5. Propuesta de intervención
5.5. Desarrollo de la propuesta y Actividades
5.5.3. Fase III. Generalización
Num quadro histórico e cultural particular, a sua poesia de intervenção vai dialogar com outros nomes que encararam com o mesmo fervor, os processos revolucionários de libertação nos seus países. Nesse sentido, a presente comunicação procura assumir-se como um contributo sobre os aspectos temáticos e estéticos que unem a produção literária de An- tónio Jacinto com alguns dos seus coetâneos como Alda Espírito Santo (1926-2010), José Craveirinha (1922-2003) e Carlos Schwartz (1949- -1977) cujas produções literárias são desde logo obras de arte que, para além do valor estético próprio, constituem fontes inesgotáveis de infor- mação sobre as realidades e relações sociais do seu tempo.
Mas antes de avançar na análise há, do ponto de vista temático, re- ferentes que unem os quatro poetas e que é necessário ter em conta. São todos eles construtores do sonho e simultaneamente da realidade, dialéctica que vive do facto de serem poetas militantes que procuram dar expressão às aspirações da geração da utopia e da luta pela liber- dade. Homens e mulheres engajados nos processos revolucionários dos seus países, que não limitaram a sua intervenção na sociedade e o seu
contributo para o sucesso da luta unicamente à produção literária, mas que integraram (sempre que necessário) as fileiras da luta armada.
António Jacinto em consequência da sua militância é preso pela PIDE e condenado a catorze anos de prisão, sendo que desses, dez fo- ram passados no campo de concentração do Tarrafal. Alda Espírito Santo, passa pela Casa de Estudantes do Império, espaço de reconhe- cida importância no despertar de consciência crítica sobre a ditadura e o regime colonial, cujo debate abria caminho ao desejo de descoberta e valorização dos referentes culturais e identitários dos povos coloniza- dos. A casa da sua família, na Rua Actor Vale em Lisboa, vai ser palco de numerosas sessões de reflexão e discussão cultural e política da- quela geração. José Craveirinha, no decurso da sua militância na célula da 4a
. região político-militar da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e da sua passagem pela clandestinidade é preso pela PIDE. Carlos Schwartz, embora mais jovem, estava igualmente convicto dos ideais que moviam a causa de libertação nacional. A participação nas estruturas clandestinas do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e a sua música e poesia subversivas, gerado- ras de grande inquietação junto dos rostos locais do sistema colonial, levam-no a ser deportado para a Ilha das Galinhas cumprindo aí pena de prisão.
Em São Tomé e Príncipe, Alda Espírito Santo constitui um exemplo claro de uma poesia de expressão popular, assente na memória colec- tiva do povo são-tomense que, segundo Inocência Mata, vai integrar o movimento de ideias responsável pela formação da consciência de uma identidade nacional(MATA, 1999, p. 112). A poesia de Alda Es-
pírito Santo vai dialogar com a do poeta angolano através da denúncia da situação colonial pelo recurso às figuras-alvo do colonialismo que são simultaneamente rostos da resistência, numa temática que alude à violência dos processos de trabalho e que tem como pano de fundo espaços físicos comuns aos que canta António Jacinto. Comunicação que se materializa por exemplo na relação entre Monangamba e Lá no Água Grande da poetisa são-tomense. A roça, espaço central em que
decorre a acção em Monangamba é em Lá no Água Grande o lugar de um regresso penoso, que rompe a desejada alienação como fica ex- presso no verso final do poema: Jazem quedos no regresso para a roça (ESPÍRITOSANTO, 1978).
Para além da roça enquanto cenário comum aos dois poemas, o café que vai ser torrado, pisado e torturado em Monangamba, numa sequência de repetições das rotinas do trabalho dos contratados, ganha expressão no poema de Alda Espírito Santo no verso negritas batem que batem co’a roupa na pedra(SANTO, 1978).
Em Moçambique o monangamba de António Jacinto será no poema Mamana Saquina (CRAVEIRINHA, 1974, pp. 74-75) de José Craveiri-
nha, o contratado para as minas de ouro da África do Sul. A poesia dos dois poetas transmite de forma sublime a carga de um passado repri- mido que é recuperado para alimentar a ideia de uma esperança que é real. Senão veja-se os versos de Monangamba (Ah! Deixem-me ao me- nos subir às palmeiras / Deixem-me beber marufo, marufo / e esquecer diluído nas minhas bebedeiras. . . – JACINTO, s.d., pp. 32-33) e os do
poema Esperança de Craveirinha em que a mesma interjeição abre ca- minho à confiança (Ah, nós esperamos / na euforia das costas suadas / que o sal do vexame acumulado / deflagre – CRAVEIRINHA, 1999,
p. 83). São versos de denúncia, versos que pelo que contam, obrigam a desencadear consciências, a tomar partido, naquilo a que Benjamin Abdala Junior denominou de espera activa (ABDALA JUNIOR, 2002,
p. 38).
Os três poetas terminam os poemas em questão no tom a que José Carlos Venâncio chamou de conformismo face aos infortúnios da vida (VENÂNCIO, 1993, p. 79), mas que segundo a leitura que aqui se pro-
põe transporta uma mensagem de denúncia, geradora de consciências, alavanca da luta contra o colonialismo.
Na Guiné-Bissau, o trilho da literatura da época da nacionalidade (VENÂNCIO, 1999, p. 8) assumiu contornos substancialmente diferen-
tes das restantes realidades coloniais aqui focadas. As reivindicações independentistas na literatura guineense são, na sua generalidade, pos-
teriores a 1945, contudo a denúncia dos horrores do colonialismo foi feita, mas com maior expressão na cena musical. É aí que se vai desta- car Carlos Schwartz, autor dos versos:
Chegarão / marchando ao compasso do nosso hino / em que se entoaram as esperanças / daqueles que com o seu sangue gene- roso regaram / a pátria que hoje pisam os seus continuadores / Esses homens que serão colheita e sementeira, gérmen e fruto / da sociedade nova por que se forjam e morrem os novos heróis! (LOPESJUNIOR, 1999, p. 72)
Parte do poema Os novos heróis que, como aliás a maioria da sua obra poética, está carregado de mensagens de esperança e confiança nos objectivos da luta contra o colonialismo e no seu desfecho vito- rioso, numa exaltação constante dos heróis que perante a agressão do colonizador, resistem individual e colectivamente. Poeta de convic- ções, Carlos Schwartz vai afirmar, embora a tónica seja aparentemente menos subtil que nos três poetas anteriores, que nenhuma força, por mais repressiva e violenta que seja, terá indeterminadamente nas suas mãos os destinos do povo guineense.
Todos estes poetas se destacaram ainda noutro campo, bem caro ao sistema colonial português, o da língua de Camões que, à luz dos va- lores coloniais, não podia ser contaminada. Carlos Schwartz embora tenha escrito em português e francês, vai cantar em crioulo, elemento fundamental de identificação junto das massas guineenses. Os demais, foram mais longe, são fundadores de uma linguagem prenhe de nacio- nalidade, através de versos em português que vão ser inundados por vocábulos e expressões do kimbundo, xi-ronga e do crioulo forro de São Tomé, com a intenção clara de expressar a urgência de uma identi- dade que para lá de libertadora se queria nacional.
Mas dizia, sobre a produção literária do período que aqui nos traz, Tony Tcheca num texto publicado no no
0 da Revista Mar além que muitas vezes o literário, a forma, a lírica eram secundarizados em fa- vor de textos de combate, de intervenção, pungentes de mensagens de
teor patriótico, nalguns casos a beijar o panfletário e o discurso uni- camente político(LOPES JUNIOR, 1999, p. 73). Na verdade, antes de
qualquer outra coisa, nestas literaturas encontramos a esperança de que ela seja parte integrante da transformação do mundo, à luz de uma con- cepção da arte como forma de intervir, para pôr termo à exploração do homem pelo homem, que se alimenta dos sentimentos, ideias e refle- xões que provoca em cada um, sendo por isso que, numa situação de dominação colonial, a literatura, a arte e aqueles que as produzem não possam ser neutros, alheios aos problemas em cuja solução todo o povo está empenhado. António Jacinto, consciente da função social do poe- ta assume na sua entrevista publicada no livro Angola: Encontro com escritores, com grande naturalidade essa tarefa. Quando questionado sobre o movimento literário do início dos anos 50 em Angola, afirma sobre os textos que então se produziam que eram mais posições políti- cas do que verdadeiramente literárias. . . o que era preciso era dar uma mensagem política(LABAN, 1988, p. 149). A obra de António Jacinto
é fruto sim, de circunstâncias históricas muito particulares e cumpre efectivamente um papel de apelo, consciencialização e mobilização do povo, uma poesia de denúncia da miséria e da exploração a que os an- golanos estavam submetidos pelo colonialismo português mas ela não cabe apenas neste propósito, ela é do ponto de vista plástico de grande qualidade não podendo por isso reduzir a sua expressão à da poesia de circunstância.