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3. METODE

3.5 Feltarbeid

Em 1977, 1980 e 2001, foram expressas, respectivamente, as seguintes opiniões: “o existencialismo, embora defendendo o socialismo, permanece preso aos limites da questão moral”; “o existencialismo de Sartre complicava um pouco a objetividade da peça”, ou ainda “ficava mergulhado no individual, não entrava numa visão mais coletiva, no indivíduo como pertencente a uma classe social, a uma categoria, enfim, essa visão marxista, digamos, da coisa”. As três, embora afastadas no tempo, são construções de Fernando Peixoto e referem-se ao pensamento de Jean-Paul Sartre e à escrita de Mortos

sem Sepultura.

Na verdade, atendem a diferentes propósitos. Assim, a primeira está no programa do espetáculo,1 momento em que o diretor procura explicar a leitura, interpretação e adaptação que faz da peça teatral e do pensamento do dramaturgo. A segunda, por sua vez, insere-se num contexto mais amplo: no exercício de recuperação que Peixoto efetua de sua trajetória artística e cultural.2 Já a terceira é parte do depoimento3 em que ele discute a montagem do texto. Contudo, ainda que essas passagens estejam situadas em momentos distintos, seja no “calor do acontecimento”, isto é, contemporaneamente à encenação; seja no exercício posterior de rememorá-la,4 um dado não pode ser negligenciado: a escritura de

1 Esse texto foi posteriormente publicado em:

PEIXOTO, Fernando. Porque, como e para que reviver os “Mortos”. In: ______. Teatro em Pedaços. São Paulo: Hucitec, 1989. p. 209-214.

2 Id. Uma trajetória em questão. In: ______. Teatro em movimento. São Paulo: Hucitec, 1985. p. 61-76. 3 Depoimento concedido aos professores: Dr. Alcides Freire Ramos e Dr.a Rosangela Patriota Ramos em

Novembro de 2001 para o projeto integrado O Brasil da Resistência Democrática: o espaço cênico, político e intelectual de Fernando Peixoto (1970-1981). Não publicado. Em verdade a pesquisa que aqui se apresenta é originária deste empreendimento maior.

4 O termo “rememorar” não deve ser aqui compreendido como uma simples recordação ou lembrança.

Partindo dessa extensão, Carlos Alberto Vesentini evidencia de forma crítica a maneira pela qual esse exercício foi singularmente efetivado pelos agentes envolvidos na “Revolução de 30”. Em verdade, avaliando sistematicamente temas, agentes e lutas, o autor “retorna” ao processo e demonstra a maneira pela qual “1930” constitui-se como “revolução”. Em torno desse empreendimento intelectual, o “rememorar” cumpre um papel: “Por isso é assustador a posição do agente quando assume a atitude de distanciamento relativo, sendo sua isenção garantida pela procura da melhor interpretação possível. Não a atitude em si mesma. Como deixar de aceitá-la? Idem quanto ao lembrar e refletir conjuntamente. Situar o problema, revê-lo na perspectiva do tempo, criticá-lo ou recuperá-lo fazem parte da retomada da função do agente”. (VESENTINI, Carlos Alberto. A obra de transubstanciação e as nuanças do rememorar. In: ______. A teia do fato: uma proposta de estudo sobre a Memória Histórica. São Paulo: Hucitec, 1997, p. 44.) Essa retomada da “função do agente”, ou seja, daquele “eu” que rememora está repleta de significados e complementa com novas nuanças o que se pode chamar de “fato histórico”. Assim, é inspirando-se nesse sentido de rememorar, proposto por Vesentini, que se procura investigar o trabalho de “refazer” ou “reconstituir” que Fernando Peixoto concretiza ao retornar à sua leitura da obra/pensamento de Jean-Paul Sartre.

Mortos sem Sepultura e, conseqüentemente, o pensamento de Sartre são submetidos a uma nova temporalidade.

Produzido na França no ano de 1946, esse texto dramático traz à tona embates, contradições e possibilidades que se correlacionam intrinsecamente com o “lugar” histórico-social em que seu autor organiza e legitima suas idéias. Assim, o processo criativo de Mortos sem Sepultura singulariza uma determinada visão de realidade. Todavia, é indispensável considerar que toda leitura “inventa, desloca e distorce”,5 e, portanto, essa mesma visão, ao ser (re)lida e interpretada, adquirirá novos contornos. O olhar que Fernando Peixoto lança para a construção artística e intelectual de Sartre é permeado pelo presente, tempo em que esse exercício está posto. É fundamentalmente este presente o responsável pelas “(re)invenções”, “distorções” e “deslocamentos” que o diretor faz desse objeto.

Um exercício de reflexão sobre essa retomada das idéias de Sartre no ano de 1977 deve ser perpassado por algumas questões: que aspectos da obra/pensamento do dramaturgo serão explicitados? E quais serão “esquecidos”? De que maneira os temas como “projeto”, “responsabilidade”, “liberdade” e “ação” – os quais sobressaem na peça – serão relidos pelo diretor? Entretanto, ainda que aspectos dessa obra sejam questionados, isso não invalida a sua retomada. Nesse sentido, será que é possível afirmar que as questões trazidas por essa construção são importantes, mas a solução dada a elas é o motivo de discordância?

Esses questionamentos direcionam a discussão para dois campos. O primeiro refere-se às ressalvas e contraposições feitas por Peixoto. O segundo, por sua vez, se relaciona à necessidade e ao significado dessa retomada. Porém, independentemente do nível priorizado, o fio condutor dessa abordagem deve ser mediado pela seguinte instância: a partir de que perspectiva a obra/pensamento de Sartre são contrapostos e/ou aceitos?

Pode-se afirmar que, ao eleger essas questões, prioriza-se a reflexão sobre o vínculo entre diretor e dramaturgo e, certamente, pelo viés que este último lhe fornece. Desse modo, o que se destaca do pensamento de ambos é o propósito de discorrer sobre a relação entre Indivíduo e História. Contudo, à luz das referências históricas e intelectuais de cada um, as conseqüências a retirar dessa intrínseca relação são distintas. Assim,

5 CHARTIER, Roger. A História entre Narrativa e Conhecimento. In: ______. À Beira da Falésia: a história

entre incertezas e inquietude. Tradução de Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Ed. Universidade/URRGS, 2002, p. 93.

acompanhar a maneira pela qual Peixoto avalia e (re)propõe o conteúdo da obra/pensamento de Sartre a partir do campo teórico em que esses intelectuais desenvolvem suas idéias é o objetivo deste capítulo.

“Na verdade o texto privilegia a problemática individual em relação ao