As autoridades nacionais e os serviços de sangue, segundo a WHO (2012), têm a responsabilidade de assegurar um processo rigoroso para avaliar a elegibilidade dos potenciais dadores de sangue de forma a garantir a segurança e eficiência do fornecimento de sangue, proteger a saúde dos recetores de transfusão de sangue e produtos sanguíneos e proteger os próprios dadores. A segurança e a disponibilidade de sangue e produtos sanguíneos exigem o recrutamento e seleção de dadores de sangue voluntários e não remunerados, a qualidade assegurada pelos testes laboratoriais de todos os dadores e o uso racional do sangue WHO (2012).
Segundo o Plano Estratégico Global da Organização Mundial de Saúde 2008-2015 intitulado “Universal Access to Safe Blood Transfusion” (WHO, 2007), os serviços de sangue devem prestar cuidados de elevada qualidade na seleção e aconselhamento de dadores, colheita de sangue e cuidados ao dador, com evidência nas melhores práticas e conhecimentos científicos.
A gestão e prestação de cuidados aos dadores de sangue com elevados padrões de qualidade dos cuidados e a preocupação com a saúde e bem-estar dos seus dadores foi também descrita por Ringwald et al. (2010), por Bravo et al. (2011) e pela British Association for Conselling and Psychotherapy (2010) como uma das principais preocupações dos serviços de sangue.
Segundo a WHO et al. (2014) a gestão e o aconselhamento dos dadores de sangue é uma parte essencial do processo de dádiva de sangue. Uma vez que a experiência positiva da dádiva foi considerada como um dos fatores comportamentais determinantes no retorno dos dadores de sangue (Germain et al., 2007; Martín-Santana & Beerli-Palacio, 2012; Nguyen et al., 2008; Vavic et al., 2012; Wilkinson et al., 2011).
A promoção da dádiva de sangue e um recrutamento de dadores de sucesso, segundo Hogan et al. (2007), são dois desafios importantes de marketing para os serviços de sangue.
Segundo Grant (2010) os serviços de sangue podem melhorar a gestão de sangue, optimizar os recursos e melhorar a comunicação com os dadores e as instituições a quem prestam serviços ao incorporar uma filosofia de marketing, através do uso de ferramentas para prever o afluência de dadores, estimar as necessidades de sangue, manter e recrutar dadores, garantir a disponibilidade do produto, ter informações sobre os dadores e gerir relacionamentos da necessidade e do fornecimento de sangue. Este autor defende ainda que os serviços de sangue podem convencer os não dadores a realizarem a dádiva de sangue e aumentar a fidelização e o relacionamento com os dadores, ao assegurar que ocorra marketing interno realizado pelos funcionários nos seus contatos diretos com as partes interessadas.
Martín-Santana & Beerli-Palacio (2012) realçam também a importância da gestão de dadores de sangue, nomeadamente na manutenção de dadores regulares. No estudo desenvolvido por estas autoras, para desenhar e validar um modelo que explique a intenção do dador voltar a dar sangue, assim como a sua predesposição para motivar familia e amigos para a a dádiva de sangue, demonstrou-se que: a qualidade percebida no processo da dádiva de sangue (conforto, privacidade, limpeza do local da dádiva de sangue, acesso fácil e horários do local de dádiva, tempo de espera
adequados, lanche adequado e a informação sobre os resultados analíticos) tem uma influência positiva na satisfação e na intenção de realizar a dádiva de sangue no futuro; existe uma correlação positiva entre a intenção para voltar a realizar a dádiva de sangue e a satisfação do dador, mas uma correlação negativa entre a presença de inibidores internos (medo de agulhas e da transmissão de infecções via sanguínea, observação do sangue desagradável, medo de reações adversas à dádiva) e externos (o esforço de dar sangue, horários inconvenientes para a dádiva de sangue, falta de tempo); e por último a recomendação para a familia e amigos realizarem a dádiva de sangue depende da satisfação dos dadores e especialmente na intenção do dador voltar a dar sangue.
O Plano Estratégico Global da Organização Mundial de Saúde 2008-2015 (WHO, 2007), a WHO (2012) e a WHO et al. (2014) referem ainda a importância de uma equipa de trabalho em número suficiente, estável, bem treinada e motivada com oportunidades de progressão na carreira e o desenvolvimento profissional e contínuo de forma a permitir a segurança e a qualidade transfusional.
Segundo a WHO (2012) a seleção de dadores e prestação direta de cuidados é da responsabilidade de um médico e de um enfermeiro no local de colheita de sangue. Os profissionais responsáveis pela seleção e prestação direta de cuidados aos dadores devem ter conhecimentos sobre os princípios e bases para os critérios de seleção de dadores, ter conhecimentos técnicos e capacidades clínicas necessárias para a avaliação de risco e do estado de saúde. Segundo a WHO (2012), os conhecimentos, as capacidades e as competências chave são:
Conhecimentos dos critérios de seleção de dadores; Informação e aconselhamento pré-dádiva;
Entrevista e avaliação baseada num questionário de dadores de sangue;
Capacidades de explicação das perguntas do questionário de dadores, assegurando o conhecimento e diminuição dos receios dos dadores.
Avaliação básica de saúde, incluindo avaliação da hemoglobina. Aconselhamento dos dadores suspensos.
Cuidados e aconselhamento pós-dádiva.
Todos os indivíduos envolvidos no recrutamento, seleção, prestação de cuidados aos dadores de sangue, desde os médicos, enfermeiros, técnicos de análises clinicas, promotores da dádiva, administrativos, assistentes operacionais e voluntários, devem ter formação adequada. O objetivo das formações é: assegurar que todos os profissionais e voluntários sejam capazes de compreender todo o processo da dádiva de sangue e a importância da confidencialidade; adquirir conhecimentos e capacidades técnicas relacionadas com o processo de dádiva de sangue; e por último seguir todos os procedimentos conforme o recomendado. A abordagem da formação na área da dádiva de sangue deve ser sistemática e participativa com ênfase nas boas capacidades de comunicação (WHO et al., 2014).
Segundo a WHO et al. (2014) os voluntários e os profissionais devem ter os conhecimentos e capacidades necessárias, especialmente na área da comunicação em saúde e aconselhamento de dadores para permitir que a experiência da dádiva de sangue seja um processo agradável e seguro. As capacidades de comunicação mais valorizadas são: o auto conhecimento, a empatia, as capacidades de relacionamento interpessoal, pensamento crítico e analítico e o não julgamento (WHO et al., 2014). Vavic et al. (2012) realçam a importância da comunicação na melhoria da satisfação e no retorno do dador. Através de um relacionamento próximo com os dadores os profissionais são capazes de compreender o estado emocional do dador e desse modo ajudar na gestão da ansiedade. A compreensão do estado emocional do dador permite alcançar um estado de bem-estar e satisfação que influenciam positivamente a decisão de dar sangue novamente.
Segundo Martín-Santana & Beerli-Palacio (2012) o envolvimento de todos os profissionais no processo da dádiva de sangue é fundamental para manter a satisfação e retorno dos dadores de sangue. Segundo estas autoras estes profissionais são os únicos que podem diretamente transmitir aos dadores a sua gratidão e o reconhecimento social de serem dadores de sangue. Na formação destes profissionais deve ser valorizado a comunicação, a capacidade de transmitir sentimentos de confiança e de segurança e devem ser implementados programas para aumentar a motivação e satisfação dos profissionais de forma a melhorar o atendimento ao dador.
A estes profissionais é-lhes exigido, para além da educação e informação ao dador, a capacidade de facilitar as consultas que envolva a discussão de notícias inesperadas (teste positivos para doenças infetocontagiosas), a capacidade de ouvir e responder às preocupações do dador e a capacidade de identificar, encaminhar e gerir de forma mais adequada todas as situações ou problemas identificados no processo da dádiva e aconselhamento (WHO, CDCP & IFRCRCS, 2014).
As infraestruturas e as instalações adequadas são fundamentais para a seleção de dadores e dádiva de sangue (WHO, 2012; WHO, CDCP & IFRCRCS, 2014). O local de seleção de dadores deve ser um espaço próprio, agradável e organizado de forma a proporcionar a privacidade e confidencialidade adequada, independentemente de a dádiva de sangue se realizar num local fixo ou móvel. A importância de um ambiente agradável é fundamental para ajudar os dadores a relaxar e a reduzir a ansiedade.
Segundo a WHO (2012) os locais de colheita de sangue devem estar equipados com equipamentos adequados, suficientes, disponíveis e em bom estado de conservação para permitir a seleção de dadores. Segundo Martín-Santana & Beerli-Palacio (2012),os locais para a dádiva de sangue devem ser de fácil acesso aos dadores, localizando-se por exemplo nas escolas, universidades, centros comerciais, locais de trabalho, entre outros. E o horário de atendimento dos locais de colheita de sangue deve ser alargado para além do horario normal.
A seleção de dadores e a prestação de cuidados entre outros aspetos técnicos dos serviços de sangue implicam a implementação de um sistema de qualidade (WHO, 2012; WHO, CDCP & IFRCRCS, 2014). Este deve incluir os seguintes elementos básicos:
Uma estrutura organizacional que defina a autoridade, a responsabilidade e canais de comunicação para todos os profissionais, onde inclua por escrito as especificações do posto de trabalho.
Uma política de qualidade documentada e diretrizes que asseguram uma abordagem estável de qualidade durante o acompanhamento e prestação de cuidados ao doador de sangue.
Critérios de seleção de dadores, de acordo com as orientações nacionais para os serviços de sangue, de forma a assegurar uma aplicação uniforme em todos os serviços de sangue.
Procedimentos operativos padronizados que guiem todos os processos, procedimentos e tarefas, de forma a assegurar a consistência, precisão e rastreabilidade e o apoio dos dadores. Estes devem incluir também a informação sobre os profissionais necessários, as instalações, as normas e os impressos. Todas as fases da seleção e prestação de cuidados aos dadores devem ter procedimentos operativos padronizados e os respetivos documentos, designadamente:
o Entrevista confidencial durante a seleção de dadores o Prestação de cuidados durante a dádiva de sangue o Convite para a próxima dádiva
o Notificação e acompanhamento pós-dádiva o Encaminhamento para serviços de saúde
o Processo de dádiva e os seus resultados
o Monotorização e avaliação do processo da dádiva o Outros acompanhamentos necessários
Formação e avaliação de competência dos profissionais.
Sistema de registos (informático ou em papel) que assegure a rastreabilidade e confidencialidade, nomeadamente:
o Registo de cada dádiva (identificação do dador, motivos de suspensão, reações adversas, resultados analíticos);
o Registo de dadores suspensos;
o Confidencialidade dos registos de dadores através do uso número único e exclusivo de dador e de dádivas e códigos para identificação de infeções.
Sistema de controlo e de melhoria contínua do recrutamento de dadores, do questionário de dadores, da prestação de cuidados e aconselhamento pré e pós dádiva, dos mecanismos de notificação e de referenciação e ainda do programa de auditoria interna.
Segundo a WHO (2012), neste sistema de qualidade, os instrumentos e equipamentos utilizados no processo de seleção de dadores e dádiva de sangue devem ter uma manutenção e calibração de acordo com os requisitos da qualidade. A segurança e saúde dos profissionais devem ser sempre asseguradas, principalmente na proteção contra lesões com material cortante e perfurante e no contato com outros resíduos. E de forma a garantir a melhoria contínua do sistema de qualidade é necessário o ensino e formação de todos os profissionais e a monotorização regular da qualidade.
Segundo Martín-Santana & Beerli-Palacio (2012), as diferentes componentes da qualidade é um fator a ser valorizado como influência posisitiva na satisfação do dador e no seu retorno.
A hemovigilância é um dos requisitos do sistema da qualidade e também um requisito legal da união europeia (European Union [EU], Optimal Blood Use Project, 2010). Segundo a WHO (2012), “a hemovigilância dos dadores de sangue é um processo contínuo de recolha de dados e análise dos eventos e das reações adversas dos dadores a fim de investigar as suas causas e resultados …”. A análise regular destes dados permite delinear possíveis medidas corretivas e preventivas. O objetivo da hemovigilância é diminuir o número de eventos e reações adversas e melhorar os resultados para os dadores e para os doentes (WHO, 2012).
Os dadores devem ser avisados que, caso sofram algum efeito adverso de saúde após dádiva (desmaio tardio), se recordarem de alguma doença ou informação que deveria ser mencionada antes da dádiva ou se ficarem doentes nos 28 dias a seguir à dádiva, devem informar o serviço de sangue onde efetuaram a dádiva (WHO, 2012). Assim como, caso ocorra algum efeito adverso à transfusão de sangue ou componentes sanguíneos no recetor, deve ser comunicado ao sistema de hemovigilância de forma a melhorar a seleção de dadores.
A hemovigilância contribui de diversas formas para melhora o sistema da qualidade, nomeadamente (WHO, 2012):
Melhorar a segurança do dador através da implementação de medidas preventivas e corretivas para evitar a ocorrência ou recorrência de eventos ou reações adversas dos dadores.
Rastreabilidade de dadores e retirada de dádivas que possam causar ou contribuir para reações adversa graves nos recetores de sangue ou produtos sanguíneos.
Melhorar a segurança do doente através de melhores critérios e processos de seleção de dadores.