Chapter 4: Results
4.6 Failed tests
Encontramos um rosto para a pobreza que não gostaríamos de ter encontrado em nossa pesquisa. A revista Veja, através de seu discurso, classificou o pobre como delinquente. Vejamos alguns exemplos da revista.
Exemplo 01: Os delinquentes da periferia, naturalmente, se veem atraídos a agir também no município de Curitiba, onde circula o dinheiro (VEJA 01, 43-44).
Exemplo 02: Baixa escolaridade e condições de saúde ruins produzem um trabalhador insatisfeito com suas condições de vida, que começa a considerar como alternativas passar para o tráfico de drogas e outros tipos de crime (VEJA 01, 37-40).
Vamos iniciar nossa análise pelo que chamamos de pobre como delinquente. Esta categoria foi encontrada apenas em um dos textos analisados da revista Veja. Esse tipo de rosto, pelo que percebemos, só é encontrado na grande mídia, geralmente trazendo a opinião externa, no caso de uma legitimação deste rosto, como fez VEJA 01, ou então como crítica a
essa ideia que permeia a sociedade. Jamais o governo atribuiria uma imagem tão negativa ao pobre, muito menos os próprios representantes dos pobres. Temos algumas amostras encontradas em sites de busca na internet:
Amostra 01) Há três anos responsável pelo controle externo das atividades policiais em Manaus, a promotora de Justiça Cley Martins, do Ministério Público do Amazonas (MPE/AM), já chegou a uma conclusão prática: aqui, pobre e rico são tratados de modo diferenciado pela polícia. Segundo ela, é comum que cidadãos pobres sejam
presos por “desacato” se questionam abordagens truculentas. Contaminada pelo que chama de “vírus da Justiça”,
ela briga para que a polícia respeite a legislação (ALVES, 2013).
Amostra 02) A diarista Paula Alves Ferreira, 42 anos, aponta para o fim da rua esburacada, no Trecho 1 do Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia. Mostra que a região ocupada por barracos e biroscas há 12 anos não passava de um enorme cerrado. No período, ela viu casas se multiplicarem. Com a chegada de tantos moradores, os problemas não demoraram a aparecer. As terras da chácara de Paula, antes férteis, pararam de dar frutas e verduras devido à contaminação do solo. O lugar, tranquilo, tornou-se palco de crimes de toda ordem. Em pouco mais de uma década, a zona rural escolhida pela trabalhadora para viver com a família se transformou na segunda maior favela da América Latina, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (ARAÚJO, 2013).
O pobre de VEJA 01 não é Explorado, muito menos Desafiliado (categoria que não foi encontrada no corpus deste trabalho). A revista faz emergir um pobre, como dito, criminoso, ou, segundo a sua própria nomenclatura, delinquente. No entanto, tomando as próprias explicações sobre a origem desta criminalidade segundo a Veja, entendemos que o pobre delinquente está imerso na macrocategoria Dependente.
O texto no qual encontramos este rosto da pobreza é intitulado Mas Logo em
Curitiba? Ainda hoje, Curitiba é tida como Cidade Modelo (BRANDÃO, 2009 [2013]).
Modelo ecológico, modelo em transporte público, em saúde pública etc. É considerada a capital com melhores serviços e melhor qualidade de vida. As taxas de crime na capital paranaense sempre foram mais baixas do que as outras grandes capitais. No entanto, isso começou a mudar graças ao que a Veja chama de “Os delinquentes da periferia” (VEJA 01, 45).
Este modelo de cidade foi maculado por incompetência, segundo a revista, do governo estadual. A periferia cresceu, mas não houve investimento, o que gerou uma onda de criminalidade, já que havia muita gente, mas não tinha, por exemplo, emprego para todos. Ademais, um dado que não pode faltar à análise é o fato de Curitiba, na época, ter um prefeito do PSB (Luciano Ducci) e o Paraná, um governador do PMDB (Roberto Requião), ambos aliados à presidenta Dilma à época, fazendo, assim, parte da base do governo federal que possui uma ideologia socialista que diverge dos interesses da revista. Esses fatores podem influenciar na produção de uma reportagem com críticas tão pesadas aos governos locais, e essa tentativa de deslegitimar esses governos é claramente marcada através do discurso direto
do ex-governador do Paraná, Jaime Lerner21 (DEM) em “Houve uma omissão do poder estadual, refletida na falta de investimento na área de segurança e em um governo autoritário
e arrogante” (VEJA 01, 66-68).
Em VEJA 01, 37-40, é afirmado, através da voz da advogada especialista em Direito Penal, Priscilla Placha Sá, que condições ruins de saúde e baixa escolaridade, “produzem um trabalhador insatisfeito com suas condições de vida, que começa a considerar como alternativas passar para o tráfico de drogas e outros tipos de crime”. Primeiro, o trabalhador é colocado como um produto, ou seja, não temos um julgamento, mas, sim, uma apreciação, que de acordo com o Sistema de Avaliatividade (VIAN JR, 2010), seria um recurso para atribuir valor às coisas.
Aqui, temos o claro exemplo de como a revista transforma um ser humano num produto, algo quase inanimado, sem vontade, sem ideias, sem princípio, apenas obra do meio. Além disso, temos mais um exemplo de generalização, já que todo o trabalhador sem escolaridade e sem acesso à saúde é um produto igual, sem particularidades, que começa a
“considerar”, sem exceção, “passar para o tráfico de drogas e outros tipos de crime”.
Claramente, para a revista, há uma relação bem marcada entre ser pobre Dependente e delinquente. Em outras palavras, se não se tem acesso aos meios para se manter a vida porque está longe dos centros urbanos ou do acesso aos serviços, e só tem como melhorar de vida por meio de outra pessoas, mas, como vimos, o governo é incapaz de prover isso, só lhe resta, modalizado por alternativa, a vida do crime. Para a revista Veja, o pobre é delinquente, pois é desempregado, imigrante, o que pode gerar preconceito entre os que não trabalham e/ou deixam suas terras em busca de oportunidades em outros lugares.
Não é difícil vermos casos de violência, seja verbal ou física, contra imigrantes, principalmente nordestinos. Em VEJA 01, podemos fazer o seguinte questionamento: a revista retrata o imigrante como delinquente pelo que circula na sociedade, ou essa ideologia é latente porque alguns veículos midiáticos têm o costume de associar a delinquência à imigração? A resposta: não sabemos. Não é a causa, mas o efeito que nos interessa. A análise de VEJA 01 nos ajuda a entender o quão é importante que os estudos acadêmicos se debrucem sobre o que circula na grande mídia de massa e, através de reflexões, incitem os questionamentos não apenas no círculo acadêmico, mas em toda a sociedade.
Este rosto, o pobre como delinquente, só foi encontrado neste texto, e a Veja, portanto, se torna a única representante desta realidade neste trabalho. Lembramos que, num
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período de seis meses, apenas os dois textos destacados contribuiriam para a realização da análise à qual nos propomos. Não queremos, por consequência, afirmar que apenas a Veja enxerga o pobre como delinquente, mas, levando em conta todos os textos do governo federal e da CUFA lidos durante a coleta, ainda assim, não conseguimos encontrar uma relação entre pobreza e criminalidade tão latente.
Na matéria sobre a alta taxa de impostos no Brasil, da edição número 2269 da Veja (VEJA 02), escrita por Marcelo Sakate, intitulada O ralo dos impostos, há um tópico intitulado Euforia de fôlego curto, que traz citações dos economistas Fabio Giambiagi e Armando Castelar, autores do livro Além da Euforia. A matéria por completo aborda a questão das altas taxas de juros no Brasil e o não repasse em serviços (de qualidade) para a população. Num trecho, a pobreza é abordada, sucintamente, e é sobre este trecho, apenas um parágrafo, que nos debruçamos para auferir a imagem que a revista tem do pobre e da pobreza (nos anexos, apenas os trechos analisados estão transcritos).
Percebemos que “mais pobres” (VEJA 02, 06)22
, além de presente no discurso governista, é usado pela Veja. Porém, aqui a mídia não trata dos miseráveis, como se vê no discurso do governo. Como o tópico do parágrafo é a relação crédito-trabalho-consumo, percebemos que a inclusão do pobre no mercado de trabalho o conduz à capacidade de consumo e, também lhe dá acesso ao crédito. Neste viés, a revista se propõe a mostrar que o avanço econômico e o favorecimento dos menos favorecidos se dão por meio do emprego, diferentemente do que diz o governo. Além disso, o pobre é retratado como provedor de mão de obra, e fica claro que a inclusão que ele teve representa a inclusão no mercado de trabalho. É interessante que falemos que, mesmo sendo representado como provedor de mão de obra, não há a conotação de exploração, ou seja, mesmo sendo incluso na sociedade exclusivamente por conta do seu trabalho, para a Veja, o pobre não é explorado23. Isso se dá pela negação do discurso marxista, uma vez que, como neoliberal, a revista não concebe a relação de exploração que há entre as classes. Essa representação do pobre, para a Veja, é positiva, pois ter sua mão de obra explorada enobrece e dignifica o homem. O pobre, quando trabalha, está incluso na sociedade, ou seja, mão de obra, grosso modo, para a Veja, tem a mesma carga positiva do pobre como socorrido do governo federal.
Em VEJA 02, 07, percebemos que a revista desacredita que as melhorias sejam algo que salta aos olhos, uma vez que a desigualdade continua “elevada”. Percebemos esta descrença da Veja no projeto político do Partido dos Trabalhadores por ela, apesar de dizer
22 Ver também GOV, 04, l, 34. 23
imparcial, mostrar um discurso neoliberal, isso acontece porque “A objetividade e a imparcialidade são problemáticas que o jornalismo não consegue resolver” (MAKHOUL,
2009, p. 19). A mensagem, aqui, é que, mesmo com a taxa de desemprego baixa, mesmo com a desigualdade tendo caído como nunca visto desde a década de setenta do século passado,
ainda é algo presente e inerente a esta nação. Não obstante, resultados como “oferta de
crédito” e a “força” que obteve o consumo são decorrentes do “cenário de maior
previsibilidade”, que não tem um agente. Sabe-se, diante do panorama nacional, que esse “cenário de maior previsibilidade” é o resultado de políticas governamentais, enfatizado ao
dizer que partiram da ação do governo e do “desempenho do presidente Lula em se
comprometer no Brasil com a questão do desenvolvimento” (GOV 04, 35-36).
Segundo a Veja, indiretamente, esta exclusão é causada pelo próprio governo, que distribui renda, mas é incapaz de dar ao pobres a visão de mundo da classe média-alta, leitores da revista. Em trabalho sobre a imparcialidade da Veja, que valoriza o Partido da Social Democracia do Brasil (PSDB) em detrimento do PT, Makhol (2009, p. 155) afirma “o enunciador de Veja pode mandar às favas a imparcialidade em prol de um bem maior: a volta
do PSDB à presidência da República”. Ou seja, a revista ataca o governo petista ao apontar
defeitos na política pública de combate à pobreza.
Aqui, não obsta relembrar que a ideologia da revista Veja é neoliberal, e está, segundo a crítica, mais interessada com as classes mais abastadas da sociedade. Isso se mostra preocupante, uma vez que, com sua tiragem que gira em torno de um milhão de exemplares semanais, essas significações atingem inúmeras famílias. Ao questionar as ações do governo e pintar o pobre como um eterno dependente, a revista pode influenciar até em preconceitos, generalizações. Souza (2014) classifica como “incondicional” a defesa da Veja ao neoliberalismo, o que justifica a sua postura adversa a governos ou partidos de bandeira socialista.
Com interesses, portanto, bem delimitados, a revista pode usar seu discurso para tentar impingir as suas ideias ao leitor. Um exemplo de como isso pode acontecer é o texto VEJA 01, que, inicialmente, é uma reportagem sobre a violência que acometeu a cidade de Curitiba, capital do PR, nos últimos anos. Antes de passar ao texto da revista, é preciso fazer algumas ponderações sobre Curitiba.
Nesta linha, a revista em questão pode fazer com que os pobres tenham sua identidade atrelada à delinquência, à criminalidade. Além de mostrar o pobre como Dependente, a Veja, no texto Mas logo em Curitiba? transmite significações que não
contribuem para a amenização do sofrimento daqueles que vivem em condições menos favorecidas, mas, ao contrário, generaliza os moradores da periferia e os nivela por baixo.
Voltando à questão do pobre como Dependente, mais especificamente ao pobre como mão de obra, segundo a revista Veja, podemos destacar o trecho que aborda a questão dos imigrantes (VEJA 01, 27-30), que formam as periferias de Curitiba em busca de trabalho. De fato, sem trabalho, o pobre não pode transcender a sua condição social, não pode se sustentar, logo, é desfavorecido. Esta dependência é tamanha que, onde há oferta de emprego, consequentemente, há procura e imigração. Em meados do século passado, pela seca e pela escassez de emprego, muitos brasileiros imigraram da Região Nordeste para cidades do Sudeste, principalmente São Paulo, o que ajudou a criação do senso comum de que imigrante é pobre, é nordestino, que até hoje permeia as significações de mundo dos brasileiros.
No excerto VEJA 01, 32-33, a imigração é ponderada e a questão do emprego é posta em cena, em: “A criação da Cidade Industrial, que concentra fábricas, e a instalação de indústrias como a Renault em São José dos Pinhais atraíram grandes contingentes de
migrantes do interior do Paraná”. Ao falar sobre a busca por emprego, indiretamente a Veja
concebe o rosto da pobreza que não tem acesso ao emprego em seu lugar de origem, portanto Dependente das ações do governo e da iniciativa privada, ele não consegue ascender, pois é desfavorecido.
O termo ‘imigrante’ avalia tanto o pobre positivamente, já que está deixando a sua
terra em busca de oportunidade, ou seja, não é acomodado, mas, também, traz significações pejorativas, haja vista um senso comum equivocado que se criou sobre os nordestinos que imigraram no séc. XX às grandes cidades do sudeste. Além disso, no próprio texto, este imigrante é pintado como aquele que inflou a periferia de Curitiba e, consequentemente, aumentou a criminalidade na região. Este imigrante é descrito como “delinquente da
periferia” (VEJA 01, 43), uma forma de generalizar aquele que vive na pobreza como
propenso a cometer crimes.
Em VEJA 01, ainda, é pertinente explorar o julgamento através de “delinquente”, como fizemos acima, mas devemos identificar como a marginalização é mostrada no discurso da Veja. Este veículo de imprensa, a exemplo do governo, também classifica o pobre como distante dos grandes centros urbanos, sem acesso aos recursos básicos para se ter uma mínima qualidade de vida.
Enfim, dada a quantidade de textos encontrado da revista Veja, além das especificidades deste trabalho, encontramos apenas os exemplos acima destacados que
vislumbram o rosto da pobreza dependente segundo a representante da mídia. Mas, ao contrário do tom adotado pelo governo, percebemos que a revista é um pouco ríspida e intransigente à questão dos que vivem na pobreza, como se isso fosse mais do que ruim, mas uma praga, algo que puxa as camadas sociais para baixo. Ao generalizar os pobres como Dependentes no nível que o faz, a Veja pinta uma imagem ruim aos que estão em ascensão social, pois se endividam ou são acomodados pela assistência do governo (não ficou tão claro nos excertos analisados, mas subtende-se e se comprova com a leitura de textos fora do períodos do recorte temporal deste trabalho).
Desta maneira, como analistas, alertamos para os problemas causados pelas generalizações negativas promovidas pela revista de informação de maior tiragem do Brasil, uma revista que pode influenciar a opinião de muitos brasileiros e influencia, inclusive, outros veículos midiáticos. Temos que, como críticos e reflexivos, atentar para os problemas em se criar uma imagem pejorativa para determinados grupos ou indivíduos.
Abaixo, o quadro demonstrativo do pobre segundo a revista Veja.
Figura 07 – O pobre segundo a Veja
A proposta inicial seria analisar o mesmo número de textos das três fontes selecionadas para o recolhimento do corpus para esta pesquisa, no entanto, após seis meses de coleta, só conseguimos auferir dois textos da Veja, e este fato também é passível de análise.
O pobre
segundo a
Veja
Dependente
delinquente
provedor de
A maior revista semanal de informações do país, em seis meses, só abordou duas vezes a questão da pobreza ou do pobre, e, quando o fez, mostrou um pobre delinquente ou apenas um indivíduo que fornece mão de obra. A revista, além de fazer julgamentos negativos acerca do pobre, ainda omitiu a sua voz ou, pior, excluiu de suas páginas milhões de pessoas que passam por problemas sociais graves, fator que apenas fortalece a preocupação da revista em apontar apenas os problemas de uma determinada classe social que, por sua vez, já é a mais privilegiada. Além disso, o pobre como desfavorecido também aparece no discurso da revista, mostrando uma cerca recorrência desta imagem nos discursos analisados.