CHAPTER 4. Resonator Design
4.4 Designing of Border Region
4.4.3 FBAR with the Repeated Dual Frame
Ao travar conhecimento sobre o conteúdo do Plano Habitacional de Reabilitação da Área Central de Fortaleza em 2010 vi que, em parte, minha problematização perdia a sua consistência original uma vez que o discurso amplamente inclusivo dos planejamentos pós- Estatuto das Cidades atendiam finalmente ao apelo histórico de tantos quanto lutaram pela reforma urbana deste país e que agora tinham oportunidade de expressar seus anseios e opiniões de forma a que estas fossem incorporadas ao corpo do Plano.
A metodologia de apreensão da opinião popular sobre temas sociourbanos é eficaz para o processo participativo em si e uma vez corretamente conduzida na etapa de implementação do Plano pode realmente surtir efeitos bastante positivos para o processo de gestão da cidade, entretanto, ainda que o processo participativo na elaboração dos planos insira diretamente o elemento humano, não abrange as práticas sociais que se desenvolvem na dimensão concreta do espaço urbano, não apreendem as trocas simbólicas que daí decorre e que doam sentido tanto às práticas quanto aos lugares onde elas são desenvolvidas.
A metodologia aplicada dos instrumentos dos Mapas Afetivos, assim como vários enfoques metodológicos da Psicologia Ambiental, investiga o sujeito inserido em dado espaço fenomenológico, busca compreender as conexões estabelecidas entre os sujeitos e destes com o ambiente, interações que dotam de sentidos, significados e afetos, os espaços urbanos, em fim, busca inserir compreensões a partir de parâmetros humanos (e não técnicos) que distingam verdadeiramente os lugares. Todavia, nessas aplicações e análises, é comum perdermos a visão abstrata, prospectiva e sistêmica, próprias à forma de pensar das disciplinas tipicamente espaciais como por exemplo a arquitetura, o urbanismo e a geografia. Saberes que oferecem as macrovisões tão necessárias ao planejamento.
A título de exemplo do que acima tentamos explicitar, gostaríamos de iniciar uma breve reflexão citando uma das propostas técnicas do Plano e a necessidade de estabelecermos esse intercambio disciplinar entre o Urbanismo e a Psicologia Ambiental
Pelo que representa de elementos simbólicos e históricos, o entorno do Riacho Pajeú é um dos pontos mais emblemáticos do Centro. Desde o Plano Saboya Ribeiro (1947) vem sendo desejo do poder público estabelecer caminhos que possam articular o nosso Centro à faixa litorânea. A ideia do Parque Pajeú é pois um projeto antigo que visava (visa ainda), desde o seu início, a implantação de um grande centro cívico capaz ao mesmo tempo de solucionar os graves problemas de escala do Centro (com sua estrutura obsoleta desde a década de 40) e articular, abrir percursos que interliguem o Centro à franja litorânea.
A degradação ambiental do riacho e a atividade comercial atacadista, ali presentes, são problemas diagnosticados desde o plano de Hélio Modesto (1963). Modesto propunha uma grande intervenção para aquele setor com a retirada da atividade atacadista e de vários outros edifícios. Seguindo a ideia de Saboya Ribeiro, Modesto propunha transformar toda aquela área do Pajeú central num grande parque cívico dotado de extensa área verde e pontuado por edificações de usos institucionais e culturais. Esta ideia, ressalvada de seus conteúdos modernistas, foi também comprada pelo PHRACF.
Como sabemos a retirada do comércio atacadista foi identificada pelo Plano como ponto de dissenso, ou seja, houve discordância entre a opinião popular (que deseja a retirada) e os técnicos que postergaram o aprofundamento desse debate para o processo de implementação do Plano. O que questionamos aqui sob o ponto de vista da apropriação do espaço, estudada pela Psicologia Ambiental, é que quando se intervém de forma impactante sobre o espaço urbano, ainda que a ação seja executada sob o signo da participação, deve-se visar não somente as consequências esperadas pela dinâmica sociourbana (embora não raro esta frustre as intenções projetivas), mas também há que se levar em conta a dinâmica histórica e sociocultural daqueles mais diretamente envolvidos ao entorno. Uma ação verdadeiramente inclusiva pela reabilitação e reintegração do Centro ao contexto produtivo da cidade precisa considerar a possibilidade de equacionar (projetivamente) os fatores macroestruturais à realidade das questões sociais locais. Há que se respeitar os contextos culturais envolvidos dos setores diretamente afetados e que se revelam nas relações “domésticas” de seus usuários com o espaço. Conforme analisamos anteriormente, o Entorno
1 apresenta excelentes condições de habitabilidade. Os moradores do Centro, em especial
aqueles que residem neste entorno (entorno do Pajeú) podem, sim, ter os seus sentimentos de
Pertencimento e Agradabilidade ameaçados por tais intervenções se estas não levarem em
conta determinados aspectos subjetivos ou culturais da dinâmica local.
Os dados de nossa pesquisa confirmam que a reabilitação do Centro com foco na questão habitacional é um tema que, de fato, permeia (explícita ou implicitamente) a fala dos sujeitos que habitam o nosso bairro de origem. A importância do tema habitação, bem como parte das propostas encontradas pelo plano para minimização dos imbróglios sociourbanísticos, já se encontram implicitamente sugeridas nos significados e sentidos que foram apreendidos pelos instrumentos geradores dos Mapas Afetivos. Anseios, alegrias, frustrações, carinho, raiva, amor, cuidado, comodidades, pertencimentos, indignação... compõem, ainda que indiretamente, orientações, indicativos e sugestões que podem perfeitamente serem aproveitados pelos planos. Estes sentimentos, ora identificam os
problemas à causas mais localizadas (tópicas), ora expressam de forma difusa e generalizada a problemática que representa viver no Centro, mas estão todos respaldados pela experiência pessoal de quem conhece e habita o lugar.
A investigação dos processos afetivos nos apontou para a forma como o sujeito se implica com o seu bairro. O Centro não possui nenhuma associação de moradores que represente os seus interesses. Neste sentido, a Estima de Lugar negativa apreendida pela análise qualitativa (em todos os entornos), pode ser um reflexo da despotencialização dos moradores do Centro com relação às causas que os afligem. As mensagens de alertas, pedidos de socorro, brados de raiva e indignação se dispersam no anonimato quando não há foco ou organização que os congregue e os represente. Não foi a toa que a quase totalidade dos sujeitos investigados demonstraram desconhecer totalmente a existência do PHRACF. Por outro lado, as características sócio-ocupacionais e socioambientais do Centro podem de fato ter algum papel nesse descompromisso comunitário com as causas do Centro. O Entorno 4, praticamente de uso comercial, acaba por desarticular os setores leste, oeste e sul (mais fortemente habitados), fragmentando espacial e socialmente o Centro em setores que se dividem historicamente por renda familiar e, obviamente, por interesses divergentes. Esta desmobilização do morador do Centro poderá inclusive prejudicá-lo na etapa de implementação do Plano, uma vez que este processo requer a fiscalização da aplicação das metas e recursos que proporcionarão a reabilitação do bairro além de promover o confronto necessário entre os vários interesses que hoje recaem sobre a região.
Por outro lado, a Estima de Lugar positiva revela-se em sinais de potencialidade pelo reconhecimento, satisfação, tranquilidade e bem-estar e confirmam as positividades do Centro que deveriam ter suas motivações buscadas e mantidas pelo PHRACF.
Quando optamos por investigar a Afetividade dos moradores do Centro queríamos fazê-lo de forma que o estudo agregasse algum marco legal do planejamento urbano que servisse de parâmetro para o estabelecimento de nossa problematização interdisciplinar. Esta se fundamentava no fato de que os planos urbanos, de uma forma geral, passavam ao largo de questões caras às experiências humanas no contexto urbano. É óbvio que, por motivos vários, a abordagem tecnicista e pragmática dos planos não contempla os problemas de primeira ordem resultantes da imbricada relação pessoa x ambiente, nossa intenção, entretanto, se voltou para explicitar o quanto a investigação psicossocial em Psicologia Ambiental pode contribuir efetivamente para o incremento do planejamento urbano.
Na medida em que as análises qualitativas e as estatísticas complementares dos Mapas Afetivos revelaram não somente certos padrões sociais de percepção, comportamento
e representação diante dos contextos espaciais recortados, mas que também mostrou haver correlação entre a Afetividade e a referida heterogeneidade socioambiental do Centro, julgamos que os aspectos afetivos resultantes da relação pessoa x ambiente confirmam-se – conforme nossos objetivos – relevantes para o processo de elaborações das diretrizes urbanas. A importância dos significados do espaço urbano, atribuídos pelos próprios sujeitos, e dos sentidos, interpretados pelo pesquisador, constituem fatores relevantes para orientação das decisões programáticas encetadas pelos planos na medida em que definem com mais propriedade os problemas que realmente importam aos usuários, uma vez que estes (problemas) são tomados como vividos.
As contribuições da Psicologia Ambiental, se inseridas na fase pós-diagnóstico socioambiental dos planos e se, de forma sistêmica, forem reanalisadas, podem trazer contribuições não só ao processo de elaboração das diretrizes participativas, mas inclusive, e principalmente, devem reforçar a fase mais importante do plano que é justamente a sua etapa de implementação fiscalizada. Uma vez que os dados contidos nos Mapas Afetivos, especificamente, revelam os problemas e as potencialidades do Centro sob o viés da
afetividade de seus próprios moradores, os coordenadores do conselho fiscal teriam
parâmetros mais realistas das partes mais diretamente interessadas, já que o principal objetivo de reabilitação do Centro é a possibilidade de repovoá-lo a partir de contingentes populacionais advindos de outras experiências sociourbanas de bairros.
Como toda nova sugestão, estas também se encontram no campo hipotético o que equivale afirmar que não estão isentas de conflitos e contestações caso um dia venham a ser aplicadas.
O desafio a que esse trabalho se propõe cumprir é o de provocar a reflexão e sugerir caminhos para a possibilidade de integrar os aspectos vividos pelos sujeitos em suas experiências atualizadas, imediatas e afetivas com o espaço urbano à visão prospectiva, mediada e racionalizada dos planejamentos urbanos.