Uma última possibilidade redundaria na capacidade de um suposto pequeno poder-se agigantar por via de uma determinada dimensão imaterial. O poder não é estritamente material. A ideia de soft power advém dessa realidade (Nye, 2012, pp. 39-43). Há capacitações de poder que derivam de dinâmicas não materiais, imateriais, a influência diplomática ou a pujança cultural são igual- mente fontes de poder. Já se observou como a potência pode derivar da influ- ência, e que um ator pode condicionar outros, impondo-lhes determinada atitude, por via apenas de existir. Na língua portuguesa, a própria ideia de potência carrega subliminarmente esta ideia. Tanto pode ser o potencial, o que pré existe em potência, como o vitalizável, o realizável e o efetivo ato de agir7.
7 Veja-se, por exemplo, in Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa [online] os diversos signi-
Nesse sentido interessa olhar agora para o potencial cultural dos pequenos beligerantes e visualizar se de algum forma ele suplantava e por larga margem as suas dimensões demográficas e económicas, fazendo desta arraia-miúda material um potentado de influência – cultural e política – internacional. Em 1900 os países do norte da Europa e da América do Norte tinham alfabetizado cerca de 90% a 100% da sua população – nos quais se devem incluir os domí- nios britânicos do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, situação semelhante acontecia com o Japão. Na Europa do sul, só os Balcãs ultrapassavam os 50% de alfabetizados, estando a Rússia e a Península Ibérica abaixo dos 50% – entre os 50% e os 30% –, o resto do mundo rondando os 20% ou menos de alfabetizados (White, 1997).
Quadro 5 – literacia na europa em 1900
Países Alfabetização
Países Nórdicos, Alemanha, Escócia, Holanda e Suíça ≈ 98%
Inglaterra e País de Gales ≈ 88%
França, Bélgica e Irlanda ≈ 80%
Áustria e Hungria ≈ 70%
Espanha, Itália e Polónia ≈ 40%
Rússia, Balcãs e Portugal ≈ 25%
Fonte: Candeia e Simões (1999, p. 168).
Estes dados não deixam de espelhar um atraso, e bem grande em certos casos, dos pequenos beligerantes, em termos educativos, face às grandes potências da Europa central e do norte. Com efeito, enquanto países como a Alemanha e a Grã-Bretanha eram quase que completamente alfabetizados, os países do sul só tinham cerca de 1/3 da população alfabetizada. Para além de serem demo- gráfica e economicamente débeis, estes países eram igualmente muito menos alfabetizados que a maioria das grandes potências europeias. Como é muito provável, o atraso educativo desses países refletia-se no seu atraso económico e na sua dimensão demográfica. É certo que a Sérvia tinha mais de 77% de alfabetizados em 1900, o que se refletia numa cultura política mais participa- tiva (Sarenac, 2014, p. 101)8. Escapa a esta regra também a Bélgica, situada no
norte da Europa, de há muito com uma forte taxa de alfabetização.
8 Observe-se que em 1912-1913 a população da Sérvia duplicou assim como o seu território,
no quadro da anexação de espaços dos Balcãs, até então sob domínio do Império Otomano (Cf. supra). Isto obviamente mudou a taxa de alfabetização da Sérvia.
Pode-se então pensar que dada esta peculiar característica, a Bélgica teria um poder de influência maior que os outros pequenos Estados europeus de então. Isto não era de todo irreal. A Bélgica assegurara para si, através do domínio que sobre esse território tiveram o Rei Leopoldo II, o vastíssimo Congo, cerca de 2,4 milhões de Km2 inseridos no centro de África. Afinal, a Bélgica era um
Estado civilizado e moderno. Não obstante, um país atrasado como Portugal também assegurara para si cerca de 2,5 milhões de km2 de territórios em
África. Não bastava o certificado de civilizado. O contexto da ocupação belga do Congo tem tanto de resultante da sofisticação e modernidade da sociedade belga, quanto dos jogos de equilíbrio internacionais entre as grandes potências europeias. Convinha aos grandes potentados europeus entregar essa vastidão territorial a um Estado pequeno, considerando que esta situação salvaguar- dava e delimitava a competição dos poderes europeus por esse território. Algo de semelhante aconteceu em parte com a situação de Portugal, à qual se jun- tou uma presença muito longa em parte dos territórios que lhe couberam na partilha de África pela Europa. Conveniências estratégicas a que se juntam dinâmicas nacionais específicas explicam a construção do Congo Belga e do ultramar português em 1900. Neste caso, ajudou o facto de a Bélgica ser um Estado moderno, mas por si, tal não teria bastado.9
A despeito de ser um Estado moderno, industrializado, dotado de relevantes capacidades científicas e tecnológicas, a Bélgica não deixava de ser um pequeno Estado. Na realidade, essas capacidades não a distinguiam das grandes potên- cias que as detinham, e que tendo muito mais massa crítica, adquiriam sempre maiores vantagens por as ter em escala muito maior. Mas isso significava sim, que os pequenos beligerantes que as não detinham, em qualquer escala, ainda mais pequenos seriam na cotação do poder internacional. Estes são os casos de Portugal, da Sérvia, da Grécia, da Bulgária e da Roménia, e ainda mais do Montenegro, os pequenos beligerantes que tiveram uma participação mais intensa, segundo os seus recursos, na Primeira Guerra Mundial.
Esta é a questão principal sobre a qual se julga interessante refletir. Como é que os pequenos beligerantes puderam porfiar pelos seus objetivos, dadas as limitações do seu poder, e os conseguirem alcançar, exatamente porquanto a despeito da sua pequenez, tiveram impacto na grande conflagração.