A dissertação de mestrado de Henry Luydy A. Fernandes (2003) é fruto de um salvamento arqueológico, realizado entre 1996 e 1998, em que os vestígios resgatados corriam riscos eminentes de destruição completa. O sítio está situado num pequeno vale comprimido entre dois contrafortes, um boqueirão, exatamente em uma vila rural. Seja na parte central da vila ou nos quintais das casas, os vestígios, predominantemente urnas funerárias, começaram a aparecer com as chuvas. Foram identificados cerca de 120 enterramentos dos quais um total de 64 puderam ser escavados.
O autor acrescentou mais informações a respeito dos enterramentos filiados à Tradição ceramista em pauta, visto que eles assumiram grande importância em sua
57 classificação. Em seus próprios dizeres: Queremos verificar nas estruturas sepulcrais de Piragiba as práticas de enterramento procuradas por Oliveira e Viana, os dados e
informações requeridos por Prous e as informações e dados importantes procurados por
Wüst. Ibid: 25). Contudo, ao fazer esta contribuição não a faz de maneira acrítica:
Apesa da o stataç o te e osa de e ta e te esta os fo ça do para dentro de um molde que não mais suporta o seu conteúdo, ou seja, as novas evidências e dados retirados de sob a terra, admitimos ser de considerável valia manter essa nomenclatura consagrada, cientes das suas falhas, porém, reconhecendo que ela faculta um intercâmbio com o já produzido e um diálogo fácil, de rápida apreensão, entre os pesquisadores da atualidade e destes o os t a alhos editados h a os. I id: 29)
Além de apresentar formas de sepultamento inéditas para a referida tradição no estado da Bahia, um grande diferencial deste trabalho está em ter realizado estudos de tafonomia sobre as quebras das urnas, uma valiosa preocupação com a formação do registro arqueológico. Este estudo mostrou-se extremamente relevante para uma análise crítica dos conteúdos de um vasilhame sepulcral, porquanto contribuiu significativamente para uma diferenciação de acompanhamentos funerários propositadamente depositados dos a o pa ha e tos i t usos , ou seja, a ueles ue ade t a a a u a ju ta e te o o sedimento invasor. O auto ta se p op s a espo de a u a pe gu ta u ial: quem veio antes o morto ou a urna?
A maioria esmagadora dos sepultamentos foi feita em urnas funerárias tampadas por opérculos conoidais, recipientes menores depositados sobre a urna (56 dos 64 escavados), com a consagrada morfologia piriforme. O menor vasilhame possui uma dimensão de 25cm de altura, 33cm de diâmetro máximo e 21cm de abertura, o maior com 71cm de altura e 59cm de diâmetro máximo, além de muitas urnas com dimensões em escalas sucessivas e graduais (Ibid: 151-152). Foi constatado que os sepultamentos em urnas são primários, uma vez que foram identificados pequenos ossos das mãos e dos pés, os sesamóides, que dificilmente seriam depositados no caso de enterramentos secundários devido ao tamanho diminuto. As formas de sepultamentos diferenciadas até então para a Tradição no Estado da Bahia correspondem ao decúbito dorsal e a posição fletida, ambos depositados direto no solo.
58 Apenas dois sepultamentos em decúbito dorsal foram escavados. Eles são acompanhados por dois recipientes cerâmicos, um depositado abaixo do crânio, voltado para cima como se fosse um travesseiro, cuja morfologia apresenta um bicão numa extremidade, com laterais possuindo bordas onduladas, de modo a lembrar uma forma vegetal, possivelmente uma folha. Contudo o que poderia vir a ser um pecíolo foi quebrado para a deposição do crânio do indivíduo, como demonstra a figura 16.
O outro vasilhame que acompanhava o sepultamento possui uma morfologia conoidal, igual a dos opérculos. Depositado entre o tórax e maxilar do defunto com a boca virada para baixo. Possui dimensões de 35cm de boca e altura estimada em 28cm. A posição do corpo exumado, nesta modalidade de sepultamento foi a seguinte:
O esqueleto, sem sombra de dúvidas, totalmente articulado, foi acomodado com a face ligeiramente voltada, cerca de um oitavo para a direita, olhando para o nascente. Os braços estão dispostos ao lado do corpo, os antebraços vão se sobrepondo ao abdômen de tal modo que é possível que as mãos repousassem sobre a genitália. Há um cruzamento dos ossos do antebraço direito, o que permite antever a palma da mão direita voltada para baixo, embora a posição dos ossos do carpo, metacarpo e falanges não tenha se sustentado, indo, parte destes pequenos ossos, para entre os fêmures. Uma suave flexão para a esquerda existe entre o esqueleto axial e os membros inferiores. As pernas estão plenamente estendidas, com os joelhos e pés bem juntos, lado a lado. I id:
A outra modalidade diferenciada de sepultamento corresponde aos fletidos, com um total de quatro escavados. Nesta forma de inumação se destaca um grande recipiente cônico, emborcado de maneira a tampar completamente o crânio (figura 17), além de vários
Figura 16:Vasilhame que continha o crânio do seúltamento em decúbito dorsal. Extraído de
Fernandes (2003: 164). Figura 17: Desenho de
sepultamento fletido. Extraído de Fernandes (2003: 176)
59 fragmentos cerâmicos depositados sobre os membros inferiores. Um enterramento desta modalidade foi encontrado ao lado de outro em urna funerária em contexto possivelmente associado, com distância de 6cm apenas.
O exemplar de vasilhame com forma vegetal, ao que tudo indica, é algo não tão raro à Tradição Aratu-Sapucaí, como argumentou Prous (1992) (ver figura 18 ao lado).
Para responder a pergunta exposta acima quem veio antes o morto ou a urna?
o autor faz uma comparação entre o tempo mínimo da manufatura de uma urna e o tempo de decomposição do cadáver. O tempo mínimo de confecção do grande vasilhame piriforme foi calculado sem se levar em consideração as interdições culturais de cunho simbólico e ideológico. Para o levantamento do pote, de acordo com dados de uma etnoarqueologia feita por seu orientador (Carlos Etchevarne) em uma comunidade do recôncavo baiano, o tempo mínimo é de oito dias (Fernandes, 2003: 198). Para pensar sobre o estado do corpo dentro destes oito dias foram consultadas obras gerais que tratam deste tema, o que levou a seguinte conclusão:
Co sulta do as itações e t aídas dos auto es pa a fo a u a imagem do estado do corpo a essa altura do processo de decomposição se configura uma cena pouco alentadora. Um cadáver totalmente enegrecido, inflado, com aspecto gigantesco, de órbitas vazias, com a mucosa anal sendo expelida, exalando intensamente gases pútridos e coberto de inquietas larvas de insetos. Mesmo sem estar mais imobilizado pela rigidez cadavérica, é completamente inviável manipular um cadáver nesse estado. Não é uma questão de repulsa, culturalmente condicionada, ao aspecto escatológico, porém, sim, uma questão de impossibilidade física: um corpo inchado e estufado pelos eflúvios do apodrecimento não tem condições de ser fortemente flexionado nas suas articulações para passar pela abertura exígua das urnas funerárias, muito menos de assumir uma posição acocorada dentro do bojo. Portanto, ao fim e ao cabo desta investigação, nos arvoramos em afirmar que a urna preexiste, havendo a necessidade de ser colocado o defunto em seu interior com a maior brevidade possível, antes que se instalem os fenômenos cadavéricos que tornarão impossível esta ope aç o. (Ibid: 207-208)
Assim sendo, o arqueólogo parte para uma detalhada descrição dos processos tafonomicos sofridos pelas urnas, informando-nos, que o rachamento das urnas ocorre de maneira relativa ao local em que as mesmas foram inseridas. Comparando-se urnas do sítio
Figura 18: Desenho de recipiente cerâmico de forma vegetal, Ibiá-MG. Extraído de Prous (1992:348)
60 Piragiba com urnas de São Felix do Coribe (uma cidade que dista 192 Km em relação à primeira), foi constatado que a fragmentação das urnas no primeiro caso é diferente da fragmentação das outras urnas em função da diferença de solo em que estavam depositadas. Enquanto as urnas de Piragiba foram depositadas em um solo argiloso, portanto plástico, com grande capacidade de retração e expansão, as de São Feliz do Coribe foram postas num local de solo arenoso que propiciou um equilíbrio entre as forças externas e internas no vasilhame (Ibid: 214).
O esquema de fragmentação das urnas piriformes está feito em função de partes frágeis e resistentes de um pote de morfologia piriforme. Pegando-se o eixo principal do vasilhame há 3 arcos: da base com traçado elipisóide; do bojo com traçado aberto; da abertura, com arco circular interrompido (ver figura 19).
Pois bem, por uma constatação proveniente da arquitetura sabe-se que o arco da base suporta as maiores forças e as distribui eficazmente, além de, geralmente, ser a parte mais espessa do pote. Portanto, a base é a parte mais resistente do pote. O arco do bojo por possuir um traçado aberto, quase reto, com uma espessura que diminui à medida que se aproxima da borda, caracteriza-se por uma resistência baixa. O arco da borda possui particularidades, se não fosse interrompido, possuiria uma resistência intermediária entre o da base e do bojo, entretanto, com tal interrupção torna-se mais frágil que o bojo (Ibid: 211). Portanto, é o arco mais frágil de um pote. Para encerrar esta importante e inédita contribuição tafonomica foi esboçada uma cronologia relativa desde o enterramento até ao estado exumado pelos arqueólogos que, resumidamente, consiste nestas cinco etapas: inumação; decomposição dos tecidos humanos; início da fratura das urnas; ruptura e invasão pelos sedimentos; imobilização dos ossos (Ibid: 234).
Por último, foi feita uma diferenciação dos acompanhamentos funerários entre p opositada e te depositados e i aso es , le a do-se em consideração a integridade Figura 19:Desenho esquemático dos arcos de uma
urna bem como pontos de fratura. Extraído de Fernandes (2003: 210)
61 do artefato, sua profundidade (visto que os invasores estarão depositados acima do crânio, por exemplo) e recorrência. No caso, os acompanhamentos mais recorrentes são as rodelas de fuso em cerâmica, grande quantidade (mais de 80) de contas em diáfise de osso de animal, pingentes de dente de animal perfurado, tembetás e vasilhas hemisféricas, uma inteira apenas. Todavia, nenhum trabalho foi feito no sentido de interpretação dos possíveis significados das indumentárias sepulcrais.
Nada foi descrito com relação às pastas dos vasilhames e artefatos líticos, apenas que foram exumadas lâminas polidas de machado, lascas, núcleos, raspadores, pontas de p oj til, les as , fu ado es e pil es, sem menção aos tipos de matérias primas. Diferente neste sítio são as lâminas de machado lascado, mais de cem, que estão atualmente em processo de análise pelo autor.