Chapter 2: Theory
2.5 Chalk-fluid interactions
2.5.3 Chemical mechanisms
Bajoit (2006b) diferencia o sujeito social do indivíduo. E, assim, classifica as identidades em identidade coletiva e identidade pessoal. Para o autor, não basta reconhecer o ator para reconhecer o lugar do sujeito individual na vida social (BAJOIT, op. cit.), o que possibilita a ASCD a trabalhar, também, com as identidades pessoais e identificar as diferentes identidades materializadas no discurso.
O indivíduo não é uno (HALL, 2005), pois exerce de diversas maneiras as suas ações no mundo, o que o caracteriza como múltiplo, e suas várias identidades podem ser mapeadas através de seu discurso, de acordo com Bajoit (2006b). É importante que tenhamos em mente, porém, que determinados objetos e corpus privilegiam um estudo identitário mais profundo do que outros, e que os objetivos de cada pesquisa também podem facilitar o uso da contribuição que o sociólogo belga propõe para o estudo do sujeito.
Bajoit (2006b) afirma que o indivíduo é construído, basicamente, por três esferas identitárias: a) identidade atribuída, a que o indivíduo acha que esperam dele; b) identidade
13
desejada, o que, de fato, ele deseja ser; e c) identidade comprometida, a que assumiu ser. Essas identidades sempre estão em conflito, e ser sujeito é a capacidade do indivíduo de atuar sobre si mesmo para construir sua identidade pessoal, lidando com as tensões existenciais que causam suas relações com os outros no mundo social (BAJOIT, 2006b).
O trabalho sobre as diferentes identidades que o indivíduo possui é chamado por Bajoit (idem) de gestão relacional de si. A todo o momento, de acordo com o sociólogo belga, o sujeito labora sobre suas identidades, tanto consciente quanto inconscientemente, e como nunca obtém sucesso pleno, uma vez que suas identidades sempre estarão em embate, entrará em uma tensão existencial.
Por exemplo, um aluno do ensino médio que quer ser jogador de futebol, mas acredita que este não é o desejo de seus pais, se vê entre a cruz e a espada, e é classificado por Bajoit (idem) como dividido (entre seus desejos e as vontades da família).
Para as questões relacionadas à tensão existencial e, obviamente, sobre a gestão
relacional de si, Bajoit (idem) desenvolve amplo trabalho. No entanto, como os objetivos
desta dissertação não abarcam tais questões, optamos por não explorá-los a fundo neste momento. No entanto, isso não nos obsta a dar nossa contribuição teórica ao abordar essa questão neste texto.
Quanto às identidades coletivas, Bajoit (2006b) afirma que os sujeitos as constroem na socialização, através de processos conscientes e inconscientes. As relações sociais, por sua
vez, são regidas pelo que o autor chama de “constrangimentos sociais”, ou seja, pelas relações
de poder. Essas relações sociais são legitimadas por significações culturais, ideológicas.
Assim, entendemos que “uma relação social é uma troca (entre indivíduos ou
grupos) que, aos seus olhos, não é nem arbitrária (é orientada) nem absurda (tem
significação): tem sentido, no duplo sentido do termo” (idem, p. 140). Ou seja, as relações
Figura 04 - Quadro das relações sociais (BAJOIT, 2006b, p. 141).
As relações de poder, como vimos, determinam as relações sociais. A intenção de Bajoit (2006, p. 144), e também a impingida neste trabalho, é procurar “enunciar os processos
através dos quais ‘os outros’ conseguem que qualquer indivíduo adapte o seu comportamento às suas exigências”, como os indivíduos acabam “entrando” num determinado grupo e, assim,
criando sua identidade coletiva.
Há, basicamente, quatro formas pelas quais um indivíduo entra num grupo, ainda de acordo com Bajoit (op. cit.). Essas formas, esses ‘processos de socialização’, se dão através de razões conscientes e inconscientes, a saber: a) cálculo; b) habituação; c) identificação; e d) convicção, como podemos melhor entender com o gráfico abaixo:
Relação social = uma troca entre indivíduos
ou grupos que...
Forma de participação
...que proseguem finalidades (comuns ou não)
...que empregam recursos graças às suas competências
Forma de desigualdade
...que beneficiam de certas retribuições diferentes (status
social) que valorizam
...e que exercem uns sobre os outros constrangimentos desiguais num determinado
Figura 05 – Os processos de socialização (BAJOIT, 2006b, p. 150).
Essas identidades são construídas levando-se em conta tanto o atual período da sociedade quanto o modelo econômico vigente, pois são essas identidades que “estruturam-se, antes de mais [nada], sobre a contribuição para a produção de riquezas através do trabalho,
logo, sobre critérios profissionais” (BAJOIT, 2006, p. 156). Nesse sentido, podemos entender
que quem vive na miséria, quem é desempregado, quem não faz parte das engrenagens necessárias para se manter no ciclo atual de produção é excluído socialmente, mesmo que em graus diferentes.
Neste cenário, tem mais status quem tem mais poder ou vice-versa. Atualmente, as profissões intelectuais têm mais valor que as manuais (BAJOIT, 2006), por exemplo, e tudo gira em torno da manutenção dos interesses dos detentores do poder. É por essa razão que qualquer ameaça a uma identidade coletiva é defendida com unhas e dentes pelos indivíduos pertencentes ao grupo.
Quaisquer grupos sociais apresentam variação de estrutura e diferentes papéis a serem desempenhados por seus membros que, por conseguinte, possuem maior ou menor poder dentro do grupo, sem que isso seja uma maneira de desvincular as relações de identidade dos indivíduos com a identidade do grupo. Seguindo a perspectiva de que nem todos os que não fazem parte do seio da sociedade ou daqueles que partilham de determinada cultura são iguais, os pobres, foco deste trabalho, obviamente não formam um grupo uniforme e igualitário. Na proposta de Bajoit (2006a), existem, pelo menos, quatro formas de
Os processos de socialização
Por razões conscientes
Por convicção: "porque partilha com eles valores comuns" Por cálculo: "porque
é do meu interesse, ganho mais do que
isso me custa" Por razões inconscientes Por identificação: "porque tenho necessidade de amar e ser amado" Por habituação: "porque isso me dá uma boa imagem de
representar os indivíduos das classes menos abastadas, o que ele chama de ‘rostos da pobreza’, como vemos a seguir.