A comunidade de Prainha do Canto Verde desde muito tempo atrás percebeu que não é só de pesca que se vive e, diante dos desafios da luta pela terra, começou a se organizar.
A prainha de hoje tem um grupo definido que continua o processo de fortalecimento da luta, composto por alguns dos pais daquela época, que constituíram o Conselho da Terra. Os filhos deles, que foram as crianças da festa do grosar, primeira geração educada na luta. Eles estão envolvidos em uma série de cuidados, como as aulas de educação
religiosa, as comissões que integram o processo de educação que pretende garantir o respeito, a cultura, o cuidado com a qualidade de vida dos moradores e a preservação da terra para todos os moradores, como era no começo. O turismo sustentável se inclui nos dias de hoje como uma alternativa econômica. Uma das ações de renda é preparar as casas dos pescadores para receber visitantes. Trabalham na perspectiva de ordenar as casas, tratar a água, gerar renda, cuidar do meio ambiente, do mar, zelar pelo espaço que possuem, conviver com os conflitos e vencer os novos desafios.
Os filhos destes, netos dos primeiros e terceira geração desde que começou a luta da terra, estão vendo seus pais atuando em movimentos políticos de diversas dimensões, desde a participação local até as de nível regional e nacional, como é o caso do Dedé, do Wellington, do Márcio Félix, do Beto, da Marlene e do Paim, entre outros. É fato que, hoje, as discussões que envolvem a integração dos jovens na vida da comunidade também ganham mais sentido, mesmo com as dificuldades58. Ganha destaque a quantidade de jovens que responde pelos encaminhamentos sociais da comunidade e cuida de mobilizar processos importantes, como a educação na escola local, a associação de moradores, os cuidados com a religiosidade. As discussões politicas não se resumem mais apenas à captura do peixe, mas também aos cuidados com o uso do chão, a memória, em função da posse do território.
O espírito de luta e resistência do grupo que iniciou a luta pela terra conseguiu chegar até as gerações novas, filhos, netos, e os que ainda vão chegar, a sua experiência, para a construção de uma luta coletiva na comunidade.
A fundação da primeira associação de moradores foi presidida pelo Geraldo Ferreira, o Geraldim, em cuja fala cita as lideranças no seu período de gestão:
Considero que as pessoas mais importantes na nossa luta foi o Pilé, o Dimilsim, a Veinha, a dona Auzira. No meu tempo, as coisas eram muito difíceis. Tenho certeza que nem dos que estão hoje nessa associação sofreram mais do que eu. Passei por muitas dificuldades, primeiro porque eu e nem os outras tinham experiência com associação. A gente não sabia, mas conseguimos encaminhar muita coisa... (Trechos de anotações em Diário de Pesquisa).
O segundo presidente foi o Zé Ramos, cujo depoimento se segue:
No meu tempo, as coisas não eram tão ruins, tinha o carro que fazia o transporte das coisas da associação, fiz boas amizades, o nível de conhecimento aumentou, passei a entrar e a sair nos fóruns com advogados nas audiências públicas. No entreposto de pesca, não media esforço para isso. Preparava minha fala e os documentos, quando tinha que sair para enfrentar os obstáculos ou para encaminhar dificuldades. Decepção não tive, enfrentei muitas vezes minha própria família para ser a favor da comunidade. Mesmo sendo evangélico, não fiz acepção de pessoas, colocava minha
58 O uso de drogas na comunidade tem aproximado pessoas de outros espaços em busca de expandir esse
jangada à disposição do Santo Padroeiro da comunidade. (Trechos de anotações em Diário de Pesquisa).
O terceiro presidente da associação de moradores foi o Beto, cujo depoimento se observa em seguida:
Chegar a ser presidente foi natural, porque eu já havia participado da diretoria da associação, o que ficou foi o conhecimento, o desafio e a dedicação. Das audiências, eu sabia o risco de vida que corria, planejei e participei de estratégias de enfrentamento, como foi o da derrubada da cerca levantado pela imobiliária, cercando e limitando nossos espaços. Cuidados de imobilizar, e telefone, e colocar barreira no alto da estrada para não dar acesso a passageiros naquele momento. Tive decepção, o trabalho de divisão do grupo na comunidade para cuidar de setores separados separa também a discussão da luta da terra. O que era dito é que a luta da terra era pra ser assumida pela associação. A prefeitura chegou depois dizendo que ia apoiar e o que fez foi desmontar o processo de organização (Trechos de anotações em Diário de Pesquisa).
Depois do Beto, a quarta presidente da comunidade foi a Marlene, que assumiu também a diretoria da escola. Em seguida, o presidente foi o Lindomar. Depois do Lindomar, a presidência voltou para o Beto, e nesse período está como presidente o Roberto Carlos (Paim). Os quatro últimos eram as crianças que “estudavam e brincavam” no começo da luta pela terra.
Novos comportamentos não podem ser introduzidos através de leis, mas têm que ser interiorizados pelas pessoas. A aspiração para uma convivência harmônica – com as outras pessoas e com a natureza inicia na infância e por isso é importante pensar na educação da próxima geração. No final não importa apenas quantos recursos naturais vamos deixar, mas também quais valores e quais rumos estão sendo traçados (KÜSTER, 2004, p. 136).
Figura 12 – Beto (assessoria do CDPDH), Pilé (pescador), Silvino (advogado), Beto (filho do Pilé).
No ponto de vista do grupo de lideranças, a comunidade convive hoje com duas visões políticas que divergem entre si ideologicamente. Prainha do Canto Verde possui uma segunda associação de moradores, que toma assento junto à primeira no Conselho deliberativo da RESEX – Reserva Extrativista. A forma de pensar e defender o modelo comunitário pelas duas associações diverge, mas seguem num exercício democrático de enfrentamento politico no mesmo espaço comunitário. Vivenciam e partilham de decisões importantes que envolvem as questões como o uso da terra e questões sociais do lugar. É a visão dos que buscam organizar o uso dos espaços na terra coletiva, como diz o Beto do Pilé: “na Prainha, temos vários ponto de vista. O que é mais forte é a visão de procurar o que é melhor para nossa vida”.
As visões politicas oscilam entre questões imediatas e a preservação do território a longo prazo para todos os moradores. Destaca-se o cuidado com o patrimônio coletivo e a vida melhor, em função de garantir espaço e produção no mar para as futuras gerações. O Beto, do CDPDH – Centro de defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza – faz a seguinte análise:
A Prainha sempre teve dois lados, é importante trabalhar essa visão, mas precisa ser mostrado quem estava ou está do outro lado. Uma coisa é visível nessa história: quem pensa diferente desse grupo não tem dificuldades financeiras, e também tem entre estes os que nada possuem de renda definida, mas que pensam como tais. (Trecho de entrevista cedida por Beto do CDPDH, em 2013).
As formas de participação incluem os significados de fazer parte, de tomar parte, ou de se sentir apenas parte de um processo ou de uma ação coletiva. “E nessa relação, os aspectos da apropriação da identidade étnica cultural se torna um valor indispensável sem perder a noção de que é preciso para se sentir parte [...]” – pensar o todo. “A sociedade, o Estado, a relação das partes entre si e destas com o todo e, como este não é homogêneo, diferenciam-se nos interesses, aspirações valores e recursos de poder” (TEIXEIRA, 2001, p. 27).
Assim, a problematização passa por dar resposta aos interesses de todos e, ao mesmo tempo, considerar as particularidades de uns e o corporativismo de outros. Observar esses detalhes se torna indispensável nos processos das lideranças da comunidade, com o fim de se munirem de argumentações objetivas e subjetivas que garantam intervenção nos espaços públicos onde acontecem as negociações, onde se estabelecem os consensos e dissensos possíveis.