Na medida em que cada técnica é responsável por dar forma ao material, então, a forma está sempre condicionada pela técnica. Esta lógica é transversal a qualquer sistema construtivo que se esteja a abordar, embora se faça representar mais expressivamente nos métodos monolíticos com recurso a molde, uma vez que a materialização dos objetos está integralmente sujeita à mesma cofragem. Por outro lado, se a consolidação da terra se fizer definir em pequena escala, sob a forma de unidade básica de alvenaria, o método subordinará apenas essa parte, permitindo que a sua aparência global se forme livremente, de acordo com a intenção e conhecimento do mestre pedreiro, limitado apenas pela eficiência de emparelhamento. Quanto aos sistemas de construção combinados, quer a terra assuma um papel primário do desempenho portante, ou não, os mesmos revelam-se plenamente dependentes da estrutura de suporte, ou auxiliar, definida por outro material.
As técnicas-tipo, detalhadas previamente, descrevem especificamente os modos de trabalhar a terra, segundo os quais se poderão consolidar. No entanto, a aparência tridimensional dos volumes finais, encontram-se mais subordinados formalmente a outros aspetos relativos à exigência tecnológica envolvida. Da interpretação confrontada pelos diagramas dos grupos Auroville e CRATerre, e de uma análise geométrica detalhada, Filipe González (2006) categoriza os modelos de construção com terra, fazendo-os corresponder a um determinado grupo, classificado de acordo com a escala de classificação que estabelece no quadro seguinte:
Grupos classificativo Modelos de construção com terra Terra trabalhada por subtração Terra escavada
Terra trabalhada manualmente Terra modelada
Terra simplesmente empilhada Terra empilhada
Terra empilhada com recurso a molde
Terra vertida
Terra comprimida (taipa) Terra-palha
Terra em enchimento
Terra geometrizada sob a forma de blocos
Terra comprimida (Blocos apiloados e BTC) Terra cortada
Terra-palha Terra modelada Terra extrudida
Terra como material de acabamento
Terra em recobrimento Terra em cobertura
Quadro 4 – Grupos classificativos das técnicas construtivas de acordo com as suas condicionantes formais (GONZÁLEZ, 2006, p. 85).
A partir deste quadro interpretativo elaborado por González, expomos a continuidade do seu estudo, em que o autor faz uma análise estereomorfológica para cada grupo hierárquico que designa, fazendo-os corresponder ao tipo de terra e aos modelos planimétricos e tridimensionais, da família estrutural-tipo de compressão que as técnicas envolvidas são capazes de comportar. Dessa investigação aprofundada surge o seguinte esquema síntese:
Grupo Classificativo
Análise Planimétrica
Análise Tridimensional
Arcos Abóbadas Cúpulas
Terra por subtração
Livre, ou
condicionado ao vão
Todas as formas compressíveis, exceto cónicas e por cachorramento
Terra trabalhada manualmente
Condicionado à
planta circular (Não se verificam) (Não se verificam)
Hemisférica Ogival Terra simplesmente empilhada Livre, ou condicionado ao vão Catenário Hemisférico Cónico (Não se verificam) Cónica* Catenária* Barrete de clérigo* Terra empilhada com recurso a molde La m ina r Condicionado ao
molde (reto, curvo ou combinado)
Condicionado ao negativo do molde
(Não se verificam) (Não se verificam)
Tê
xt
il
Semilivre, ou condicionado ao vão por planta circular
Catenário
Cachorramento (Não se verificam)
Hemisférica Catenária Ogíval** Terra geometrizada em blocos Semilivre, ou condicionado ao vão
Todas as formas compressíveis
Terra como material de acabamento Condicionado à estrutura de suporte ou auxiliar
Condicionado à estrutura de suporte ou auxiliar ** - conclusão definida por Filipe González (2013)
* - sob a forma alongada Quadro 5 – Síntese formal de cada classe construtiva (adaptado de GONZÁLEZ, 2006, p. 189).
O quadro anterior faz uma síntese formal lata, mostrando-se capaz de demonstrar, de modo geral, as estruturas passíveis de se materializar, segundo cada grupo de técnicas, mediante a análise de casos patentes na arquitetura vernácula. No entanto, embora os exemplos observáveis correspondam às formas de maior eficiência geométrica (pelo progresso milenar), acredita-se que alguns modelos formais potencialmente materializáveis com terra, não estão contemplados. Além das novas fronteiras formais alcançadas com o uso de aditivos industrializados, atualmente, através dos estudos já realizados e do nível de rigor técnico alcançado, reúnem-se as condições necessárias para consolidar qualquer forma compressível com terra, cujas dimensões dos vãos e espessuras dos volumes, outrora seriam insuportáveis.
Além disso, parte das estruturas que não se verificam na análise de González, devem-se ao facto de que a de produção de estruturas para vencimento de vãos integralmente com terra surge, especialmente, nas situações onde escasseavam os recursos vegetais. Igualmente
que esse facto impossibilitava os vigamentos de madeira, impedia também o recurso a cimbre na materialização dos volumes de suporte (Figura 113). Esta estrutura auxiliar é capaz de simplificar consideravelmente os procedimentos construtivos de arcos, abóbadas e cúpulas, sendo que, sem esta ferramenta as técnicas tornam-se muito mais complexas e limitadas.
Figura 113 - Ilustração esquemática de cimbre para a construção de um arco.
Esta suposição surge especialmente pelo facto de que a condição autoportante da terra, quando trabalhada em determinados estados físicos e na consolidação em obra, fica comprometida. Tomando o modelo de construção de terra empilhada, em que a terra é aplicada plástica, cada camada sobreposta só deve ser adicionada, após a presa da anterior. Seguindo esta lógica, admite-se que se a terra plástica fosse amontoada com recurso a um cimbre até que a cura do material se desse, este método possibilitaria materializar grande parte das estruturas compressivas, definidas pelo suporte amovível (Figura 114).
A mesma proposição, relativamente à possibilidade de concretizarem formas tridimensionais além das apresentadas no quadro prévio, estende-se também aos sistemas de construção com terra armada. Esta técnica pela combinação entre dois materiais subdivide-se, por um lado, nas situações em que a armação é feita pelo interior, em que é revestida pela terra e, por outro lado, quando o solo faz o enchimento de uma armadura exterior que garante a estabilidade da terra. A última tem vindo a revelar um enorme potencial na construção atual, uma vez que permite edificar com enorme rapidez, com praticamente qualquer tipo de terra, de modo hidrófugo e económico (sem aditivação). Segundo as denominações, já mencionadas, de superadobe ou hiperadobe, e pelo empilhamento de sacos de terra, é representado um padrão de caracterização formal específico. Nesta nova família de estruturas é possível assumir qualquer geometria ao nível planimétrico e vertical, mas vencendo vãos, apenas através de estruturas por cachorramento – existem esforços de tração. Por consequência, as formas definidas por estes métodos de enchimento devem-se figurar de forma alongada, de modo que a verticalidade assumida nas fiadas sobrepostas faça minimizar os esforços tracionáveis a desempenhar pelas mesmas. Além disso, acredita- se que, com recurso a cimbre, se possam também materializar sistemas abobadados (Figura 116), assim como cúpulas (alongadas) derivadas da intersecção de abóbadas, desde que reforçadas as arestas face aos esforços de impulsão, que não constam na tabela anterior.
Figuras 115 e 116 – Nader Khalili, o criador do superadobe (à esquerda) e abóbada na mesma técnica (à direita).
De modo análogo a estes sistemas de construção com terra por enchimento, podemos mencionar também o projeto arquitetónico desenvolvido pelo estúdio Plano B, na sua proposta de um novo edifício para o Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, idealizado de forma híbrida ao combinar terra comprimida, armada pelo exterior, com
bambu (Figura 117). Este material, leve e muito resistente à tração, serviria como molde no processo de compactação da terra, mas em contrapartida manter-se-ia, posteriormente, a armar a terra face às cargas de tração que os mesmos elementos estruturais compostos se destinavam a suportar. O sistema encontrava-se também preparado para se ajustar à terra após a contração consequente do seu processo de cura (CARVALHO, et al., 2007, pp. 16- 19).
Figura 117 – Terra prensada em cofragem perdida de bambu, beneficiando das qualidades de ambos os materiais.
Podemos constatar que, tanto os sistemas de enchimento a moldes têxteis e de bambu, se tratam de metodologias de cofragem perdida, em que esta desempenha uma função constante, face à contenção necessária a esses modos de trabalhar a terra e aos esforços por si insuportáveis, preservando assim a estabilidade estrutural da globalidade edificada.