As instituições de saúde são caraterizadas como sendo um sistema socio tecnológico (Carayon et al., 2014; Serranheira et al., 2010), onde ocorrem diversas e complexas interações (Buckle, et al., 2006). A abordagem ergonómica sistémica e holística, segundo diversos autores, em ambientes complexos como os cuidados de saúde, permite redesenhar os sistemas de cuidados de saúde e os processos; assegurar e melhorar a segurança do paciente e a qualidade dos cuidados de saúde (Buckle, et al., 2006; Carayon, 2010; Carayon, et al., 2014; Serranheira et al., 2010).
Segundo Serranheira et al. (2010), a perspetiva sistémica e integrada da ergonomia tem contribuído de uma forma positiva para a análise dos locais de trabalho, sobretudo nas organizações de saúde, onde todos são beneficiados, nomeadamente, a organização, a administração, os gestores operacionais, os profissionais, os pacientes e os seus acompanhantes. Estes autores justificam a utilização da ergonomia nas organizações de saúde, nomeadamente em contexto hospitalar, pelo seu contributo para a melhoria da conceção, implantação, organização, escolha da tecnologia, melhoria da saúde e segurança dos profissionais de saúde. Estes contributos possibilitam uma melhoria na gestão das condições de trabalho, da atividade dos profissionais de saúde e, consequentemente, a segurança do paciente.
Segundo Serranheira et al. (2010), a ergonomia contribui para a segurança do paciente através de intervenções ao nível da conceção/design dos postos e locais de trabalho, através dos processos e organização hierárquica, temporal e relacional do trabalho, através da seleção de equipamentos e sua implementação e através da formação dos profissionais de saúde (Serranheira et al, 2011).
Segundo Carayon (2010), as inovações da aplicação da ergonomia para melhorar a segurança do paciente, nas organizações de saúde, pode ser dividida em três tipos. O primeiro tipo da aplicação da ergonomia é no uso de ferramentas ou do método, que diz respeito, por exemplo, à avaliação de usabilidade de um dispositivo médico ou análise de tarefas para identificação de fontes de carga de trabalho e de erro. A segunda aplicação diz respeito ao aumento do conhecimento ergonómico geral facultado aos funcionários da organização de saúde. O terceiro tipo de aplicação está relacionado com o recrutamento de um profissional em ergonomia pela organização de saúde.
Segundo Carayon (2010), as inovações ergonómicas na segurança do doente podem ser categorizadas de acordo com os domínios da ergonomia definidos pela IEA (2000). A ergonomia física, por exemplo o design ergonómico das instalações hospitalares para melhorar a prática da higiene das mãos. A ergonomia cognitiva, por exemplo a avaliação da carga de trabalho. A ergonomia organizacional, onde temos o exemplo do trabalho de equipa.
Segundo Carayon et al. (2014) as intervenções ergonómicas nas organizações de saúde devem considerar todo o sistema, incluindo os fatores organizacionais, de forma a ter um impacto significativo e sustentável em termos de segurança e qualidade do atendimento ao paciente. Logo a abordagem ergonómica nas organizações de saúde deve incluir a ergonomia organizacional ou considerações macro ergonómicas.
Para dar resposta à necessidade de uma abordagem ergonómica de sistemas nas organizações de saúde para promover e melhorar a segurança do doente e a qualidade dos cuidados Carayon, et al. (2014) propõem o modelo de sistema de trabalho designado “Systems Engineering Initiative for Patient Safety” (SEIPS) desenvolvido por Carayon et al. (2006). Segundo Carayon et al. (2014), as características chaves deste modelo são:
Descrição do sistema de trabalho e dos seus elementos;
Incorporação do modelo de qualidade desenvolvido por Donabedian (1978);
Identificação dos processos de cuidados a serem influenciados pelo sistema de trabalho e a contribuir para os resultados;
Integração dos resultados dos pacientes e dos resultados organizacionais e profissionais; Análise recíproca dos processos e os resultados e do sistema de trabalho.
O SEIPS é um modelo dinámico onde qualquer mudança no sistema de trabalho produz mudanças no restante sistema (Carayon, et al., 2014). Na figura 3.1 encontra-se esquematizado o modelo SEIPS de Carayon et al. (2006) adaptado por Carayon et al. (2014) onde é feita a distinção de ambiente interno e ambiente externo.
Segundo (Carayon et al., 2006) a estrutura de uma organização (sistema de trabalho) afeta o modo como a segurança dos cuidados de saúde são proporcionados (o processo) e o meio pelo qual a prestação de cuidado de saúde e a sua gestão (o processo) afetam a segurança do paciente (resultados).
As mudanças no sistema de trabalho irão depender da forma como as melhorias ou mudanças são desenhadas ou implementadas. Estas mudanças sejam positivas ou negativas afetam o sistema de trabalho e os processos, que por sua vez afetam o paciente, os profissionais e os resultados da organização (Carayon et al., 2006).
Nas organizações de saúde o modelo de sistema de trabalho pode ser usado para descrever o trabalho dos profissionais, das equipas que prestam cuidados, dos pacientes e dos seus acompanhantes e familiares (Carayon et al., 2014).
Figura 3.1: Modelo SEIPS do sistema do trabalho e segurança do doente (reproduzido de Carayon et al. 2014)
Carayon et al. (2014) no modelo SEIPS vem dar a importância da evolução conceptual do conceito da pessoa no centro do sistema de trabalho, onde esta pode ser um grupo de pessoas (a equipa de saúde) ou um individuo (o paciente). Segundo Carayon et al. (2014) os pacientes e familiares são incluídos na equipa de saúde.
O objetivo do modelo SEIPS é desenhar o sistema de trabalho de forma a beneficiar os pacientes, ao nível da segurança do paciente e outras dimensões da qualidade dos cuidados de saúde, assim como os profissionais e as organizações (Carayon et al., 2014).
Segundo Carayon et al. (2014) as investigações sobre o impacto dos resultados nos pacientes devem ser evidenciadas, uma vez que, a maioria das investigações da ergonomia nos cuidados de saúde apenas se têm focado na segurança e saúde ocupacional dos trabalhadores.
Segundo Lapão (2005) o cidadão tem vindo a assumir um papel cada vez mais importante na área da prestação de cuidados de saúde. As novas orientações da prestação de cuidados de saúde definem que os cuidados de saúde sejam centradas no cidadão, com o objetivo de aumentar a sua participação, responsabilização e atribuição de um papel mais ativo na gestão da sua saúde (Lapão, 2005).
Na área da medicina transfusional, nomeadamente nos serviços de sangue, a segurança dos dadores e dos produtos sanguíneos, o atendimento de excelência e a satisfação das necessidades dos seus clientes são fundamentais para o funcionamento dos serviços de sangue, pois permitem assegurar a disponibilidade de sangue e contribuem para a sustentabilidade da prestação de cuidados de saúde a nível nacional (Instituto Português do Sangue e da Transplantação, IP [IPST, IP], 2013a).