O último texto analisado das produções cientifico-acadêmicas que foram selecionadas para a nossa pesquisa foi o documento T8, cujo título é O ensino de filosofia no Ensino Médio mediado pela literatura sartriana (2010). O texto visa analisar o ensino de filosofia no Ensino Médio através da mediação da literatura. Para tanto, em T8 desenvolve-se um estudo de caráter qualitativo, tendo como seu objeto uma experiência (estudo de caso) com o ensino da filosofia, na qual utilizou uma obra existencialista de Jean-Paul Sartre, o romance A náusea (2006). Partindo do princípio de que o existencialismo foi uma corrente filosófica que se serviu da literatura enquanto expressão de ideias filosóficas, vislumbrou-se o potencial pedagógico da vizinhança comunicante entre a filosofia e a literatura. A ideia-força foi tratar conceitos filosóficos a partir da literatura. Por meio desse trabalho, o documento também pretendeu demonstrar a importância da formação de um professor reflexivo que combine, na sua praxis, o saber fazer com a crítica honesta da sua própria capacidade profissional.
Para a análise do documento, separamos duas unidades de leitura: uma que trata da
“filosofia e suas características” e outra tratando da “filosofia no Ensino Médio”. Na primeira
unidade, T8 afirma que a filosofia se caracteriza como um método de investigação orientado por um pensamento radical e rigoroso. Assim:
“A Filosofia vista como um método de investigação e análise das teorias e práticas humanas possui uma peculiaridade que se traduz no seu pensar radical sobre os problemas que se lhe apresentam. (...) Um pensamento radical é aquele que busca ir às ra ízes do problema; tem por meta uma análise meticulosa da questão ensejada; não se satisfaz com explicações simplistas, pois deseja uma compreensão abrangente e totalizadora que proporcione um saber bem fundamentado” (grifo nosso).
Conforme afirma o texto, a investigação filosófica se volta para as teorias e práticas. Interessante observar que o autor não faz distinção entre os campos do teórico e do prático. Explica que o fundamenta a filosofia é o modo como pensa a teoria e a prática e tudo o que a isso se refere. Trata-se de um pensamento radical. “Um pensamento radical, por buscar chegar às raízes do problema, prima pela profundidade. (...) Nesse sentido, não pode contentar-se com meras opiniões pessoais, que os gregos chamavam doxa, mas precisa de método, de esforço; em uma palavra: rigor” (p. 19).
Nesse sentido, o ensino de filosofia deve ser capaz de desenvolver no aluno esse tipo de pensamento ou essa maneira rigorosa e radical de pensar. Em T8 afirma-se:
“Estimular a reflexão seria o que de mais filosófico poderia ocorrer em uma sala de aula, até porque,
para ele, a Filosofia seria essencialmente procura e não posse do saber. (...) enfatizar a importância da reflexão no estudo da Filosofia, sendo o refletir a própria essência do filosofar. Nesses termos, filosofar seria o mesmo que buscar novos caminhos, ser capaz de rever crenças e renunciar dogmatismos, repensando até mesmo as ‘verdades’ inquestionáveis já impregnadas no meio social”.
Em T8 o objetivo principal da filosofia é levar o aluno a refletir e, mais uma vez, em nosso estudo a reflexão aparece como a principal característica do filosofar.
A dimensão reflexiva da filosofia remonta as suas origens. Por isso, segundo o documento, “Sócrates pode ser considerado como um dos primeiros filósofos a estabelecer um método de ensino da Filosofia, baseado no questionamento e na problematização, aspectos tão caros a uma postura reflexiva diante da realidade”. Em outra parte do seu texto, o autor afirma que:
(...) “a filosofia pode ser uma disciplina, pela sua própria natureza inquiridora, muito importante nesse quadro de busca de emancipação da condição de um aluno meramente consumidor de conteúdos, desde que o professor opte por uma metodologia que enseje maior participação dos alunos na aula, sobretudo através do estímulo ao diálogo como forma de mediação do conhecimento ensinado e do aprendido”.
Mas, a reflexão de que fala T8, não fica circunscrita no campo da atividade teórica; ela tem um alcance prático, uma dimensão ética, como demonstra a segunda unidade de leitura do texto. Segundo o documento, a filosofia no modelo socrático pode e deve ser vista como um modelo de ensino comprometido em pensar os aspectos da vida cotidiana de maneira crítica, criativa e participativa. Para T8, “a questão da educação reflexiva deve justamente culminar em uma ética que exija a justificação do tipo de vida que se quer adota r. Não é por acaso que Sócrates é um divisor de águas na Filosofia. É a partir dele que há um deslocamento do eixo da filosofia das questões cosmológicas às éticas” (grifo nosso). A partir desse ponto, o documento afirma que no pensamento não deve haver separação entre a vida ética de cada pessoa e a investigação filosófica, na qual se pretenda enveredar.
“As elucubrações filosóficas devem, ou pelo menos deveriam, caminhar pari passu com as resoluções existenciais de cada pessoa. (...) Assim sendo, o exercício da filosofia não é apenas um aprimoramento do intelecto para seja utilizado em discussões acaloradas, sem nenhuma contribuição efetiva à vida, mas uma experiência vital, algo que transforme efetivamente a vida daqueles que pratiquem a experiência do filosofar, não só em bases racionalistas discursivas, mas, acima de tudo, que toque com força nas questões existências mais delicadas com as quais convive”.
Em a reflexão crítica filosófica deve se transformar em uma praxis que permita reconstruir a própria sociedade. É justamente esse alcance prático da reflexão que torna a atividade filosófica uma ação que instaura mudanças no campo da ética.