais com empresas jornalísticas de outros ramos:

Na verdade, o desenvolvimento do jornalismo gaúcho, nos quadros da indústria cultural, só ocorreu com a fusão das empresas jornalísticas com as de radioteledifusão e o conseqüente surgimento dos grandes e médios conglomerados de comunicação, verificados a partir da década de 1930 (RÜDIGER, 2003, p. 99).

É justamente nesse contexto que, como será visto no capítulo sobre a biografia de Erico Verissimo, o escritor chega à capital do Rio Grande do Sul, aos 25 anos, com uma mala na mão e a vontade de ser escritor na cabeça. Mas, antes de abordar a trajetória de Erico, deve-se entender como estava a literatura nessa década, literatura que acabou fazendo tanto sucesso ao ponto de ficar conhecida como a geração de 30.