51 É um tema bastante atual, na Nona Conferência Anual da Internacional Society for
Neoplatonic Studies (ISNS), ocorrida em Atlanta, EUA, 2011, um painel foi dedicado ao Comentário Anônimo ao Parmênides e sua relação com o neoplatonismo e os textos gnósticos
sethianos. Neste painel, pesquisadores como J. D. Turner (The Anonymous Parmenides
Commentary: State of the Question), Z. Mazur (Traces of Gnostic Influence in the Transcendental Epistemology of the Anonymous Commentary on Plato’s Parmenides), D.
Burns (The Anonymous Commentary on Plato’s Parmenides, the Roman Gnostics, and the
Question of the Christian Contribution to Neoplatonism) e T. Rasimus (Porphyry and the Gnostics: Reassessing Pierre Hadot’s Thesis in Light of the Second- and Third-Century Sethian Treatises), acompanhando Gerhard Bechtle, defenderam a tese de uma origem medioplatonica
Ainda que haja diálogos diretos entre Plotino e os gnósticos que freqüentaram sua escola de filosofia, tem-se considerado que muitos dos elementos em comum são provenientes não necessariamente dessas trocas, mas de uma fonte utilizada por ambos os grupos que teria permitido essa aproximação entre eles.
Tem sido defendida a ideia, contrária à posição de Hadot e Majercik52, que atribuem a autoria da obra a Porfírio, de que o Comentário
Anônimo ao Parmênides é de origem medioplatonica e teria, portanto,
influenciado a redação dos textos gnósticos sethianos e as ideias desenvolvidas por Plotino.
Corrigan (2000, p. 142) afirma que “o Comentário é pré-Plotiniano, provavelmente surgiu de um membro da ‘escola’ de Cronius e Numênio.” Referindo-se ao estudo de Corrigan, Burns (2010, p. 163) afirma que este, “seguido de Turner, argumenta que os tratados sethianos são dependentes do comentário anônimo de Turin ao Parmênides de Platão, e este comentário é anterior a Porfírio.” Isto nos faz repensar o lugar de Plotino na história do pensamento “e indica a necessidade de repensar algumas das principais características do medioplatonismo e da relação entre o círculo de Plotino e os gnósticos” (Corrigan, 2000, p. 142).
Isto se dá devido ao fato do Comentário apresentar ideias sobre o Um e o múltiplo que antes poderiam ser consideradas “inovações” plotinianas. Isto em nada diminui a grandeza de Plotino, pois como filósofo ele não está interessado em criar uma doutrina, mas trazer suas próprias reflexões filosóficas a partir de doutrinas já existentes, e certamente Plotino é genial ao fazê-lo: “O que vemos em Plotino não é uma lista de doutrinas inovativas, mas uma forma incomum e criativa de fazer filosofia. [...] Plotino não cria doutrinas, ele filosofa sobre elas” (Corrigan, 2000, p. 146).
Admitir a origem medioplatonica deste comentário ao Parmênides, e perceber o quanto ele é próximo das ideias apresentadas nas Enéadas e de algumas defendidas por alguns textos sethianos, nos faz perceber de forma
52 Explicitada por Corrigan em seu artigo Platonism and Gnosticism. The Anonymous
mais clara que Plotino está inserido em um contexto bastante amplo, e de certa forma está “seguindo” uma “linhagem filosófica”.
O fato de Corrigan colocar o Comentário como tendo surgido próximo a Numênio torna tudo ainda mais interessante, já que Numênio não só é referido como instrutor de Amônio, como é sabido que era lido na escola de Plotino, e que em algum momento as ideias de Plotino se pareceram tão semelhantes às de Numênio que chegaram a acusá-lo de plágio segundo nos conta Porfírio em Vita Plotini 17. E, como vimos no primeiro capítulo do presente trabalho, o pensamento de Numênio se aproxima do gnóstico em alguns pontos. Parece haver uma interligação forte entre o Comentário
Anônimo ao Parmênides, Numênio, Plotino e alguns gnósticos.
Tudo isso reforça a ideia de que Plotino estaria inserido em uma “teia” de trocas e diálogos filosóficos, e que, na verdade, o que Plotino apresenta é uma sequência muito bem orquestrada de ideias que já existiam e que ele desenvolve à sua forma.
A doutrina apresentada no Comentário Anônimo ao Parmênides pressupõe o Um e o Intelecto plotiniano, como nos informa Corrigan (2000, p. 143). Também a “ordem de geração no Comentário é semelhante à de Plotino. No fragmento 12 (do Comentário) o Um é transcendente; não é ser determinado, nem substancia nem ação; é atividade puramente irrestrita.” (Corrigan, 2000, p. 147). Também se pode salientar que “alguns argumentos em Plotino são semelhantes a outros já formulados na tradição neopitagórica, de derivar a díada da mônada” (Corrigan, 2000, p. 149), por exemplo.
Por outro lado, encontram-se semelhanças também do Comentário em relação aos textos sethianos. Turner (2000, p. 196) afirma que “apesar de menores diferenças na nomenclatura, a semelhança estrutural e funcional da tríade no Comentário a Parmênides e nos tratados sethianos platonizantes é clara.” Comenta ainda que apesar de Corrigan e Majercik discordarem a respeito da autoria e datação do Comentário, ambos concordam “que os tratados sethianos platonizantes dependem do Comentário Anônimo ao
Parmênides”53 (Turner, 2000, p. 204). Os sethianos, citados por Porfírio em
VP16, estariam então na dependência do Comentário tanto quanto Plotino.
Um dos temas mais discutidos dentro dessa questão é a origem da tríade Ser-Vida-Intelecto, que Corrigan considera ser certamente pré-plotiniana. “As tríades gnósticas explícitas são plausivelmente pré-plotininanas, elaborações platônicas na tradição caldáica do tipo desenvolvida por Amélio (Corrigan, 2000, p. 155). Segundo este autor, Damáscio também teria, posteriormente, atestado a existência de uma tríade caldáica explícita.
Tudo isso coloca em cheque o estado da questão e nos faz talvez perceber de forma diferente como o platonismo se estruturou até o desenvolvimento do neoplatonismo, e como os gnósticos se relacionam com isso. Este Comentário Anônimo ao Parmênides, cujos fragmentos hoje se tem acesso, é considerado “uma fonte em comum tanto para os gnósticos quanto para Plotino, Amélio e Porfírio” (Corrigan, 2000, p. 155).
Para Narbonne (2011, p. 7) ele teria sido produzido em torno do ano 200 d.C. Isso o coloca em contato com o rico ambiente filosófico do século II d.C., onde no lado gnóstico temos Basílides em Alexandria falando insistentemente sobre o Agnostos Theos e Valentino desenvolvendo suas ideias de forte matriz platônica54. E, por outro lado, temos todos os
neopitagóricos e medioplatonicos, como Numênio, que pareciam tentar entender o que há de pitagorismo no platonismo, ao mesmo tempo, no caso de alguns, buscando depurar o platonismo do aristotelismo.
Portanto, data-se o Comentário “dentro do ambiente platonista- neopitagórico do segundo século, de modo a dar tempo suficiente para que ele tenha exercido a influência que parece que exerceu nos textos gnósticos platonizantes” (Corrigan, 2000, p. 156) e em Plotino.
53 Isso reforça a impossibilidade do Comentário Anônimo ao Parmênides ser de autoria de
Porfírio, pois se os tratados sethianos platonizantes (em especial Alógenes e Zostrianos) já existiam na escola de Plotino quando da chegada de Porfírio e se o Apócrifo de João não poderia ter sido escrito após o ano 180 d.C. por haver sido comentado por Irineu de Lyon, então, assumindo que de fato esses textos têm no Comentário Anônimo uma fonte em comum com Plotino, tal Comentário só poderia ter sido escrito no século II d.C, e não no século seguinte.
54 “Os mestres gnósticos do século II d.C. assimilaram materiais próprios da especulação
Narbonne (2011, p.7) afirma que os tratados 9 a 11 (sendo o nono [VI 9] especialmente importante para nosso trabalho) são onde pela primeira vez Plotino “coloca as bases para a interpretação do Parmênides de Platão e desenvolve sua teoria das três naturezas, e a do Um transcendente”. Para esse autor, tais tratados deveriam ser lidos “como um posicionamento estratégico em face às interpretações metafísicas dos platonistas sethianos que o antecederam e tomaram por base o mesmo texto platônico”, o Comentário
Anônimo ao Parmênides.