CAPÍTULO 5. PLANTEAMIENTO Y METODOLOGÍA DE LA INVESTIGACIÓN
5.2.2. Fase de planificación de la investigación
Neste eixo busco desenvolver os resultados apontados pelas entrevistas sobre a influência da Casa Familiar Rural na construção da identidade quilombola. Nas falas foi detectado que todos os entrevistados, com exceção de alguns funcionários da Casa, se identificam como quilombolas, ou seja, todos os alunos e todos os comunitários, sujeitos da pesquisa. O diferencial na identificação das pessoas se encontra na forma como se deu a mesma, sendo que os comunitários não associam a construção da autoidentidade à CFR e sim aos acontecimentos históricos de conflitos e de convivência com seus antepassados, já a maioria dos alunos, os mais jovens, associam a sua autoidentidade ao trabalho fomentado pelos integrantes da Casa em vários momentos importantes da mesma.
Algumas afirmações sobre a construção da autoidentidade na visão dos comunitários são descritas nas falas abaixo:
“Eu me identifico não é pela Casa, mas por toda uma história da minha família por toda uma questão de cultura mesmo de conhecimento de educação, mas ficou mais arraigada, mais aflorada, com esse convívio de movimento quilombola e pela luta de ver toda uma trajetória do Padre Sérgio Tonetto, que é o patrono da casa. Por conta disso, a gente pode dizer que essa identidade ficou mais aflorada, não é? Mas a gente já tinha uma identidade toda construída desde a nossa infância da família que é uma família remanescente dos negros de outros quilombos, quilombo inclusive que já foi instinto, hoje eu tô no território do quilombo de Jambuaçu lá no Poacê por conta de casamento, meu esposo é de lá, filho de lá mas eu sou de outro quilombo eu sou do rio Ubá, do extinto Icatú, quilombo de Icatú que antes não era chamado de quilombo e sim irmandade, irmandade São Benedito do Icatú. Ea Casa, essa contribuição de fato, eu observo talvez seja até grosseiro de eu falar, que a Casa não me trouxe essa identidade porque foi puxado pela Casa. Mas há a necessidade da Casa ter essa identidade então a gente quando tem esse conhecimento, tanto eu como os outros companheiros, a gente tem que tá com essa identidade aflorada pra que os próprios alunos comecem a se „empoderar‟ dessa identidade, perceber que é importante que eles tenham a sua identidade também elevada pra estarem com o desejo de se sentir quilombola porque a gente percebe que esse risco ele ocorre na Casa, dos alunos não se identificarem enquanto remanescente negro, eles podem até dizer que são negros mas, remanescentes de quilombos fica que meio sendo contestado, será que eu sou? Meu pai é e eu sou. Entendeu? Essa identidade tá sendo construída paulatinamente dentro da Casa”. (MANDUBÉ)
“Olha, eu me identifico muito, apesar de logo [anteriormente] eu não me aceitava. Como eu tô dizendo, como alunos que foram pra lá [para estuda
na CFR] que quando voltaram [formados] já tão [se aceitam como quilombolas]. Porque eu não me aceitava ter nascido assim. Eu dizia: „pôxa, a coisa mais horrível foi puxar pra minha mãe‟, que é meu cabelo e meu lábio. Eu não podia ter puxado isso de jeito nenhum, eu sempre falava. A partir do momento que eu passei a conhecer de onde vinha a minha família, meu avô. Quem era o meu avô? Da onde veio? procurei me informar sobre isso aí eu passei a me dar valor. Eu tinha muita vergonha. Quando eu chegava num local, eu queria ficar escondida, porque meu cabelo era uma coisa horrível e hoje não, eu sinto orgulho. Então é como eu acredito, a partir do momento que você passa a conhecer a sua origem pra saber quem é? de onde veio as suas raízes? Aí você passa a gostar, passa a se valorizar. Os alunos que vão pra casa, quando vem é com outro conhecimento, com outro olhar. Eu me sinto muito feliz por ter chegado a esse ponto, ter conhecido de onde era a família. A minha influência foi eu conhecer o Padre Sergio Tonetto ele que veio me mostrar o caminho, assim aonde eu tinha que ir, aonde eu deveria ir, a origem da minha família. Aí a partir daí desse momento que a Casa surgiu, aí que já através das lutas, aí que construímos a Casa, aí veio reforçar mais a minha decisão. Ela continua influenciando na minha decisão, nem só a minha, mais das minhas irmãs que hoje moram em outro país. Passei a conhecer mais a família, a gente nem sabia de onde a minha avó veio, não sabia de nada e hoje a gente já sabe.” (Nossa Senhora da Conceição)
Nos dois depoimentos acima, as comunitárias e professoras do território não associam a construção de suas identidades ao trabalho desenvolvido pela CFR, pois, segundo elas a construção de suas identidades como quilombolas se deu antes da existência da Casa, durante os primeiros conflitos do território e com a contribuição fundamental da CPT, através do apoio principal do Padre Sérgio Tonetto.38 Apesar da CFR não ter atuação decisiva na construção da identidade quilombola das comunitárias citadas, estas não deixam de considerar a importância da Casa na construção da identidade quilombola dos mais jovens. Esta considerável influência fica bem explícita nas falas dos alunos a seguir.
“Na verdade eu aprendi a ser quilombola aqui na Casa Rural porque foi a nossa professora de história e geografia que ensinou eu ser quilombola porque antes de eu entrar aqui eu não sabia a realidade do quilombola, aí no decorrer dos estudos a professora foi aproximando mais o assunto e foi ela que fez eu me tornar uma pessoa quilombola porque realmente eu não conhecia, foi aqui mesmo que eu conheci a história.” (AXÉ)
Sobre como esse trabalho é desenvolvido temos os relatos do Coordenador da CFR de Jambuaçu e da professora de Ciências, com complementos de alunos a seguir:
“Primeiro ponto é conhecer o que é quilombola? O que é quilombo? Quando a gente trabalha quilombo é um lugar de resistência, resistência a quê? Será que nós estamos resistindo a alguma cultura externa? Será que o povo negro ainda passa por questão de aprisionamento, questão de racismo? Então esses temas são discutidos, esses temas transversais eles são batidos com frequência.” (Coordenador)
“Além da sala de aula tem os projetos, que tem a semana da Consciência Negra que foi trabalhado e foi bem forte porque a gente não pegou só a semana, a gente fez mesmo várias alternâncias com este tema, colocou como se fosse eixo mesmo e até tem dentro dos eixos a parte de identidade que a gente trabalha muito isso, então dentro de sala com os eixos e fora de sala com os eventos que acontecem que eles participam, que a gente traz além dos cursos a gente traz pessoas para dar palestras, algumas vezes a gente trouxe até pessoas da comunidade pra contar como é que ser, o que eles sentem por ser quilombola, de onde nasce que o território seria quilombola, então acho que tudo isso. Não achar que é quilombola a toa, pois é a cultura é ligação histórica que tem com o lugar por isso que a gente trouxe, na época eu lembro veio a Dona Raimunda vieram outras
38 Sergio Tonetto sempre valorizou a cultura do povo Jambuaçuense, inclusive existem recordações
de Comunitários que relataram que até durante a missa o Padre chegou a causar impacto, quando no lugar da consagração do vinho, tradicional no ritual da oração eucarística da missa católica, teria ele consagrado um cálice com açaí.
pessoas da comunidade, contando o como nasceu, como ele foi autodenominado, como foi o processo todinho, que muito deles por serem jovens eles não conheciam e até se sentiam envergonhados de terem a denominação quilombola e isso serve para eles trabalharem mais essa questão da identidade deles. A gente já vê hoje alunos da gente bem inseridos no movimento, nas associações como a Natalina e alguns garotos, existem os eixos que trabalham especialmente a questão da identidade e o movimento social.” (Professora de Ciências)
“Logo que a gente entrou a gente fez uma roda com as professoras e elas perguntavam se a gente se identificava como quilombola, alguns alunos falaram que não. Ela mandou dividir em „porque não‟ e „porque sim‟, aí teve um aluno que falou porque ele não era negro e ele tinha a pele branca, aí ela falou que não é porque ele tem a pele branca que ele não é quilombola porque todo mundo é mestiço. A gente se identifica como quilombola não só porque a gente mora no território quilombola e sim porque no território a gente encontrou muitos vestígios de negro, lá na nossa comunidade, lá abaixo na pedreira tem um lugar lá que as pessoas acharam ferramentas de negro, essa coisas assim, pedra no meio do igarapé, pedra grande então isso é uma herança que eles deixaram pra gente”. (MOJUBÁ)
É evidente nos relatos dos entrevistados acima a importância da Casa Familiar Rural na Construção e Valorização da Identidade Quilombola dos alunos - crianças e jovens – do território, esta missão está bem definida no Projeto Político Pedagógico da Casa, como já comentado anteriormente.
Embora a CFR Padre Sérgio Tonetto guarde identidade com o ideário de escola quilombola caracterizado na Resolução nº 8/2012, na prática se vivenciam alguns conflitos de formação, que não são objetos desta pesquisa, que indicam contradições entre os sistemas de ensino norteador da Casa com o sistema de ensino dominante em escolas urbanas no país. No entanto, essas contradições nos parecem exercer pouca influência na identidade quilombola formada e fortalecida pela CFR.
Essa busca de identidade étnica faz com que os comunitários se coloquem na sociedade com a carga cultural que carregam. Passam a defender essa cultura, o que é uma característica de formação para a cidadania valorizada no ensino com enfoque C-T-S. Assim, a CFR desempenha claramente um papel indutor de cidadania e de valorização humana e social dos estudantes ao contribuir para a sua identificação com seu povo e sua história.
Ao finalizar esta análise, vale ressaltar, que por se tratar de uma escola localizada em Território Quilombola, o trabalho que a mesma desenvolve na formação étnica e cidadã de seus educandos também tem respaldo na Resolução
Nº 8/2012, citada anteriormente, a qual torna possível na forma de Lei a prática das Diretrizes Nacionais para a Educação Escolar Quilombola.
De acordo com tais Diretrizes (p. 42),
A Educação Escolar Quilombola é desenvolvida em unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura, requerendo pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a Educação Básica brasileira. Na estruturação e no funcionamento das escolas quilombolas, deve ser reconhecida e valorizada sua diversidade cultural.
Portanto por se tratar de Escola Quilombola, com diversificação de educação garantida, será possível, na CFR em questão, implantar uma proposta educacional que considere e complementem entre si a Pedagogia da Alternância e o enfoque Ciência – Tecnologia - Sociedade.
De acordo com a Resolução aqui citada, toda escola quilombola requer cada vez mais, a presença e o compromisso do trabalho dos comunitários e dos profissionais, considerando a importância da presença no processo educacional da memória coletiva; das línguas remanescentes; dos marcos civilizatórios; das práticas culturais; da territorialidade; das tecnologias e formas de produção do trabalho; dos acervos e repertórios orais; dos festejos, usos, tradições e demais elementos que conformam o patrimônio cultural das comunidades quilombolas como as de Jambuaçu que já possuem a Pedagogia da Alternância como alicerce. Todavia com os resultados desta pesquisa, vislumbramos a possibilidade de ao unir a proposta já existente como a proposta do enfoque C-T-S, garantir também a formação científico- tecnológica necessária para a resolução de problemas socioambientais e tomada de decisão consciente do cidadão quilombola.