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A análise de evidências empíricas de fenômenos que se apresentem como alternativas aos padrões hegemônicos, ao passo que é desafiadora, assume- se também como instigante. Diante disso, as práticas agrícolas observadas no assentamento Santa Rita, trazem-nos uma diversidade de percepções, sentimentos e compreensões acerca de novos relacionares entre economia e natureza, mesmo cientes dos limites econômicos e sociais verificados em nosso objeto de estudo.

O arcabouço teórico trazido à discussão pela Economia Ecológica teve o intuito de refletir metodologias de análises para o relacionamento economia e natureza, que rompessem com os padrões mecanicistas das ciências, sobretudo a econômica. A agroecologia e a economia solidária assumiram, portanto, o papel prático da pesquisa, uma vez que foram admitidos com uma tentativa de se concretizar a discussão sugerida por Georgescu-Roegen, a saber: refletir a possibilidade dos fenômenos econômicos como meros fenômenos químicos, físicos e biológicos, consequentemente pertencentes aos fenômenos da natureza em que estão inseridos e sendo vivenciados.

Diante disso, observou-se nas práticas agroecológicas uma mais estreita aproximação com as bases metodológicas da economia ecológica, uma vez que estas se justificam por serem práticas predominantemente produtivas e também nos aspectos cíclicos das trocas de matéria e energia, sobretudo na destinação dos resíduos, sem desprezar na análise seus aspectos de alcance social e cultural.

A agroecologia traz consigo o ideal de relação econômica pautada na base fundamental da economia ecológica, ao qual visa praticar transformações de energia com a mais baixa entropia possível em seus fenômenos e processos produtivos. Portanto, compreende-se nela um caminho possível para se estabelecer uma nova socioeconomia, que possibilite o diálogo entre agricultura (economia) e ecologia, homem e natureza, numa perspectiva de novas experiências de promoção do desenvolvimento rural e local, uma vez que tal relação apresenta-se bastante degradada em face das práticas da agricultura moderna. Com efeito, a agroecologia aspira ser uma oportunidade de se praticar novas relações sociais e econômicas locais, dialogando com o meio ambiente, aproximando-se, enfim, das propostas de interação da economia ecológica, entre economia e natureza.

Na economia solidária, a aproximação com a economia ecológica se identificou sobretudo no aspecto de rompimento dos padrões mecânicos de análise das relações econômicas de produção (organização produtiva) e consumo/comercialização, a propósito de rompimentos com a lógica predominante da economia neoclássica. Com efeito, a economia solidária, tende a contribuir para caminhos mais harmoniosos no relacionar do homem com o meio ambiente, concorrendo para uma potencial economia de baixa entropia.

Enfim, a Economia Solidária assim como a Agroecologia, tratam-se e legitimam-se como outros caminhos sendo (e a serem) experimentados, sobretudo em áreas rurais de assentamento de reforma agrária, conforme pretendeu-se verificar no objeto de estudo deste trabalho.

A partir da metodologia de coleta de dados, com a formulação dos índices do iecosol, foram possíveis aferir determinados elementos sobre as práticas agrícolas do assentamento Santa Rita, focando sobretudo nos seus aspectos recorrentes a agricultura ecológica e de economia solidária.

Tais resultados apontaram que, do ponto de vista social o assentamento tem apresentado boas condições de moradia, geração de renda e de qualidade de vida para seus moradores. Aspectos como o acesso a educação e qualidade do sistema de saúde local, entendidos como essenciais para grande parte da população, foram bem pontuados pelos assentados, o que nos leva a perceber que a qualidade do bem estar verificado em Santa Rita tem atendido as expectativas de seus povos locais.

Na análise dos aspectos que apontam para práticas de agricultura ecológica, observou-se que há de fato iniciativa e boa vontade dos agricultores em produzir de forma harmoniosa com a natureza. Entretanto, a falta de políticas públicas específicas para tal, bem como o inexistente apoio de instituições da sociedade civil, não tem propiciado um campo favorável para a disseminação da agroecologia no assentamento. Entretanto, mesmo diante das dificuldades observadas, verifica-se um bom nível de comprometimento dos agricultores em práticas produtivas inseridas nos limites impostos pelo meio ambiente ao qual estão inseridos.

Os aspectos observados acerca da prática de uma economia diferente da lógica capitalista sinalizam para resultados medianos. Verificou-se uma gestão democrática e participativa no assentamento. Entretanto, poucas ações para

fortalecimento da participação familiar e coletiva tem sido experimentadas. Inexistem também articulações solidárias com outras entidades similares e também instituições de fomento à economia solidária. Ressalta-se, porém, o grau de satisfação com a renda e condição econômica geral, manifestado de forma entusiástica pelos pequenos produtores do assentamento, mesmo não se verificando grandes resultados econômicos, quando cotejados ao que se tem verificado na agricultura convencional / patronal.

Quanto aos aspectos culturais e institucionais, observam-se resultados mais críticos. Inexiste no assentamento uma preocupação coletiva com a geração e disseminação do conhecimento relacionado à agricultura e agroecologia especificamente. Somado a isso, os instrumentos de apoio técnico também não tem trabalhado em função desse propósito. Por fim, apesar de ter sido observado uma atuação relevante de movimentos sociais na região, sobretudo fomentando a agroecologia e economia solidária, os mesmos não alcançam os limites do assentamento. Santa Rita, por sua vez, também não busca a interação com tais ações, por comodismo, conforme salientado por grande parte dos agricultores.

Diante disso pôde-se perceber que agroecologia e a economia solidária, apesar de serem timidamente verificadas no assentamento, têm sinalizado para práticas produtivas divergentes das convencionais, sobretudo do ponto de vista de sua finalidade máxima: a busca incessante pelo lucro. Pôde-se, dessa forma, verificar que a agricultura ecológica e solidária não somente é uma prática que se limita a uma dimensão produtiva, mas também se manifesta na dimensão sócio cultural e que tem corroborado para o processo de transformação de valores, principalmente nas sociedades rurais.

As visitas ao assentamento Santa Rita ocorreram ao longo de 8 anos. Como objeto de estudo específico desta pesquisa, desde 2011. Nesse período, se tem verificado um processo contínuo de transformações sociais, econômicas e também culturais. A realidade sócio econômica, inclusive a do assentamento, é bastante dinâmica, o que reforça a compreensão de que as mudanças fundamentais no sistema econômico são de ordem qualitativa, e não podem ser compreendidas estritamente com números. O caminho percorrido na pesquisa procurou seguir essa determinação de Joseph Schumpeter, um dos maiores influenciadores de Georgescu-Roegen. As análises estatísticas oferecidas pelo instrumental do índice (iecosol), mesmo quantitativas, buscaram evidenciar aspectos qualitativos. Não à

toa, ficaram de fora das análises variáveis como renda e quantitativo de produção dos agricultores de Santa Rita.

Nosso objeto de estudo, está demasiadamente distante de se mostrar como referência de modelos alternativos de produção e que divergem dos modelos capitalistas. Nossa proposta não foi essa, nem se baseia no grau de distanciamento dessa divergência. Distanciam-se também da idealização de uma economia de baixa entropia, conforme sugere a segunda lei da termodinâmica – A Lei da Entropia – que dá suporte teórico à discussão proposta por Roegen na Economia Ecológica.

Com nosso objeto de estudo, procurou-se simplesmente evidenciar que caminhos alternativos existem, estão sendo experimentados e vivenciados e que podem ser compreendidos de forma dissociada das análises mecanicistas das ciências econômicas, em detrimento de uma visão interdisciplinar.

Por fim, acreditando que a economia e sociedade estejam num momento crítico. Ambas experimentam uma mudança de época (e não uma época de mudanças), referida pesquisa traz consigo uma despretensiosa contribuição, refletindo e discutindo acerca de uma outra racionalidade produtiva que reconheça a natureza como limitante das relações econômicas, sobretudo em áreas rurais, aos quais compreendemos existir elementos que favorecem a prática de relações entre os homens e estes com a natureza, de forma mais harmoniosa e menos degradante.