1.2 Previous work
1.2.3 Feeding techniques
Ao longo dos anos as abordagens modificaram-se. Isto pode ser visto em função do tempo em que foram produzidas, um reflexo de influências de correntes teóricas, pela metodologia de campo adotada ou até mesmo devido a uma necessidade que escapa o ambiente acadêmico, como os trabalhos de resgate emergencial.
Os primeiros estudos tiveram a importância de definição de culturas arqueológicas se sua distribuição pelo território nacional. Outras abordagens enfatizaram o espaço intra-sitio, com escavações sistemáticas, a gerar informações importantes no tocante a diferentes práticas de acordo com uma organização espacial, que, se corroborada com estudos etnológicos, fornecem subsídios para reflexões de cunho social. Estudos sobre outras modalidades de sepultamentos revelaram uma variabilidade de maneiras em relação ao que foi inicialmente definido para a Tradição Aratu-Sapucaí.
Esta heterogeneidade de abordagens, sem dúvida, gerou uma dificuldade de comparação. Contudo, o intuito desta revisão, basicamente, é aproveitar informações sobre o posicionamento dos sítios e os materiais evidenciados e, quando possível, coletar dados referentes à utilização das categorias de artefatos bem como o posicionamento deles no espaço intra-sítio.
62 Assim, o mais comum é a localização dos sítios em terrenos ondulados, a céu aberto, que na maioria dos casos são aldeias circulares, com vestígios de sepultamento, fogueiras, artefatos líticos e cerâmicos. Dentre os líticos, com grande freqüência encontrou-se: lâminas polidas de machado; blocos com depressões centrais entendidos como quebra-cocos ou bigorna para lascamento bipolar; material lascado, com grande recorrência do quartzo. Em menor grau aparecem polidores fixos, núcleos, mão de pilão, seixos (seja como alisadores ou como percutores) e grandes blocos. Cabe destacar que os artefatos líticos nem sempre são apresentados em estudos ligados à mencionada Tradição.
Nas publicações aqui apresentadas, são recorrentes informações sobre fragmentos cerâmicos, rodelas de fuso (modeladas ou feitas a partir de cacos) e, em menor grau, cachimbos tubulares. Dos vasilhames sabe-se que as formas são simples, com raras as formas complexas. Há presença significativa de piriformes, meia-calota, globulares, hemisféricos, cônicos, vasilhames com bordas extrovertidas. Chama atenção a ocorrência de vasilhames abertos com borda ondulada (ou acastelada para alguns). Mesmo em menor grau, ao que tudo indica, as formas vegetais são exclusivas desta Tradição. A grande maioria dos potes não apresenta decoração, sendo estas geralmente pensadas como influências de outra Tradição, no entanto, ao que tudo indica, o engobo vermelho é um elemento que sempre aparece23.
Seria preciso um estudo comparativo detalhado para pensar sobre a questão das decorações, o que foge de nossa proposta. Todavia, mesmo se considerarmos decorações como algo externo e introduzido na Tradição Aratu-Sapucaí através de contatos com outros grupos ceramistas, elas não foram feitas de qualquer modo como uma simples cópia.
Lílian Panachuck (2007) em um breve estudo comparativo entre cerâmica Tupiguarani e Aratu-Sapucaí constatou que estes decoram seus potes com um estilo próprio, ou seja, apresentam uma maneira Jê, com decorações restritas a determinadas partes do pote, espe ifi a e te s o das, ao i s do ho o ao azio Tupigua a i. No aso de elementos plásticos, os motivos são feitos com mesmo tamanho e espaçamento entre eles, que no entender da autora podem ser interpretados como um rigor da fita métrica, bem diversos dos motivos encontrados em vasilhames Tupiguarani, sem recorrência entre os
63 espaçamentos, com um preenchimento total do vasilhame. Isto foi interpretado pela autora como um modo de se situar no mundo de forma rigorosa, característicos de vários grupos etnográficos falantes de língua Macro-Jê.
Pelas publicações, temos informações que os potes Aratu-Sapucaí possuem grandes dimensões, no entanto, poucas publicações apresentaram estimativas com relação ao volume. Alguns apresentam capacidades volumétricas de 1, 10, 20 litros, outros até 50 litros. Somente na publicação de Caldarelli (2003) temos urnas com capacidade de até 144 litros, embora nos contextos cotidianos as capacidades giram em torno de 50 litros, com poucos ultrapassando esta medida24 (Robrahn-González, 1996; Oliveira, 2005).
Já os dados referentes a tratamento de superfície são praticamente impossíveis de serem comparados uma vez que com a utilização das categorias e alisado , alisado fi o , alisado tos o , se e u i a e te pa a u a oleç o em particular, são termos relativos. As informações sobre queima deixam claro uma predominância da redutora, com núcleo escuro, com maior ocorrência queima oxidada, ou quase totalmente oxidada, em potes pequenos. Não obstante, I. Wüst (1983) procurou discernir modificações na queima, a reparar que fragmentos de base ou próximos a ela, mesmo espessos, apresentam oxidação, o que levou a autora a interpretar como modificação pelo uso.
Com relação aos antiplásticos identificados, sem sombra de dúvida o quartzo, o feldspato são os mais comuns, devido às fontes de argila utilizadas, possivelmente terraços fluviais. Entretanto em alguns locais aparecem o caco-moído (ES, MG, GO) e cariapé A e B (GO). Se estes elementos foram intencionalmente inclusos nas pastas por motivos de contato, ainda não é nada certo, apesar das associações com Tupiguarani (caco-moído) e Uru (cariapé). Uma pena que nem todos os textos procuraram relacionar os tipos de pastas com categorias de potes, pois quando isto foi feito (Wüst, op.cit.), demonstrou apropriado rigor nas escolhas, como certas decorações só em pastas exclusivas, ou pastas específicas com determinados potes (Sabino et alii, 2003).
64 Percebe-se que a Tradição Aratu-Sapucaí, possui uma ampla difusão pelo Brasil, encontrado-a nos estados da BA, MG, GO, TO, ES, SP, MT. Como aponta Prous (1992: 346- 47) temos também a ocorrência dela no CE e SE. Recentemente, identificaram uma ocorrência até no norte do PR (Schimitz & Rogge, 2008). Consensualmente, supõe-se que está associada a grupos falantes do tronco lingüístico Macro-Jê (Schmitz et alii,1982; Brochado, 1991; Prous, 1992, Fausto, 2000), inclusive alguns trabalhos (Wüst, 1983; Viana, 1996; Oliveira, 2005) procuraram dialogar com a etnologia para pensar em questões ligadas ao uso do espaço.
Não nos aprofundamos em datações sobre os sítios das referidas publicações por não dispormos, até o momento, de datação pata o Sítio Vereda III, impossibilitando assim uma comparação. Contudo, através de uma revisão feita por L. Fernandes (2003) temos que a Tradição Aratu-Sapucaí possivelmente teve aproximadamente uma duração de 1200 anos. Reproduzimos abaixo um quadro com datações de sítios dos estados da BA, ES, GO, MG e SP:
65 Gráfico 1: Cronologia de sítios Aratu e Sapucaí. Extraído de Fernandes (2003: 104)
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