A comunidade de Prainha do Canto Verde, em 1980, inicia uma luta para permanecer na terra contra a imobiliária Antônio Sales. Mais adiante, a luta se direciona para Henrique Jorge e, em seguida, para Tales, o atual dono de uma instituição de educação particular conhecida como Farias Brito. O começo dessa luta é relatado Veinha, como se segue:
[...] deixa eu começar do comecinho. Eu lembro que se dizia: - a terra aqui vai ser toda loteada. Porque já andavam vendendo os morro. E vinha um homem marcando ali... a gente estudava com a irmã da Inez, a Vilanir. Ela morava por ali... e neste estudo com a Vilanir a gente começou a conversar: - tem um homem marcando acolá e dizendo que o morro já estava vendido... e ela disse: - tenho uma irmã que tem conhecimento com o MEB – Movimento Eclesial de Base, da Arquidiocese e tem uns conhecimentos. Ela veio morar aqui e ser a professora porque a Vilanir precisava se afastar... Pedimos peixe, arroz e recebemos eles que vieram ajudar... e
começou as reuniões com as mulheres. Nesse tempo, as casas era tudo de palha. A
gente sentava no chão do morro de noite e fazia as conversas. Depois, a gente recebeu muito mais gente que foi no seminário rural. Dessa vez, a gente cobriu uma latada com pano de jangada, eram pra mais de duzentas pessoas. Primeiro a gente cantava assim: - [...] Sou, sou teu Senhor, sou povo novo resistente e lutador. Bendito louvado seja esta santa romaria, bendito povo que luta, bendito povo que luta tendo Cristo como guia... em 81 e 82, Antônio Sales entrou com pedido de usucapião. Aí eles orientaram que agente podia entrar com o direito de uso capião. Era nosso direito de posseiro e não de grileiro. Rolou, rolou, quando a gente foi, em 84, 85 o juiz deu direito a ele. O nosso advogado era o Dr. André Luiz, que descobriu que aqui era terreno da união e isso podia ser discutido aqui. Eles perderam em todas as instâncias e até no Supremo... (Trecho de entrevista cedida por Raimunda Ribeiro, ou Veinha, em agosto de 2013).
Essa luta tem alguns episódios registrados nos versos dos pescadores Iaga, Zé da Nega e Valtécio, que relatam os acontecimentos do conflito da terra. Falam na canção das reuniões, das resistências e dos amigos que deram apoio às lutas, como a que se segue:
Questão de terra,
Um dia desse, tava na casa da vizinha. Quando chegou uma mulher me disse assim, Valtécio, lhe peço por caridade,
Traga o André perto mim. Questão de terra amor, Eu não entendo não, Fale com o Pe. Gerardo, Ele dá uma explicação.
Fale com o vigário ou o Pe. Moacir, É Deus quem me conduz,
Parece que foi Jesus, Que botou o André aqui. (Autor: Valtécio)
Nessa letra, o André é o advogado que defende na justiça os direitos de uso da terra dos pescadores contra a invasão da imobiliária. Os padres davam apoio à luta. Na letra seguinte, o caso da casa da Cleonice, filha de dona Alzira do Juvenal (falecida), que por ser uma mulher sozinha, casa de palha, se tornava a mais vulnerável e foi ameaçada de ser expulsa com outra construção de alvenaria rodeando a sua casa.
A investida da prefeitura dava apoio à imobiliária e, com isso, ela negava o direito de posse dos moradores da comunidade sem nenhum procedimento de diálogo. A questão foi parar na justiça, levada pela prefeitura, na administração do prefeito Eduardo Queiroz, que ao ver seu projeto, totalmente destruído pelas crianças da comunidade, que derrubaram a construção armadas de paus e ferramentas, acusou a professora de ser a responsável pelo prejuízo, levando a mesma a ser detida na sala do juiz de direito, Dr. Luiz Girão. O intuito era de fazê-la confessar a responsabilidade direta de mandante, portanto culpada pelo prejuízo56. A letra diz:
Eu vinha da areia vermelha,
Encontrei uma mulher triste a chorar, Era triste ver a coitada,
A casa laçada não podia morar. Que administração danada, Que administração errada, Que ninguém assumiu,
56 A professora a que se referem era eu. Tinha acabado de nascer o meu filho Tiago, e eu andava lentamente pós-
Não sei se foi o prefeito, Ou o nego Til.
(Autor: Valtécio)
As formas de lutas pela posse da terra em Prainha do Canto Verde se manifestaram de diferentes formas e parte delas estão registradas também em documentos como o jornal da Arquidiocese Terra Livre Gente Livre, como se observa abaixo:
Prainha do Canto Verde, 14 de Outubro de 1984.
Prainha do Canto Verde é uma comunidade de 127 famílias de pescadores e labirinteiras. Desde 1982 que esta comunidade luta na justiça por seus direitos. A imobiliária Antônio Sales Magalhães tenta tomar as terras de posse dos pescadores. A comunidade se organizou desde esse ano e luta contra a intromissão da imobiliária em suas terras. Os pescadores protestaram na justiça mostrando que esta imobiliária não tem terras ali para autorizar nem um tipo de construção. Logo em seguida, um pobre pescador, igual aos outros assume a construção de um posto médico rodeando a casa humilde de dona Cleonice. Ele alega que a imobiliária deu documento de doação de um pedaço de terra, onde está hoje o grupo escolar57. Assim, esse posto médico estaria também sendo construído nesse
mesmo pedaço de terra ofertado pela imobiliária à prefeitura.
Ora, se a imobiliária não tem terras ali então, como poderia doar terras à prefeitura? E a questão vai à justiça.
Por causa disso, o prefeito de Beberibe em encontro com a professora Maria Inez de Lima faz repressão usando de ameaça: “ou se une com o Sr. Til ou um dos dois tem que sair; - ‘E o Til eu não posso tirar porque é suplente de vereador eleito pelo povo’. Outra saída segundo ele, é a professora deixar de se reunir junto à comunidade porque ‘ela faz a cabeça do povo’.
Todos nós sabemos que ninguém faz a cabeça de ninguém. O que acontece é um despertar do povo para a realidade. Isso é o que está acontecendo em Prainha do Canto Verde. E o prefeito acha que a professora é responsável pelo prejuízo causado a administração, no momento em que a construção do posto médico rodeando a casa de Dona Cleonice foi embargada pelo juiz de direito da comarca de Beberibe.
A forma de respaldo que o suplente de vereador Til usou, foi mostrar para o prefeito, um abaixo-assinado que conseguiu usando a pergunta: ‘quem deseja a construção do posto médico?’. Assim, fez ver ao prefeito que a comunidade Prainha do Canto Verde era composta somente de quatro pessoas, e nessa carta desfazemos essa afirmação.
A comunidade deseja um posto médico sim, mas não em cima da casa da Cleonice. Nós não somos quatro pessoas.
Prainha do Canto Verde está firme, não cede seus direitos a ninguém. ‘A terra é a primeira promessa que Deus faz a Abraão (Gen. l2, Iss.)’
Pedimos que esta carta seja lida nas reuniões nas celebrações. É mais uma luta ‘dos pequenos contra os grandes’.
Assinam a carta 45 pessoas.
Essa carta está publicada no boletim informativo da Arquidiocese Terra Livre Gente Livre (Anexo E).