6. Resultater og drøfting
6.3 Faglige forankringer- en utfordring?
Para o profundo conhecimento dos fatos da realidade acerca desse objeto de estudo, que se desvela numa rica e complexa rede de sujeitos, emergiu, ao mesmo tempo, um desafio salutar, tanto em relação à coleta como a análise dos discursos. No intuito de garantir a maior riqueza possível, dentre as diversas técnicas utilizadas para coletar material empírico, optamos pelo diário de campo na observação participante, a realização de conversas com informantes-chave, usuários, profissionais e gestores, para obtenção de mais informações sobre a realidade e realizamos oficinas e ou seminários com o grupo de pesquisa, utilizando perguntas norteadoras da discussão.
Para o desenvolvimento da pesquisa-ação propomos alguns passos fundamentais, não realizados de forma linear, mas que nos auxiliaram na condução do processo. Passaremos à descrição dos passos, numerados de 1 a 7, sem necessariamente isso implicar ordem de execução. O passo 7, que corresponde à fase de implantação do plano de ação, encontra-se brevemente descrito, mas não fará parte da dissertação, pois, sua efetivação, faz-se necessário um período bem superior ao que dispomos neste momento.
Passo 1 - Pesquisa documental visando a apropriar-se de informações relevantes e
conhecer o perfil sócio-histórico, as condições sociodemográficas, socioeconômicas e epidemiológicas do Município, em especial no que se refere ao SUS local, aos problemas ambientais e processos produtivos. Para tal, utilizamos bases de dados secundários em sites oficiais, tais como: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Portal do Governo do Estado do Ceará e da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA) e Sistemas de Informação em Saúde tais como: Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), Sistema Nacional de Agravos Notificáveis (SINAN), dentre outros.
Passo 2 - Visitas exploratórias ao Município foram realizadas durante o ano de 2009
objetivando:
¾ identificar como está estruturado o serviço de saúde em relação a atenção básica e vigilância em saúde – ambiental, sanitária, saúde do trabalhador e epidemiológica e o controle social;
¾ identificar os equipamentos sociais, agentes sociais, Conselho Municipal
de Saúde, Conselho de Meio Ambiente, sindicatos, associações de trabalhadores, cooperativas e convidá-los a participar da pesquisa;
¾ agendar reunião com a gestão municipal (secretário de saúde,
coordenação da atenção básica, coordenação das vigilâncias em saúde – ambiental, sanitária, saúde do trabalhador, epidemiológica); e
¾ realizar reunião para apresentação do projeto de pesquisa e assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido;
Passo 3 - Realizamos reunião com as equipes Saúde da Família do Município,
Conselho Municipal de Saúde para apresentação da proposta de pesquisa e iniciarmos o processo de identificação do território e consequentemente da equipe de Saúde da Família que participaria da pesquisa, considerando os seguintes critérios de inclusão:
¾ uma equipe de Saúde da Família de atuação rural e urbana; e
¾ ter disponibilidade para participar da pesquisa.
Os critérios de exclusão do território estavam relacionados à especificidade de ser totalmente rural ou totalmente urbano, e a equipe Saúde da Família não se dispor a participar da pesquisa
Após a identificação do território, isto é, da equipe Saúde da Família, que participaria do estudo, propomos a organização do grupo de pesquisa, com no máximo 14 participantes, com as pessoas da equipe que quisessem participar, sendo, prioritariamente, contemplados na sua constituição: profissional médico,
enfermeiro, agente comunitário de saúde, auxiliar de enfermagem. As demais pessoas convidadas a participar do grupo foram: usuário do SUS, movimento social, trabalhador da empresa, conselheiro municipal de saúde, gestor do Sistema Único de Saúde, especialmente da atenção básica, coordenador das áreas de saúde do trabalhador e ambiental, vereador, representante de associação ou sindicato dos trabalhadores, escola, e nós, os pesquisadores. O grupo reuniu-se em datas definidas após a sua constituição no intervalo médio de 21 dias, sendo que cada encontro do grupo correspondia a oito horas, totalizando uma carga horária de 44 horas, totalizando 5,5 encontros, que foram denominados seminários e/ou oficinas.
Para exclusão do participante do grupo, elegemos os seguintes critérios: faltar a três seminários e/ou encontros do grupo e não ter representatividade diante do órgão a que estivesse vinculado.
Passo 4 – Reunião com os componentes do grupo de pesquisa que assinaram
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, dispondo-se a participar do grupo, para realizar o planejamento do trabalho de campo:
¾ apresentamos como seriam as fases do trabalho de campo – observação
participante na unidade de saúde, as conversas com informantes-chave que se dariam ao longo do trabalho de campo, objetivando um conhecimento mais profundo da dinâmica do território escolhido, bem como a metodologia a ser utilizada nos seminários do grupo; e
¾ pactuamos o cronograma de encontro do grupo conosco para realização
dos seminários.
Passo 5 – Realizamos os seminários, que tiveram como produto um plano de ação
em relação à política de saúde ambiental e do trabalhador na atenção básica a ser implantado no Município. Os seminários foram realizados numa perspectiva colaborativa, interacionista de pesquisador e componentes do grupo, visando a ampliar ou modificar a compreensão da realidade e dos problemas locais, bem como propor soluções de enfrentamento. Segundo Freire (1992, p. 114),
[...] toda compreensão de algo corresponde cedo ou tarde, uma ação. Captado um desafio, compreendido, admitidas as hipóteses de resposta o homem age. A natureza da ação corresponde a natureza da compreensão. Se a compreensão é crítica ou preponderantemente crítica, ação também o será. Se é mágica a compreensão, mágica será a ação.
Considerando o que pensa Freire sobre a ação humana, entendemos que o fato de utilizar como guias os ensinamentos propostos pelo autor foi de salutar importância para a condução dos seminários. Para Freire, somente um método ativo, dialogal, participante, pode propiciar o debate das situações desafiadoras postas diante de um grupo, o que nos remeteu à problematização ou ação de problematizar. Nesta perspectiva, um estudo empírico realizado por Zanotto e De Rose (2003, p. 48) interpretam o que o educador Paulo Freire propõe relativo à problematização.
O que está sendo enfatizado é o sujeito práxico: a ação de problematizar acontece a partir da realidade que cerca o sujeito; a busca de explicação e solução visa a transformar aquela realidade, pela ação do próprio sujeito (sua práxis). O sujeito, por sua vez, também se transforma na ação de problematizar e passa a detectar novos problemas na sua realidade e assim sucessivamente.
Com base neste fato na pesquisa-ação, seguimos na realização dos seminários para a feitura do plano de ação. Dentre as questões essenciais, destacamos as sugestões de Thiollent (2008, p. 75): “quem são os atores ou unidade de intervenção? Como se relacionam os atores e as instituições: convergências, divergências, conflito aberto? Quais são os objetivos e metas tangíveis da ação e os critérios de avaliação? Como dar continuidade à ação, apesar das dificuldades? Como assegurar a participação da população e assegurar suas sugestões? Como controlar o conjunto do processo e avaliar os resultados?”
Considerando os ensinamentos de Thiollent (2008) e Freire (1992), seguimos na condução das oficinas, utilizando a perspectiva construcionista, entendendo tanto o sujeito como o objeto como construções sócio-históricas que precisam ser problematizadas e desfamiliarizadas, ou seja, implica problematizar a realidade (SPINK, 1999).
Spink (1999, p. 77), nos seus estudos sobre construcionismo, destaca que:
O cerne do construcionismo na perspectiva da teoria do conhecimento é a compreensão de que os termos em que o mundo é compreendido são artefatos sociais, produto das trocas historicamente situadas entre as pessoas. Adotando uma perspectiva de que o conhecimento não é uma coisa que as pessoas tem na cabeça, mas algo que elas fazem juntas. Implica a resignificação da relação entre sujeito e objeto, pois tanto o objeto como o sujeito são construções sócio-históricas: o modo como acessamos a realidade institui os objetos que constituem a realidade. Dito de outra forma, a realidade não existe independentemente do nosso modo de acessá-la.
Considerando o exposto, realizamos a pesquisa-ação concebendo os seminários juntamente com o grupo de pesquisa com vistas a:
¾ programar os seminários, carga horária, mobilização dos participantes,
dentre outras atividades; e
¾ realizar as oficinas/seminários para identificar e planejar as estratégias de ação a serem desenvolvidas na atenção básica, em especial, pela equipe Saúde da Família participante do processo, em relação à saúde ambiental e à saúde do trabalhador;
Passo 6 – Reunião com a gestão municipal (secretário de saúde, coordenação da
atenção básica, coordenação da vigilância em saúde – ambiental, sanitária, saúde do trabalhador e epidemiológica), com o controle social e fórum agrotóxico, para apresentação das ações a serem implantadas no território de cada equipe de Saúde da Família e discussão do papel do grupo gestor da Secretaria de Saúde na efetivação da política de saúde ambiental e saúde do trabalhador na atenção básica. Esta reunião acontecerá após a finalização de nossa pesquisa e consiste em apresentar os resultados da dissertação para o público há pouco descrito.
Passo 7 – Implantação, monitoramento e avaliação das estratégias de ação, de
forma processual e contínua, conforme critérios estabelecidos pelo grupo de pesquisa. Este passo constitui-se numa sugestão a ser apresentada ao grupo, para que, após o término do estudo, possam sentir-se envolvidos pela possibilidade de continuidade e seguimento das ações, com base nos seus anseios, e desenvolver essa etapa.
Todos os encontros do grupo foram gravados e ou filmados e constituíram material discursivo de análise. Os encontros grupais objetivaram, primeiramente, identificar os problemas e definir as ações prioritárias a serem desenvolvidas, considerando a temática saúde-ambiente-trabalho, segundo os participantes do grupo de pesquisa, junto aos conselheiros de saúde, lideranças comunitárias, profissionais de saúde, comunidade, dentre outros.
Os passos acima descritos possibilitaram a ampliação da nossa óptica acerca da problemática em curso pelos envolvidos. Os seminários foram realizados espaçadamente, à medida que o grupo determinava, e caracterizaram-se como momentos oportunos para discussão das ações essenciais para a integralidade da atenção em saúde do trabalhador e saúde ambiental na atenção básica, tais como:
a) realizar uma leitura abrangente e dinâmica do território, por meio do desenvolvimento de um processo de territorialização com participação social e do SUS, que consistem em mapear situações de risco, compreendendo a vulnerabilidade social da população exposta, por exemplo, onde moravam e onde residem atualmente os trabalhadores da empresa e grupos populacionais que antes viviam nesses territórios hoje pertencentes ao capital;
b) identificar a necessidade de conhecer o processo de trabalho/produção nas empresas para intervir adequadamente no processo saúde-doença em relação aos trabalhadores do agronegócio;
c) levantar dados epidemiológicos/queixas/agravos à saúde humana
relacionados ao trabalho e ambiente na população atendida nos centros de Saúde da Família, bem como junto aos trabalhadores;
d) identificar formas de visualizar o impacto ambiental ocasionado;
e) identificar as necessidades de conhecimento dos profissionais de saúde, conselheiros de saúde, dentre outros, acerca da problemática saúde- ambiente-trabalho na interface das ações de saúde pública a serem desenvolvidas no âmbito da atenção básica;
f) identificar a percepção de contexto de risco, a concepção de saúde dos profissionais do SUS;
g) fomentar as ações/práticas promotoras de saúde ambiental e saúde do trabalhador junto aos gestores públicos locais, profissionais, trabalhadores e sociedade civil;
h) incentivar a operacionalização do sistema de informação em saúde ambiental com base na disponibilização do processo de territorialização e da ação conjunta no desenvolvimento da pesquisa; e
i) discutir no contexto comunitário o envolvimento/participação da comunidade no que diz respeito à tomada de decisão relativamente à implantação desses empreendimentos, bem como a percepção atual diante das mudanças na dinâmica comunitária decorrentes dos novos empreendimentos.
Nessa perspectiva, a investigação se empenhou na identificação de ações necessárias e, até então, pouco valorizadas no contexto local. Com isso pretendemos contribuir para a garantia dos princípios constitucionais do SUS e para fomentar a implementação da Política de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador nesses territórios, bem como promover uma relação dialógica com os pressupostos da Política de Saúde do Trabalhador na interface com a saúde ambiental.
Na Parte III, denominada, O processo e os resultados, discorremos sobre como desenvolvemos a pesquisa desde os passos iniciais no reconhecimento do território até a formação do grupo de pesquisa.