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Familiæritet og trygghet i bruk av applikasjon

7. Konklusjon

7.1 Resultater av arbeid

7.1.3 Familiæritet og trygghet i bruk av applikasjon

Amedeo Clemente Modigliani nasceu em 1884 na Itália e morreu no ano de 1920 em Paris, cidade onde viveu. Pintor, escultor, quarto filho de uma família judaica e integrado à vida intelectual parisiense, Modigliani conseguiu criar um traço próprio e marcante para suas obras.

Tanto seus retratos e nus, quanto sua própria história de vida, tornaram-se fonte de inspiração para que vários escritores consagrados criassem seus romances, peças de teatro e filmes. E Cristovão Tezza foi um que fez uso dessa imagem mitológica que permeia o nome e as obras de Modigliani para construir seu romance

Breve espaço entre cor e sombra. Ilustração 3:

Tanto a pintura, como as esculturas de Modigliani possuem traços em comum. Uma das marcas mais características diz respeito ao pescoço alongado das representações da figura humana. As esculturas parecem ser rostos retirados de quadros, desenhados e redesenhados em pedra. Aliás, as esculturas de Modigliani foram extremamente úteis para sua pintura, pois foi por meio delas que o pintor italiano alcançou as formas, a linearidade e a abstração que constituem sua linguagem pictórica. Modigliani, à parte as cabeças de pedra, também se interessava por outro grupo de obras. Ele chegou a recorrer à Antiguidade, desenhando cariátides3, para desenvolver seu estilo, que se configura por formas arredondadas e linhas fluidas.

Já as esculturas possuem duas fortes influências, uma da arte africana e cambojana, principalmente no desenho dos olhos, e a outra das esculturas de Brancusi. Segundo afirma Krystof (2007, p. 28):

É, no entanto, surpreendente que logo desde o início este principiante tenha sido capaz de conferir uma unidade estilística às suas peças escultóricas. Cada cabeça pode ser imediatamente identificada como tendo sido cinzelada por Modigliani. A semelhança das obras futuras de Modigliani com as do escultor romeno Constantin Brancusi ocorre no momento em que o protagonista, Tato, põe as mãos na escultura e afirma:

3 Suporte arquitetônico, originário da Grécia antiga, que se apresentava, segundo Houaiss (2001), quase sempre,

a forma de uma estátua feminina, cuja função era sustentar um entablamento. Ilustração 4:

“Cariátide” – Modigliani, Amedeo (1913)

Lápis e aquarela 33,5x27,3cm

Apalpo a testa curta que nasce de olhos orientais levemente riscados na pedra, testa onde há ranhuras de mechas que numa súbita queda para trás formam um volume bruto e áspero de cabelos, mas também acolhedor às palmas que apalpam com a delicadeza dos cegos. E dali minhas mãos descem pelo longo pescoço de uma simplicidade completa, uma perfeita vertical; a escultura, simétrica, não tem ainda aquela ligeira inclinação fora de prumo dos pássaros de Brancusi, que serão uma das marcas da pintura de Modigliani. (TEZZA, 1998, p. 252).

Outros traços marcantes da obra de Modigliani dizem respeito ao fato de suas figuras longilíneas apresentarem pescoços bastante longos e rostos com olhos, bocas e narizes bem definidos,

mas sem detalhes minuciosos. Há também a presença de linhas pretas, bem demarcadas, com um sombreado escuro percorrendo o entorno dos corpos. Essas são as marcas de Amedeo Modigliani e que ainda podem ser ilustradas pelo discurso de Tato, quando ele se refere ao perfil de uma das personagens (―a vampira‖): ―Ela espichou o pescoço – de Modigliani, pensei, admirando aquele desenho com o olho que me restava [...]‖ (idem, ibidem, p. 127).

Quanto à temática das telas de Modigliani, Floriano Martins (2000) destaca que o pintor ―tinha uma exacerbada preocupação com o humano, e buscava sua expressão justamente onde melhor poderia encontrá-la: no olhar, nos rostos, nos retratos [...]‖, para, em seguida, acrescentar: ―Não pintava nus, e sim pessoas despidas de suas máscaras sociais. O nu propiciava uma revelação do corpo, tão ocultado quanto o sentimento. Modigliani captava com exímia facilidade a expressão ulterior de cada modelo seu, tendo retratado alguns várias vezes‖4.

4

MARTINS, Floriano. Amedeo Modigliani: dolorosos direitos da beleza. 2000. Disponível em: <www.revista.agulha.nom.br/ag2modigliani.htm>. Acesso em: 26 abr. 2010.

Ilustração 5:

“Cabeça de Pedra” – Modigliani, Amedeo (1911-12)

Calcário 71,1x16,5x23,5cm

Quanto à sua paleta, predominam, sobretudo, as cores marrom, amarelo, vermelho, laranja e azul.Krystof (2007, p. 69), por sua vez, destaca outros aspectos da pintura de Modigliani:

A simplificação e a abstração são os principais instrumentos criativos de Modigliani. À parte alguns breves apontamentos sobre o espaço que rodeia o modelo – o esboço de um sofá, de uma almofada ou de um lençol de linho branco – não há nada que desvie o olhar dos corpos jovens e róseos. A economia de utilização da cor (normalmente, o característico tom adamascado da carne do nu contrasta apenas com um ou dois outros tons) ilustra a intensa concentração nas exigências formais. As formas estilizadas do corpo feminino dispõem, assim, de todo o espaço de que necessitam para a sua plena revelação. As figuras femininas expõem-se de tal modo ao espectador, chegando por vezes a assumir uma postura tal, que se tem a sensação de que se projectam para fora da tela. Por vezes, os olhos muito abertos parecem olhá-lo frontalmente, e outras, têm os olhos fechados como se estivessem adormecidas.

Modigliani não é o único artista a ser retratado em Breve espaço entre cor e sombra; outros cinquenta e oito nomes de pintores e/ou escultores, tais como Paul Cézanne, Gustave Doré, Claude Monet, Rafael Sanzio, Sol Lewitt, Pierre-Auguste Renoir, Constantin Brancusi são mencionados ao longo da narrativa.

Por meio do discurso das personagens, o leitor depara-se, muitas vezes, não só com os nomes de pintores consagrados, mas, também, com aspectos relativos ao processo criativo, estilos e temáticas.

Richard Constantin, em diferentes momentos da narrativa, aparece como um crítico mordaz. Para ele, o artista ―não tem escrúpulos‖, e sim ―caráter‖, que é aquilo que transparece naquilo que ele realiza ou cria. Os artistas não têm amigos: ―eles são um impulso brutalmente narcisista que, para nascer, pisa no que está ao seu lado‖ (TEZZA, 1998, p. 22). Para Constantin, ―A vaidade é a face mais visível da arte‖ e também mais visível a alguns artistas, que, graças a seu talento ou ao destino, foram reconhecidos:

Ilustração 6:

“Nu reclinado” – Modigliani, Amedeo (1917)

Óleo sobre tela 60x92cm

Picasso, com alguma pequena variação de azares do destino, restaria como um dos mais ridículos e hilariantes ―modernos‖, mais um personagem do imenso anedotário cubista, ao lado de Juan Gris e Torres Campalans. Van Gogh, esse errado clássico, seria unicamente personagem da ciência médica do fim do século XIX, incluído e tipificado como um exemplo cristalino de demências. Sem talento, a história dos grandes pintores seria uma sucessão de puxa-sacos, calhordas, ladrões, estupradores, loucos varridos, vagabundos, presunçosos, monstros de egoísmo e covardia, lambendo a sola, de quatro, do primeiro rei, príncipe ou papa que aparecesse pela frente. Não muito diferente do resto das pessoas, é verdade – mas é que eles, os artistas, em algum momento de suas vidas entraram na fila da eternidade, às vezes forçando espaço com o ombro, a cotoveladas. O preço é alto, para quem tem a dimensão da grandeza; para quem não tem, bem, daí é tudo pequeno mesmo e nada faz diferença (TEZZA, 1998, p. 26).

Em outro momento, Constantin revela a Tato que adquiriu de seu mestre Aníbal uma tela de sua autoria. E embora o crítico elogie a concepção do quadro, imediatamente ressalta que ―a sua realização é falha‖, destacando alguns aspectos:

O menino voando é um pasticho; depois de Chagall, ninguém mais consegue voar com naturalidade. – Aqui ele de novo olhou para os céus, a senha de alguma descoberta. – Tiepolo! Tiepolo também sabia voar. Mas naquele tempo era mais fácil, eles acreditavam em anjos. Voltando ao teu quadro: cada criança ali tem uma marca registrada, do Botero (aquela menininha gordinha) ao Picasso (o garoto de duas cabeças); mas o que poderia ser uma citação, digamos, elegante, se transformou numa colagem preguiçosa, numa brincadeira pretensiosa. O quadro perde o rumo; você não teve técnica para sustentar o projeto (idem, ibidem, p. 29).

A crítica inesperada de Constantin surpreende Tato que se sente fascinado pelas palavras do crítico. O único pensamento que lhe ocorre é que Constantin iria se desmentir em seu próximo quadro.

Ainda sob os efeitos das palavras proferidas pelo marchand, Tato, ao chegar à sua casa, recebe a notícia de que ela fora arrombada e, mesmo diante dessa invasão surpresa, põe- se diante de seus bicos de pena, que ―forram a parede‖, e tece uma reflexão íntima sobre quem ele é e como ele enxerga a si mesmo enquanto pintor:

Sou fundamentalmente um desenhista. O mundo para mim é um emaranhado infinito de linhas, são elas que definem os objetos, os seres as ideias, mais do que qualquer outra coisa. Mais do que a cor, por exemplo. Mais do que o volume. Há uma matemática no desenho; o traço é a realização mais completa da abstração, não da abstração pura, que não existe (para que ela existisse – e eu começava a contestar meu mestre antes mesmo de me tornar seu discípulo – teríamos de imaginar um ser sem memória, sem passado, sem futuro e sem paredes, um sopro transparente pousando nada sobre coisa nenhuma; é muita ausência ocupando a mesma falta de espaço), mas das ideias que fazemos das coisas, porque, simplificando um pouco (ou abstraindo), as coisas são a ideia que fazemos delas – mas, a essa altura, sinto o desespero e o desejo escapista de desenhar (pintar, que, para mim, é o

mais complexo desenho do mundo). [...] há uma falha no meu caráter que, me deixando sempre sozinho, até à custa da morte, como hoje, me impede o prazer da solidão (exceto no momento exato da pintura, daí meu amor pelos quadros intermináveis, que se arrastam meses a fio, que nunca estão prontos, e que mesmo depois de prontos, como meu único presente ao Aníbal, continuam se transformando). E minha frieza, que se confunde às vezes com bonomia, parece que mais se enrijece ao longo do tempo, e no entanto talvez eu seja uma pessoa que... (TEZZA, 1998, p. 41).

Nesse extrato, é possível perceber dois aspectos interessantes sobre o protagonista. O primeiro é que, após a perda do seu ex-mentor, ele transpõe imediatamente em Constantin a figura de um novo mestre, pois Tato, ao longo do romance, não somente enfatiza a importância de ter um mestre em sua vida, como também destaca o fato de não conseguir viver sem um mestre: ―jamais consegui viver sem um mestre, sem alguém que me aponte um caminho e me diga quem sou. Alguém que me desenhe um corredor para eu atravessar, ou um muro para eu pular‖ (idem, ibidem, p.67).

Após ser nomeado mestre, Constantin reafirma a Tato que este é ―fundamentalmente um desenhista‖:

— Belo traço. Você é descendente direto dos pintores desenhistas, por assim dizer; aqueles para quem a linha é a fronteira da cor, de Boticcelli a Modigliani, por exemplo. É a minha especial predileção, embora na minha posição eu nunca deva falar nesses termos... – e ele sorriu; havia sempre alguma coisa simpática na pose de Mr. Richard, como quem brinca com a própria importância (idem, ibidem, p. 154).

O segundo aspecto é o motivo pelo qual, talvez, Tato não consiga terminar suas telas. Na verdade, seu sentimento de posse é tão exacerbado por elas, que ele prefere não acabá-las, não precisando, assim, se desfazer delas. Percebe-se, neste fragmento, as consequências oriundas de seu ―amor pelos quadros‖: ―Eu pagaria dez vezes isso para recuperar meu quadro. Acho que nunca vou ser um grande artista. Detesto me desfazer dos meus trabalhos (idem, ibidem, p. 27).

Através desses extratos retirados do romance Breve espaço entre cor e sombra, bem como por meio de textos teóricos, pôde-se compreender os caminhos percorridos pela arte desde seu princípio, ou melhor, foi possível compreender sua história de cerca de 25 mil anos.

Esse percurso, por seu turno, proporcionou que se acompanhassem as mudanças no mundo da arte ocasionadas pelo tempo, pelo desenvolvimento histórico e social da humanidade.

A industrialização e a modernidade trouxeram a fotografia, que mudou os conceitos previamente delineados pela arte, fazendo com que a chegada do século XX se instaurasse como o período das quebras de formas e regras solidificadas.

Observamos a sintonia, ou a falta desta, entre o pintor e o mercado de arte, acompanhamos também questões que preocupam os especialistas em artes até o presente momento, como, por exemplo, o caso das falsificações das obras de arte. É de suma importância conhecer e identificar as marcas dos artistas, para facilitar, ou melhor, para dar mais propriedade a teses levantadas quando se tratam de falsificações.

Uma vez que o romance em estudo gira em torno de uma cabeça supostamente esculpida por Amedeo Modigliani, fez-se preciso conhecê-lo um pouco mais a fundo. Dito que sua escultura e sua pintura apresentam traços bastante característicos, a identificação de suas obras é, portanto, imediata.

Além das obras do italiano Modigliani serem mencionadas no romance, outros nomes de pintores e /ou escultores estão presentes na trama narrativa, possibilitando-nos apreender o diálogo contínuo entre a pintura e o texto literário. O paralelo entre a literatura e as questões concernentes às artes plásticas foi abordado nos diálogos e nas reflexões que compõem Breve

espaço entre cor e sombra, de Tezza.

Agora, faz-se necessário, no próximo capítulo, detalhar aspectos mais estruturais do autor e da narrativa, levando-se sempre em consideração a comparação entre a linguagem verbal e a linguagem não verbal que permeiam a obra.

CAPÍTULO 2 – CRISTOVÃO TEZZA E SUA OBRA: