Para a realização do teste, os indivíduos foram posicionados confortavelmente em uma cadeira reclinável com orientação para manter a cabeça voltada para frente e os olhos abertos.
47 Previamente à aplicação do teste, propôs-se aos pacientes que o considerassem como uma espécie de jogo onde eles precisariam apertar um botão para sinalizar o aparecimento do “barulho diferente” (estímulo-alvo) ignorando os estímulos frequentes. Orientou-se que, quando sinalizassem corretamente o estímulo-alvo, estariam “ganhando pontos”. Em todos os sujeitos foi realizado um rápido pré-teste para certificação de que podiam ouvir e distinguir, sem dificuldades, os sons apresentados.
Foram aplicados estímulos auditivos biauriculares, por meio de um fone de ouvido com intensidade de 70 – 80 decibéis, com tempo “rise-fall”=10 ms, platô=100 ms e frequência de estímulo=0,3 Hz. Os estímulos frequentes, com intensidade de 1000 Hz, ocorrem 80% das vezes e os estímulos raros (estímulos-alvo), com intensidade de 2000 Hz, ocorrem em 20%, em uma sequência aleatória, técnica conhecida como paradigma auditivo “oddball” com discriminação de duas frequências tonais.
Utilizamos um aparelho NIHON – Neuropack (four mini) de 4 canais. Nos dois primeiros canais foram obtidos os registros dos estímulos frequentes e, nos dois últimos, os registros dos estímulos-alvo. Foram utilizados eletrodos de superfície posicionados nas regiões centroparietal (Cz) e frontal (Fz), de acordo com o Sistema Internacional 10-20 e seguindo as normas técnicas gerais estabelecidas pela Sociedade Americana de Eletroencefalografia, 1994. A montagem utilizada foi: Canal 1: Fz - mastóides ligados (M12) - estímulos frequentes; Canal 2: Cz - M12 - estímulos frequentes; Canal 3: Fz - M12 - estímulos raros; Canal 4: Cz - M12 - estímulos raros. A impedância máxima aceita foi 5 ohms. Utilizamos largura de banda de 1-50 Hz e o filtro de incisura de 60 Hz. O exame incluiu a média de dez registros obtidos pela apresentação do estímulo raro sendo repetido uma vez para assegurar a confiabilidade dos achados. Para análise final foi considerada a média geral dos vinte registros calculada pelo próprio programa do aparelho. O programa registra apenas a resposta ao primeiro estímulo-alvo, quando mais de um estímulo raro ocorre em sequência e não considera os estímulos-alvo quando estes inauguram o exame. Para
48 marcação do P300 foi considerado o terceiro pico do complexo de potenciais de longa latência ou o maior pico positivo situado entre 250-600 ms. Foram consideradas as latências de pico e todos os valores de amplitude foram medidos em relação à linha de base tendo como referência o traçado pré-estímulo. O tempo total médio de aplicação do teste foi de cerca de 30 minutos (BRAYNER, 2003).
4.3.3.2. Escala Breve de Avaliação da Cognição na Esquizofrenia (BACS)
A Escala Breve de Avaliação da Cognição na Esquizofrenia (Brief Assessment of Cognition in Schizophrenia, BACS) foi proposta por Keefe e colaboradores (2004) como uma bateria que cobre os principais domínios cognitivos afetados na esquizofrenia, com boas propriedades psicométricas, portátil, de curta duração e fácil de administrar. Constitui-se, portanto, em uma boa opção para avaliação cognitiva rápida dos pacientes. Foi utilizada a versão brasileira da BACS, cuja sensibilidade e aplicabilidade foram recentemente validadas em nosso meio (SALGADO et al, 2007). Seu tempo total médio de aplicação é de cerca de 40 minutos. Os domínios cognitivos avaliados e as respectivas tarefas aplicadas são:
(1) Memória verbal e aprendizagem: lista de palavras
São apresentadas 15 palavras aos pacientes e a seguir é solicitado aos mesmos para dizer o máximo possível de palavras que puderem lembrar. Este procedimento é repetido 5 vezes. Medida: rememoração verbal (número de palavras).
(2) Memória de trabalho: tarefa de sequenciamento de dígitos
São apresentados oralmente aos pacientes agrupamentos de algarismos de comprimento crescente (por exemplo, 936). É então solicitado aos mesmos que digam ao examinador os algarismos apresentados em ordem crescente, do menor para o maior. Medida: número de respostas corretas.
49 (3) Velocidade motora: tarefa motora com fichas
São fornecidas aos pacientes 100 fichas plásticas e lhes é pedido para colocá-las o mais rápido possível em um recipiente, ao longo de 60 segundos. Medida: número de objetos colocados no recipiente durante os 60 segundos.
(4) Fluência verbal: fluência semântica ou categorial e fluência fonética ou por letra
Fluência semântica: é dado aos pacientes o tempo de 60 segundos para que os mesmos nomeiem tantas palavras quanto possível dentro de uma dada categoria (ex., nome de animais). Medida: número de palavras geradas.
Fluência de Palavras por Letra Inicial: em duas tentativas separadas, é dado aos pacientes o tempo de 60 segundos para que gerem o maior numero de palavras possíveis com uma letra específica. Medida: número de palavras geradas.
(5) Atenção e velocidade de processamento da informação: tarefa de codificação de símbolos
É apresentado aos pacientes um conjunto de símbolos e explicado como cada um dos símbolos individualmente corresponde a um dos algarismos de 1 a 9. A seguir, solicita-se aos mesmos que preencham o número correspondente abaixo de uma série de símbolos, o mais rápido possível. O limite de tempo para esta tarefa é de 90 segundos. Medida: número de itens corretos.
(6) Raciocínio e resolução de problemas: tarefa da Torre de Londres
Os pacientes devem olhar simultaneamente para duas gravuras. Cada gravura mostrará três bolas de cores diferentes organizadas em três pinos, mas as bolas estão dispostas de forma diferente em cada uma das gravuras. O paciente deve responder, então, o número mínimo de
50 vezes em que as bolas de uma gravura teriam que ser movidas para tornar o arranjo de bolas idêntico ao da outra gravura. Medida: número de respostas corretas.
A tabela 1 resume as tarefas e os domínios cognitivos que cada uma avalia.
TABELA 01. Tarefas da BACS e domínios cognitivos avaliados
Tarefa Domínio
Lista de palavras Memória verbal e aprendizagem
Tarefa de sequenciamento de dígitos Memória de trabalho
Tarefa motora com fichas Velocidade motora
Tarefa de fluência semântica e fonética Fluência verbal
Tarefa de codificação de símbolos Atenção e velocidade de processamento
Torre de Londres Raciocínio e resolução de problemas
4.3.3.3. Escala de Avaliação da Cognição na Esquizofrenia (SCoRS)
A SCoRS é uma entrevista de avaliação da função cognitiva composta por 18 itens. Estes itens foram desenvolvidos para avaliar os domínios cognitivos da atenção, memória, raciocínio e solução de problemas, memória de trabalho, linguagem e habilidades motoras. Estas áreas foram escolhidas devido à severidade do prejuízo destes domínios em muitos pacientes com esquizofrenia e a demonstrada relação destas áreas com prejuízos em aspectos do funcionamento social. Cada item é dividido em uma escala de quatro pontos. Pontuações maiores refletem maior grau de prejuízo. A administração completa da SCoRS inclui duas fontes de informações distintas que originam três diferentes avaliações: uma entrevista com o paciente, uma entrevista com um informante próximo do paciente (membro da família, amigo, assistente social, etc..) e uma avaliação do entrevistador que aplicou a escala ao paciente e ao informante. A avaliação do entrevistador reflete a combinação das duas entrevistas incorporadas às suas observações sobre o paciente. Uma avaliação global é determinada após a avaliação dos 18 itens (KEEFE et al., 2006). Utilizou-se uma
51 versão feita por processo de tradução e retro-tradução para o Português do Brasil por Fábio Lopes Rocha, com a aprovação do autor original (FERREIRA et al., 2010).
4.3.4. Instrumentos para análise do material biológico