O esquema da Ilustração 1 (p. 55) apresenta uma proposta do modelo de análise dos centros novas oportunidades (CNO) articulando modelos de ação com dois modelos interpretativos: o neoinstitucional e o cultural. A nossa análise da ação local baseia-se nos
processos de estruturação dos atores, baseados nas transações dos fora-dentro e dos dentro-
dentro (Torres, 2008) da organização. Construiu-se o objeto de estudo a partir das práticas dos
coordenadores e de individualidades com experiência na área de educação de adultos ao nível
54 interpretação das estruturas e regras, do sistema educativo de múltiplas influências, obtendo a
dimensão desejada para a nossa análise, que é a dimensão organizacional dos centros novas
oportunidades (CNO).
Na interseção entre ação dos atores e as estruturas, que se vão configurando, obtém-se a dimensão organizacional. Interpretam-se as construções e as reconstruções dos CNO através dos significados das políticas, expressos pelos atores. Existem várias categorias de atores, atuando a vários níveis. A cultura dos CNO poderá evidenciar traços da nova cultura de aprendizagem ao longo da vida e/ou da educação de adultos em Portugal.
Pretendemos identificar o conjunto de recursos simbólicos utilizados para manter o funcionamento da organização, que mostram as estratégias de ação (por exemplo a regulação identitária e os logótipos), as evoluções da organização ao longo do tempo e as tensões organizacionais.
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AESCOLACOMOENTREPOSTOCULTURAL
(DIMENSÃO ORGANIZACIONAL)
MANIFESTAÇÕES DAS CULTURAS DO CENTRO NOVAS
OPORTUNIDADES: (a integradora e a diferenciadora) Europeização Estado- -nação/ ator social
Construção da identidade social do centro novas oportunidades
por integração e por diferenciação. Instituições internacionais Educação de Adultos em Portugal ATOR- -INSTITUIÇÃO CULTURAS
ALINGUAGEM COMO AÇÃO
- a organização é (os significados dos atores)
Local
Educação e sociedade Tran sn ac ion al Nac ion alC
ONFIGURAÇÃO DAS RELAÇÕES ENTRE MODELOS NO CONTEXTO DA AÇÃO56 3.3.1. O centro novas oportunidades como entreposto cultural
Se queremos estudar a organização centro novas oportunidades (CNO), então precisamos
de evidenciar o seu nível meso (Lima, 2008). Para isso vamos usar a imagem a escola como
entreposto cultural (Torres, 2008) que utiliza o modelo cultural numa perspetiva dinâmica, processual, onde a cultura da organização se constrói e sedimenta ao longo do tempo por interação entre os indivíduos e as estruturas que estão dentro da organização, e as pessoas e as estruturas que estão fora da organização, e que não ignora a luta política. Esta metáfora é uma abordagem sociopolítica da escola (Silva, 2006), já que permite uma visão interpretativa e uma análise de processo social, tal com a autora explícita:
[…] defendemos a adopção de uma focalização interpretativa e crítica da cultura
organizacional que enfatize a sua natureza processual, dinâmica e dialéctica. Em termos fenomenológicos, o processo de construção da cultura organizacional constitui uma forma de hibridação, […] (Torres, 2008: 60).
Nesta linha procuraremos estudar o resultado das influências no centro novas oportunidades do contexto político-administrativo, das regras e das leis impostas pela administração, e do contexto das comunidades, resultantes das relações com os adultos, com a comunidade da
instituição-promotora e os com os parceiros sociais. Utilizando e adaptando a imagem a escola
como entreposto cultural (Torres, 2008), procurar-se-á colocar a manutenção da identidade
cultural da organização centro, sedimentada ao longo da história, na tensão do fora político-
-administrativo com os dentro da organização, por construção e reconstrução dos atores
resultando em metamorfoses da cultura. A organização formal será vista como resultante de processos sociais, internacionais e nacionais, desenrolados ao longo do tempo, cujos produtos
se foram sedimentando. Os movimentos de interação dos vários dentro (atores políticos) e dos
fora (contextos) poderão produzir tensões que fazem atualizar a organização permitindo ver, ao nível local, algumas das suas faces.
3.3.2 Culturas nas organizações
As organizações são objetos de estudo complexos e podemos observar as suas culturas sob várias perspetivas.
Na perspetiva de cultura integradora (Martin, 1992), os líderes organizacionais criam a cultura e a mudança organizacional. As culturas organizacionais conseguem unir os seus elementos em torno de compromissos, incrementando a lealdade e a produtividade.
57 A cultura organizacional é observada como um sistema de símbolos partilhados e de significados. O discurso é estruturado segundo um padrão simbólico (Smircich, 1983).
Numa perspetiva de cultura diferenciadora (Martin, 1992), a unificação da organização está baseada na existência de subculturas onde existe clareza e consistência no seu interior apesar de existir inconsistência no seu exterior. Os grupos, dentro das organizações, têm várias interpretações sobre os mesmos factos e lutam pelos seus interesses. Essas lutas podem ser
aproveitadas pelos gestores na procura de soluções.
Neste estudo observa-se se a simbologia comprova a organização centro novas
oportunidades (CNO) e se essa simbologia revela a dicotomia igual/diferente da instituição- -promotora ou da ANQ, I.P.. A interpretação de um sistema partilhado de símbolos faz-se através dos processos pelos quais as pessoas partilham interpretações e significados, de forma a
poderem organizar a ação. Trata-se de um instrumento para saber como existe a organização
(Smircich, 1983). O foco da atenção dos investigadores está na linguagem, nos símbolos, nos mitos, nas histórias e nos rituais como processos que desenham a organização.
Através da análise da história do centro, observamos os acontecimentos marcantes ao
longo do passado e do presente e poderemos perspetivar o futuro da organização (Pettigrew,
1979). Relaciona-se o grau de maturação dos centros com a emergência de estruturas diferenciadoras dos CNO.
Analisam-se algumas histórias organizacionais que definem e refletem o sentido, o significado e as tensões da ação organizacional e que delimitam as fronteiras da organização. Este conjunto de caraterísticas permite distinguir a organização do exterior e tornam-na singular
(Martin et al., 1983).
Os acontecimentos de rutura nas organizações dão origem a novas rotinas. Este padrão pode-nos indicar que sinais ocorrem, nas interações entre os contextos dos fora e o que já está estabelecido no sistema, que conduzem a tais processos de transformação. Vamos fazê-lo por análise de histórias comuns: organizações diferentes, com diferentes conceitos e em diferentes períodos de tempo, têm histórias idênticas, com aspetos comuns da vida organizacional.
Em todas as organizações existe desigualdade no poder, capacidade para sobreviver
dentro da organização e desejo de controlar os resultados obtidos. Nas histórias positivas, o
coletivo dos empregados aparece como responsável pelos sucessos, as falhas são corrigidas pelos empregados com a ajuda das organizações e são motivadas por fatores ambientais. Nas histórias negativas, o sucesso é atribuído ao trabalhador individual e a forças benevolentes do
58 ambiente e as falhas provêm do interior das organizações. Estas histórias explicitam os detalhes, mas têm uma moral implícita, logo são veículos para afirmar a singularidade das organizações.