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februar 2009 av forsknings- og høyere utdanningsminister Tora Aasland

Centro e periferia são conceitos chave nas ciências sociais para descrever as relações entre os grandes poderes e os pequenos poderes.33 Este conjunto

interligado de conceitos pode ajudar a aprofundar a questão dos pequenos beligerantes na Primeira Guerra Mundial. Com efeito, a capacidade de perdu- rar no combate dos pequenos beligerantes está também ligada à relevância estratégica da sua situação geoestratégica. Se eles são um ator interveniente que pode, de algum modo, influir na evolução da guerra, também podem se tornar um alvo remunerador para a ação de um dos blocos de coligados. Acon- tece, que sempre que essa situação se deu, os pequenos beligerantes sofreram pesadamente os seus efeitos. Nesse sentido, sendo relevantes para a equação estratégica dos grandes beligerantes, seus oponentes ou seus aliados, interessa aos pequenos beligerantes, na conjuntura da guerra, situarem-se numa zona periférica da conflagração, onde o empenhamento das maiores potências seja relativamente reduzido, porquanto, sempre que adquirem centralidade, o resultado, dado o desequilíbrio bélico que então acontece, torna a sua situação muito periclitante, quando não catastrófica. Se por alguma razão, as frentes onde operavam os pequenos Estados se tornassem no “olho do furacão”, o seu efeito sobre estes era em geral catastrófico.

Os pequenos intervenientes na Primeira Guerra Mundial concentram-se essencialmente na frente Balcânica. Com efeito, nos Balcãs situam-se a quase 33 Sobre os conceitos de centro e periferia, e para uma síntese, Cravinho (2006). Na verdade,

os termos remetem fundamentalmente para os estudos sobre o sistema capitalista, a globaliza- ção e as questões relacionadas com o desenvolvimento económico. Nada impede todavia, e porquanto se está a falar de grandes potências e pequenos poderes, assim como sobre Estados desenvolvidos e subdesenvolvidos, que não se possa aplicar estes termos a temas estratégicos.

totalidade dos pequenos Estados com uma intervenção substantiva na grande conflagração – Sérvia, Montenegro, Bulgária, Grécia, Albânia e Roménia. Fora deste conjunto, só estão Portugal e a Bélgica. Ambos participaram na mais intensa de todas as frentes da Primeira Guerra Mundial, a mais dinâ- mica em termos de intensidade em “mão-de-obra militar” e em tecnologia muito avançada, aonde os efeitos da guerra moderna mais se fizeram sentir. Todavia, em cada um dos casos, com uma participação em pequena escala, periférica em situação geográfica, e no caso particular de Portugal, apenas por um período de tempo relativamente curto, abril de 1917 a abril de 1918.34 À Bélgica coube a defesa das posições aliadas no extremo mais a

norte de toda a frente de batalha, inicialmente, apenas com cerca de 6 km de extensão e num terreno de tal modo aquífero que tornava qualquer ataque um pesadelo que inviabilizava em boa medida qualquer ideia de uma ofen- siva para o atravessar. A frente belga chegaria com o tempo aos 38 km de extensão, sempre num terreno muito favorável à defesa e que permitia ao governo belga e aos seus comandos militares uma gestão prudente da estra- tégia militar que mitigasse o expender de combatentes. As forças belgas foram-se adaptando às necessidades táticas, técnicas e estratégicas da guerra, sendo confiáveis, eram igualmente muito reduzidas – a Bélgica mobilizaria, como indica o Quadro 1, cerca de 350 mil combatentes – e isso era um ele- mento condicionante de toda a gestão política e estratégica do Rei Alberto I. Assim sendo, a despeito do exército belga operar no principal teatro de guerra da Primeira Guerra Mundial, ele fê-lo numa zona periférica do mesmo e num terreno que o defendia de enfrentar todo o poder destrutivo de uma qualquer ofensiva germânica. Esta política reflete-se num custo humano da guerra relativamente barato – cerca de 40 mil mortos, 12,2% do total de mobilizados, o que compara favoravelmente com os 15,4% de franceses e 16,8% de alemães mortos na conflagração – quando comparado com o de outros membros da Entente, mesmo no teatro ocidental da guerra (Simoens, 2017, pp. 7-8).

34 As forças do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) começaram a chegar a França em

janeiro de 1917, não obstante, só em abril de 1917, companhias da expedição tomaram posição na frente de batalha. Como um todo, a 1.ª Divisão só exerce comando de setor em junho de 1917 e o Corpo de Exército do C.E.P. só toma conta do seu setor em novembro de 1917. Como força combatente o C.E.P. desaparece na denominada Batalha do Lys ou de La Lys, em 9 de Abril de 1918. Poder-se-ia acrescentar a este período de cerca de um ano na linha da frente das forças nacionais expedicionárias, aproximadamente mais um mês em outubro e novembro, em que dois batalhões do C.E.P., integrados em brigadas britânicas, participavam na ofensiva final. A guerra durou cerca de quatro anos e meio. Sobre estas datas seguimos a cronologia de Borges e Marques (2018, pp. 437-441).

O mesmo sucede com o Corpo Expedicionário Português na Flandres. Tam- bém as forças militares portuguesas foram enviadas para França, para o mais exigente de todos os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, mas igualmente, aqui, foram posicionadas quando entraram em campanha num terreno considerado mais seguro e onde se previa que não seria efetuado um grande esforço ofensivo por parte do exército do II Reich. A força era, com efeito, muito pequena para a dimensão do esforço de guerra que era feito na frente ocidental – cerca de 57 mil soldados, e que de uma penada poderiam ser pulverizados por uma ofensiva alemã – lembremo-nos que o primeiro dia da Batalha do Somme custou à British Expeditionary Force, cerca de 57 mil homens, dos quais cerca de 19 mil mortos (Hughes e Philpott, 2005, p. 54) –, o que acabaria por acontecer a 9 de Abril de 1918, dia da denominada pelos portugueses Batalha do Lys ou Batalha de La Lys, e que dizimaria a força expe- dicionária portuguesa – a 2.ª divisão, com 21.071 efetivos, perdeu nesse dia 7.355 homens, cerca de 35% do efetivo (Telo e Marquês, 2017, p. 456). Sempre que um dos blocos optou por centrar o seu esforço de guerra e a sua máquina ofensiva sobre um dos pequenos poderes, as suas forças militares e o país, se fosse igualmente o alvo da ofensiva, sofreriam pesadamente as conse- quências.

Por quatro vezes durante a Primeira Guerra Mundial, essa situação ocorreu, com efeitos devastadores para os pequenos poderes neles envolvidos. O pri- meiro caso deu-se com a Bélgica em 1914, situada no centro da manobra ofensiva alemã sobre a França. O segundo caso aconteceu com a Sérvia em fins de 1915 quando Berlim resolveu eliminar a “gangrena” representada pela resistência sérvia em face da Monarquia Dual. O sucesso sérvio resultara, como já se observou, em parte do facto de o grosso do exército austro-húngaro ter-se de concentrar defronte da Rússia – com efeito, em 1914, Viena mobi- lizara cerca de 450 mil soldados para a frente balcânica e 1 milhão para a fronteira Habsburgo-russa. Contra os 450 mil austro-húngaros, Belgrado mobilizara 400 mil militares e face a um comando austríaco excessivamente confiante no seu estatuto de grande potência, puderam os soldados sérvios bater duas invasões sucessivas, em agosto e em outubro de 1914. Ora, a ofen- siva de 1915, não só foi muito melhor planeada, com um ataque concêntrico a partir de norte, oeste e sul, aproveitando o novo aliado búlgaro, como dispôs de uma superioridade de 2 para 1 em forças terrestres, 600 mil soldados da Tríplice para 300 mil sérvios e montenegrinos, e uma imensa superioridade em artilharia (Hughes e Philpott, 2005, p. 42). A heroica retirada sérvia, por muito brilhante que possa ter sido, e por muito mítico-simbólico em que possa ter sido transformada pelos aliados, não inibe a catastrófica derrota mili- tar dos sérvios, nem a ocupação do país, com uma brutalidade que prenun-

ciava a natureza totalitária da Segunda Guerra Mundial. Isolados e no “olho do furacão”, os sérvios foram impotentes para travar o cataclismo que lhes caiu em cima. E os custos desta derrota com a ocupação do país mediram-se nas imensas perdas que a Sérvia contabilizou no fim da Primeira Guerra Mundial, cerca de 250 mil militares mortos, o que numa população de 4,5 milhões de habitantes, talvez nem se pudesse considerar como um grande custo, quando comparado com os outros beligerantes, mas há que adicionar mais 350 mil a 600 mil mortos civis, e isto perfaz no limite máximo, cerca de 1/4 da popula- ção do país (Prost, 2014, pp. 5 e 11)35.

Situação similar aconteceria um ano depois com a Roménia, excessivamente confiante em entrar ao lado das “potências aliadas”, confiante numa guerra em fim de estação, de que só seria preciso saber colher os frutos. Bem amargos foram estes, com a Roménia a ser vítima de outra ofensiva concêntrica das forças militares das Potências Centrais, a sul, norte e leste, que ocupou a quase totalidade do país e que acabaria por forçar Bucareste a uma capitulação por tratado de paz em maio de 1918, o que não impediu a redeclaração de guerra ao II Reich em 10 de novembro de 1918, com vista a poder colher os doces frutos de uma vitória amarga (Cf. infra). Também aqui, as perdas civis foram colossais, se bem que menores que na Sérvia, cerca de 250 mil militares a que se juntam entre 250 mil e 450 mil civis (Prost, 2014, pp. 5 e 11)36. A Romé-

nia, igualmente posta no “olho do furacão” foi impotente para confrontar quase sozinha o poderio da Tríplice, quando decidida a esmagar o seu pequeno oponente.

O caso português é outro exemplo, a um nível menos estratégico, e bem mais tático, e por isso sem os devastadores efeitos que a destruição de boa parte do exército e a ocupação produziu na Sérvia e na Roménia. A 9 de abril, o pri- meiro dia da operação “Georgette”, o Corpo Expedicionário Português foi despedaçado pela ofensiva alemã, naquela que terá tido, no seu arranque, a maior concentração de fogo de artilharia alemã de toda a guerra.

O caso búlgaro é o último exemplo, também aqui já referido. A frente mace- dónica, conhecida pelos aliados de frente de Salónica, foi uma linha de con- frontação relativamente calma entre 1916 e o outono de 1918. Aqui estava estacionado o Exército do Oriente, composto por um heteróclito conjunto de forças, oriundas, quer da metrópole, quer dos impérios francês – vietnamitas, senegaleses e malgaxes – e britânico, quer por forças gregas e sérvias, que em setembro de 1918 contabilizava aproximadamente 650 mil efetivos. Estas for- ças tinham sido constrangidas, na sua ação, por imensas questões logísticas, de 35 Vejam-se igualmente os quadros existentes neste capítulo.

saúde, e de política local, além de questões de moral. Todavia, em setembro de 1918 estavam bem preparadas para a ofensiva. Frente a elas estava um exau- rido e isolado, como se observou, exército búlgaro. Neste contexto, mesmo sem ser uma frente central, o diferencial de poder era então já muito relevante, e sem o sustentáculo das Potências Centrais, a capacidade de resposta bélica búlgara à ofensiva aliada estava muito diminuída. Com efeito, a superioridade aliada rondava em geral os 2,5 para 1 em infantaria e os 3 para 1 em artilharia, nas principais linhas de ataque dos aliados – Dobre Pole e a zona do Lago Doiran (Ivanov, 2012, pp. 24 e 67). A rutura da frente selou a questão da perdurabilidade da Bulgária na guerra (Chanoir, 2017).

Ironicamente, aqui pode-se observar também de uma forma positiva a rele- vância dos pequenos beligerantes, no quadro do esforço de guerra geral e no contexto das dinâmicas centralidade-periferia. Com efeito, as forças gregas, entretanto mobilizadas, e já relativamente bem preparadas, contabilizavam com 1/3 de todo o Exército do Oriente, 10 divisões, e 34% do efetivo total, tendo contabilizado 50% dos mortos dessa força, no período de tempo em causa (Skaltsogiannis, s.d.). Se a esta força, juntarmos as seis divisões sérvias, cerca de 100 mil homens, pode-se deduzir que sem a contribuição preciosa desses dois pequenos beligerantes, o Exército do Oriente não teria tido o poderio necessário para se lançar contra as fortes defesas búlgaras na frente macedónica. A frente macedónica era periférica, a mais periférica de todas as frentes ou teatros de guerra da Primeira Guerra Mundial; todavia, era uma das linhas de contacto entre os beligerantes, e uma zona de interação e pressão, na qual tiveram um papel relevante na decisão final da contenda dois pequenos países e essa situação contabilizou para o subsequente bom resultado da polí- tica da guerra de ambos esses Estados – pelo menos, inicialmente, no caso grego. Acresce ademais o impacto psicológico que a rutura desta frente terá tido nas exaustas Potências Centrais e a inevitabilidade de assumirem a der- rota, incapazes de prolongar o combate e impotentes para bloquear a brecha criada. É plausível assumir que, com outra pujança, a rutura na frente mace- dónica não tivesse sido mais do que pormenor no contexto da sua luta, mas em 1918, exaustas pela guerra, nem a Alemanha, nem a Áustria-Hungria, nem a Sublime Porta tinham já capacidade para supurar uma ferida que gangrenava rapidamente, e em consequência, só lhes restou assumir a impossibilidade de manter o combate. Ora, três pequenos beligerantes foram essenciais para o desfecho da luta na frente da Macedónia e isso espelha que num quadro de um jogo interacional e de acordo com uma conjuntura própria, um pequeno poder pode fazer a diferença.