Oslo Follobanen Brofundament
5.9 FASE 5: Fraflytting, omkring 1624, og fram til idag
Tendo sido um dos propósitos da “Ética” de Scheler demonstrar a validade universal dos princípios éticos, sem negar a inevitável alteração histórica das formas de comportamento ético, suas conclusões sobre a questão se traduzem em um enriquecimento da compreensão da história humana,devido ao fato de que as variações históricas adquirem um significado dentro de seu conjunto, através de uma implícita ideia de que a História consiste em um contínuo esforço por traduzir o a priori ético em novas formas históricas. As variações históricas perdem assim o caráter de elementos corrosivos dos princípios que fundam uma universalidade ética e passam a demonstrar, ao contrário, a universalidade destes. As variações históricas indicam, portanto , que a história assume inúmeras formas de aplicação ou de realização temporal de um mesmo a priori, sendo todas estas inúmeras variações igualmente integrantes da época ou de uma determinada cultura histórica que pode considerar “boa” a prática de determinados atos enquanto outra época ou outra cultura a considera “má”, sem que, com tal confronto, seja necessário admitir um relativismo ético de qualquer natureza. Aquilo que seja considerado bom em determinada época e mau em outra não pode ser comparado apenas sob o seu ponto de vista material e sim é necessário identificar o elemento a priori que dos elementos que em confronto se revelam. Deste confronto, sempre se identificará que ambas as manifestações práticas de uma mesma procura e do mesmo a priori ético, embora se trate de forma de realização diferentes ou mesmo divergentes. Não são, portanto, os valores que variam quanto ao seu conteúdo a priori e sim a forma de sua realização material.
A forma de realização do valor, portanto, não esgota o valor em seu núcleo a priori, mas apenas o configura historicamente. Sempre se poderá realizar o valor estético da beleza, por exemplo, embora a história de arte apresente inúmeras formas de realização concreta do
mesmo valor. Aplicando o exemplo ao plano da vida moral, pode-se afirmar igualmente que sempre haverá a procura de realização do justo e do sagrado, embora as formas das diversas épocas da história humana sejam em diferentes. Consequentemente, não se pode julgar um ato moral apenas em função das regras de aplicação momentaneamente admitidas, embora estas regras também representem formas concretas de realização ou de aplicação do valor. Esta impossibilidade decorre de um elemento introduzido pela “Ética” de Scheler, que abre perspectiva para uma nova conceituação da própria vida histórica.
Trata-se de sua conceituação de História como um processo em que também ocorre criação de valores. Em outras palavras: realizar valores também implica em criar valores. Os valores realizados por pessoas que seguem as regras morais vigentes sempre implicam em alguma criatividade, de vez que é necessário, para integrar-se à moral vigente, a adoção de algum modelo prático de acesso ao valor. Contudo, há pessoas cuja capacidade de criação de valores é tal que acabam por romper com as formas atuais de realização de um determinado valor e passam a realizá-lo de outra forma. Esta criatividade que certas pessoas podem demonstrar perante o valor, torna-as historicamente relevantes, desde que efetivamente consigam ser seguidos por outras pessoas na mesma forma de realizar valores, ou seja, desde que se tornem modelos de outras pessoas.
Um exemplo de criação de valores que Scheler aponta como dos mais fortes, em toda a história humana, é o Sermão da Montanha, no qual é derrogada uma série de conceitos morais para serem substituídos por outros, em nome dos mesmos princípios a priori de justiça. O Sermão da Montanha constitui um ato de intensa criação de valores porque, através de simples palavras, impõe um novo modo de realizar valores: “Em verdade vos digo....”. Todos os demais atos históricos que alteraram formas de aplicação de valores também representaram atos de criação de valores, uma vez que tornaram seus agentes glorificados pela História e constantemente tomadas como modelos de gerações posteriores, da mesma forma que os atos aos quais a História não se dedica, os pequenos atos da vida diária, sem grandes consequências históricas, também contêm algo de criação de valores, dentro de uma pequena escala. Os pais, os pedagogos, por exemplo, ao transmitirem hábitos, conceitos e cultura, estão assumindo papel de modelo, a partir do qual outras pessoas encontrarão sua própria forma de realizar valores.
Realizar valores é, portanto, uma tarefa de que se constitui a História, e realizar valores implica em criar algo, de alguma forma, para que os valores se efetivem. Consequentemente, o ato de criar valores é um ato integrante não só da vida histórica, como também de toda a vida moral, e não há possibilidade de um ato moral sem um ato criador que
dê suporte a ele .. O ato criador de valores funda normas de moralidade prática e as derroga. É um ato de escolha de modelos e de valores. É um ato que funda a história e lhe dá conteúdo. Sem a contínua criação de valores no tempo já decorrido, não haveria os códigos morais que praticamos.
Se a criação do valor funda o dever ser, o fazer concreto, funda também o ser do homem. O ato criador está inserido na própria essência do homem e constitui a via de acesso à compreensão de sua natureza, de seu papel e até mesmo de seu mistério. Scheler vê no ato criador de valor a própria essência da vida e de seu processo universal. Através do ato criador, os valores encontram-se como um “a priori material” e não apenas enquanto a priori em si. A materialização do a priori é possível porque há um processo revelador de valores dentro da História, dentro de cada pessoa. Diria Scheler: “dentro do próprio coração da história”.
Os valores se revelam e fundam o ser do homem. Esta é uma das conclusões mais importantes atingidas pela “Ética” de Scheler. O ser do homem, de que a historicidade é um dos componentes essenciais, constitui-se de uma capacidade de captar, de apreender valores e de realizá-los no tempo e no espaço. Os valores se revelam a esta intuição específica do homem, apresentam-se à escolha do homem histórico e pessoal e passam a integrar aquilo que se convencionou chamar “ história”. A História assume o caráter de relato de valores realizados. E a moral é histórica porque é produto de um dever ser fundado a partir de um ato criador de valores. Qualquer novo ato histórico que funde o mesmo a priori sob nova forma, derroga outra moral. A esta moral, derrogável por um novo ato instaurador e realizador de valores, Scheler chama de “ethos” em seu sentido subjetivo, de ética em seu sentido de regras objetivas, de moralidade prática no sentido de convenções de caráter cultural ou temporário e ainda de usos e costumes, quando se trata de meros hábitos, decorrentes de uma moralidade prática longamente cumprida. A história se constrói através de uma sucessão de formas de “ethos” e de éticas, sem que constitua, por isto, um absoluto gerador de padrões éticos. Estes se encontram no centro mesmo de todos os homens, constituem o a priori realizado, sempre através de cada ato criador que funda cada novo momento daquela história.
O ato de realização criadora do valor, em seu aqui e agora, é ,portanto, um absoluto. Absolutos são os atos criadores de valores, e relativos os atos cuja realização de valores tomou formas substituídas, ao longo da História, por outras formas mais atuais. Sendo o ato criador, em seu presente, um encontro vivo como absoluto, torna-se igualmente absoluto: um absoluto que cria e que realiza a si mesmo no encontro entre a vontade e o valor.
O valor em seu estado de absoluto, em seu ato de realização, defronta-se também com os valores já realizados e os retoma ou os derroga. Mas o absoluto presente é sempre uma
força que relativiza tudo quanto tenha sido anteriormente realizado. Relativizar não significa, para Scheler, invalidar, mas apenas tornar a realização do valor um elemento do passado, um objeto, algo que pode conter ou não um poder de continuar encarnando valor. Ora fala apenas do valor já realizado como uma obra de arte, ora busca inspirar novas formas de realização de valor, como no caso de ideais políticos ou religiosos. Assim, a história “rerum gestarum” aparece como narradora de valores já realizados. Aqui está a inspiração deixada por Scheler a Ricoeur: o historiador vive dentro dos valores vigentes e, através destes, pelo valor que tal ato contém, reconstitui aquele que os valores absolutos (os de seu tempo ou os de seu ato de escolher o assunto a historiar) relativizaram os atos passados .
A História se torna assim, não apenas um esforço por narrar valores realizados, como também um esforço por captar e realizar valores novos ou não inteiramente realizados. Esta ideia, traduzida em forma de um absoluto tornado sempre presente, parece ser uma das ideias mais importantes deixadas pelo pensamento ético de Scheler como contribuição para a elucidação do problema da História, superando assim o relativismo e o absolutismo éticos, que a tornavam ora um absoluto em si, ora um corpo fixo e imutável.