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5.5. Kriterier for gjenkjennelse av samisk kultur i det arkeologiske materialet

6.1.1. Fangsten i eldre jernalder

Tarzan 3º Mundo abre o 1º Festival de Dança de São Paulo, no Teatro SESC Anchieta, em novembro de 1968, com duas récitas, sob vaias e aplausos: um polêmico espetáculo. Dança ou Teatro? O grupo recém-formado chama atenção pela diferença e cumpre seu papel de realizar um espetáculo que ...) busca, através de impactos, atingir todos os sentidos do espectador. 39.

Mais do que dançar, a apresentação traz a plasticidade e, paradoxalmente, o exotismo dos movimentos; a particularidade de um ou mais corpos: expressões intransferíveis e peculiares que se colocam em cena, integradas aos outros elementos da cena.

Além das referências de seus mestres americanos (os princípios da Nova Dança são pouco conhecidos no Brasil, onde vigora a escola de balé tradicional, ligada à tradição russa),

39 STOCKLER, Maria Esther. Entrevista em matéria de lançamento. In: [Autor Desconhecido]. Um Espetáculo

Maria Esther Stockler insere, coreograficamente, outras inspirações inusitadas para um trabalho que abre um festival de dança: técnicas corporais terapêuticas (fruto de sua formação em psicologia); sequências de ioga (ela é praticante desde os 18 anos); lutas de boxe; dança dos orixás; acrobacias; manipulação de grandes objetos; psicodrama, num procedimento claro de referência ao happening, na utilização de elementos não reconhecíveis ao vocabulário artístico, que passam a integrar a cena num mesmo estatuto de importância que a dança ou o teatro.

Os temas e situações surgem através das propostas de José Agrippino, universo também heterogêneo e pluralista: histórias em quadrinhos; ficção científica; telejornais; sistemas do corpo humano; aventuras eróticas bizarras...

Ao longo de algumas cenas, textos curtos, elaborados por Agrippino, entremeiam as ações/coreografias.

O espetáculo é composto de seis cenas independentes, cada uma com temática e tratamento visual diferenciados entre cenografia, figurinos, música, efeitos de luz e intérpretes, trazendo climas e ambiências distintas. Não existe encadeamento de ideias, linha ou narrativa dramática.

A justaposição ou simultaneidade das situações apresentadas constroem uma linguagem que será bastante explorada a partir da década de 1980 em diante: o collage.

Para José Agrippino, o collage é compreendido a partir de um conceito cinematográfico: a mixagem, e este se tornará um procedimento dinâmico e específico da criação do grupo Sonda, através de um processo constante de laboratórios , de cenas construídas a partir de improvisações e editadas de forma a não criar um encadeamento narrativo. Trata-se de uma escrita que justapõe blocos autônomos, abrindo novas perspectivas e favorecendo a multiplicidade de interpretações. Com um tratamento quase cinematográfico, as cenas emergem como sonho, alucinação ou delírio, sem um desenvolvimento lógico ou qualquer localizador sequencial que facilite a recepção da obra. Cenas soltas - em que a dança de Maria Esther interage com a encenação de Agrippino - sugerem situações impactantes, inquietantes, surreais.

Em um ambiente lisérgico, um cientista traz uma figura humana e inerte como sua obra, enquanto um homem-molécula parece sugerir um ambiente microscópico;

Batman e Robin, íntimos, mais que uma dupla dinâmica, lutam e perdem de bandidos marginais;

Dois bailarinos lutam boxe e são surpreendidos por duas bailarinas hindus, enquanto imagens do sistema sanguíneo são projetadas sobre eles;

Uma cena acumula uma série de referências, objetos móveis, representando o caos, um lixão terceiro-mundista;

Um casal de negros dança, representando um encontro entre Adão e Eva, sexos trocados: ela é o homem e ele, a mulher ...

A alusão erótica é um elemento bastante significativo no espetáculo - Batman e Robin como casal homossexual; uma enorme vagina e um pênis gigante de espuma ensaiam um preâmbulo amoroso – provocação satírica que se afirma na transgressão de regras e comportamentos, através da utilização do humor, para explicitar sexualidades escusas ao padrão usual da sociedade (procedimento constante na obra de Agrippino).

Objetos fora do comum no universo da dança interagem com os corpos dos intérpretes (aparelho de ginástica, escultura de uma figura humana, câmara de ar, plásticos, pneus, uma rede cenográfica, chapa de aço, grandes objetos fálicos de espuma).

Efeitos diferenciados de iluminação (utilização de luz estroboscópica; luz negra; black –outs durante as cenas; tintas ou materiais fosforescentes; placa metálica que distorce a imagem) e projeções de vídeo e slides sobre os corpos dos intérpretes são utilizados, numa proposta de inserção de tecnologia como mais um elemento cênico do espetáculo. As projeções às vezes incidem com função cenográfica (quando, por exemplo, o aparelho respiratório é projetado sobre bailarinas que vestem biquínis cor da pele) ou com função narrativa (é passado um noticiário político em meio a uma cena em que os bailarinos formam uma centopeia e uma pirâmide humana).

Os figurinos alteram a fisicalidade e a cenografia subverte a horizontalidade do espaço cênico, redimensionando a corporalidade e o espaço de ação dos atores: homem enrolado num plástico transparente; mãos envoltas em bandagens; um terceiro veste um capacete e cinturão de agulhas de tricô com bolas vermelhas pintadas de tinta fosforescente nas pontas; uma dupla tem de dançar sobre uma floresta de pneus ; um homem emerge e desce do alto por uma rede...

A direção musical também surpreende: músicas, efeitos, ruídos ou sons previamente gravados mesclam-se a músicas produzidas, ao vivo, simultaneamente às cenas, numa mesa computadorizada, realizada por um americano, Adam Cadmon - discípulo indireto de John Cage -, amigo de Maria Esther, convidado por ela especialmente a participar do espetáculo. Integram a trilha músicas de origens e climas diversos: uma raga clássica indiana, própria do hinduísmo; uma música litúrgica, de caráter evocativo, de Olivier Messiaen; a guitarra frenética de Jimmy Hendrix; rajadas de metralhadoras; percussões; sonoridades eletrônicas. Interferências sonoras produzidas pelos próprios atores (respiração; gemidos; onomatopeias) completam a composição sonora do trabalho.

Refletindo o acirramento da repressão – que já se anuncia naquele momento –, Tarzan, 3o Mundo chega a ter dois episódios de embate com a censura: tem de fazer uma modificação num figurino-objeto – a retirada das bolas que acompanham um grande pênis, na cena dos objetos fálicos em ação erótica - e a produção tem de se justificar quanto à inserção de algumas imagens de telejornal que, casualmente, projetam a imagem de um discurso do então presidente Emílio Garrastazu Médici sobre a cena da Centopeia.

Nos termos de satirização, o espetáculo atinge a mais perfeita desordem empolgando todos os presentes. Sem estética nenhuma e fora das estruturas do teatro tradicional do balé, O Grupo Sonda apresenta uma experiência considerada de vanguarda. 40

O 1º Festival de Dança abarca um público reduzido. Da mesma forma, os comentários críticos são poucos. E os que se manifestam a respeito denunciam em sua escrita uma ignorância e um desconhecimento quase total quanto ao caráter híbrido do trabalho, sem referências teóricas ou históricas que permitam uma análise mais profunda em relação à montagem. O texto acima, por exemplo, reconhece comicidade como um dos aspectos fundamentais, mas atribui ao humor a desordem presente no espetáculo. Reconhece que este se encontra fora dos parâmetros do balé a que o público está familiarizado, mas peca ao afirmar que o espetáculo prescinde de estética. Por fim, resume a experiência sob o rótulo de vanguarda.

Tarzan 3º Mundo é um exercício pioneiro no sentido de integrar vários artistas e manifestações artísticas, reunindo uma série de linguagens, técnicas e metodológicas,

40 PRIMEIRO Festival de Dança trouxe Surpresa para São Paulo. Diário Popular, São Paulo, 3º caderno, p.11, 08

inclusive na inserção de informações de outras áreas, tais como psicologia, ficção científica, religião...

Extremamente rico em detalhes, sua estética pode ser não reconhecível, mas ausente jamais, pelo contrário: a visualidade tem um tratamento minuciosamente construído. O caos existente é algo perseguido, e a ausência de narratividade pressupõe uma nova maneira do espectador se relacionar com a obra, em que a sensorialidade esteja em primeiro plano, no sentido de explorar novas áreas da consciência.

São utilizadas dezenas de referências advindas da Pop Art (iconografia da TV; da fotografia; do cinema; das histórias em quadrinhos); procedimentos de collage (técnica de colagem que superpõe ou justapões diversas informações reunidas num só lugar); coreografias que perseguem a expressividade do corpo, do movimento, sem amarras dramáticas...

O espetáculo está deslocado e isolado dentro do contexto de um festival de dança e por apresentar-se um pouco dança, um pouco teatro, um pouco show, um pouco circo, um pouco happening, acaba por não encaixar-se em nenhuma denominação reconhecível, o que o torna estrangeiro e estranho aos colegas de profissão.

Era um espetáculo diferenciado. Imagine abrindo um festival de dança! O que aconteceu? A plateia se levantava ofendida, dizendo que não era dança. O espetáculo ficou eternamente situado no limbo, entre a dança e o teatro. 41

Além das duas apresentações no 1º Festival de Dança de São Paulo, em dezembro de 1968, o Sonda realiza uma pequena temporada de Tarzan – O Homem Hibernado no Teatro Maria Della Costa, encerrando a trajetória curta desse primeiro incompreendido experimento do Sonda.

41 AMADEI, Yolanda. Depoimento. In: COELHO, Maria Cristina Barbosa Lopes; XAVIER, Renata Ferreira.