Os escritos de Karl Mannheim são ainda hoje referencia de estudo para aqueles que trabalham com a questão geracional e o problema das gerações na sociedade atual e, por se tratar de um clássico, representa para muitos outros autores “a mais completa tentativa de explicação do tema” (DOMINGUES apud WELLER, 2007, p. 2). Entre as obras mais promissoras de Mannheim no desafio de significar o conceito de gerações encontra-se O Problema das Gerações de 1928, em que o autor nos abre a possibilidade para uma nova visão do assunto, contrapondo-se a abordagem positivista e revolucionando a abordagem histórico-romântica do qual é adepto.
Mannheim, assim como a teoria defendida por Dilthey, define o conceito de geração com base em fundamentos qualitativos, que o signifique além de uma definição puramente biológica, determinada por períodos de tempo postos quantitativamente, implicando um sentido social ao termo, localizando-o no tempo e no espaço. O autor, no entanto, faz uma reavaliação da definição histórico-romântica sobre o tema e contribui para a ampliação da significação do conceito apresentada por essa teoria, ampliando as idéias e as definições apresentadas por seus adeptos.
O autor defende, assim, que o vínculo geracional estabelecido entre determinadas pessoas é realmente “fruto das experiências vividas na contemporaneidade”, mas que “a posição comum daqueles nascidos em um mesmo tempo cronológico não está dada pela possibilidade de presenciarem os mesmos acontecimentos e sim de processarem esses acontecimentos da mesma forma” (WELLER, 2007, p. 1). Nesse sentido Mannheim acredita que em uma determinada sociedade podem existir diferentes gerações que “vivenciam tempos interiores diferentes em um mesmo período cronológico” (MANNHEIM apud WELLER, 2010, p. 209). Neste sentido, aplica o princípio da “não contemporaneidade dos contemporâneos” através do qual o autor define uma geração pela formação de pessoas que
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possuem experiências interiores comuns, movidas por uma mesma enteléquia. 24 Desta forma, entendemos o conceito de geração, tal como Mannheim:
Los individuos que crecen como contemporáneos experimentan tanto en los años de gran receptividad las mismas influencias directrices de la cultura intelectual que les moldea y de la situación político-social. Constituyen una generación, una contemporaneidad, porque esas influencias son unitarias. Se produce así un vuelco: se pasa a considerar que, en lugar de ser un simple dato cronológico, la contemporaneidad significa, en la historia del espíritu, la existência de influencias similares (MANNHEIM, 1993, p. 199).
Posição Geracional – Conexão Geracional – Unidade Geracional:
A análise de Mannheim diferencia-se das demais pela separação e explicação do conceito em três categorias de análise: a posição geracional, a conexão geracional e a unidade geracional.
1. Posição Geracional: ela é definida pela possibilidade ou a potencialidade que um grupo de indivíduos tem de adquirir as mesmas experiências comuns e de processar esses acontecimentos de forma semelhante.
2. Conexão Geracional: a conexão geracional abrange uma definição mais complexa. Ela se constitui por indivíduos que pertencem à mesma posição geracional e participam de um destino comum dentro de uma unidade histórico-social. Aqui, o autor amplia a idéia de posição geracional, pois a conexão não é definida pela possibilidade de participar das mesmas experiências, e sim pela participação concreta em uma prática coletiva, seja ela qual for.
3. Unidade Geracional: essa idéia afunila mais o conceito, pois indivíduos que pertencem à mesma conexão geracional podem fazer parte de unidades geracionais diferentes. A unidade geracional está relacionada a uma adesão mais concreta entre indivíduos definida por empatias políticas, sociais e culturais.
24 O termo enteléquia simboliza os objetivos internos e metas íntimas comuns a uma mesma geração, responsável por impulsioná-la. Relaciona-se o o ue o auto ha ou de espí ito do te po de u a determinada época ou à sua desconstrução (Mannheim, 1993).
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Deste modo, o que forma uma geração não é a presença de jovens ou velhos definidas por uma data de nascimento comum. A “demarcação geracional” é algo “apenas potencial” (MANNHEIM apud FEIXA & LECCARDI, 2010). Desta forma, o autor utiliza estes termos para definir a participação e a limitação de uma geração dentro de um determinado contexto histórico, demarcado pela mudança geracional típica de nossa sociedade. Mannheim valida a significância da presença de diferentes gerações e a limitação de uma conexão geracional no espaço, no que diz respeito a sua modificação de tempos em tempos, assim como a importância deste processo.
Na perspectiva do autor, a mudança geracional ganha importância na medida em que ela se torna responsável pela renovação da sociedade. Segundo ele, a irrupção de novos portadores de cultura é responsável pela dinamicidade e vitalidade sociais, possibilitando ao mesmo tempo a incorporação de novos elementos e a conservação de dados da tradição realmente importantes (MANNHEIM, 1993). A mudança de gerações ao longo do tempo é uma característica de todas as sociedades, tal como as que vivemos, sendo sua inexistência, segundo o autor, uma característica possível somente nas sociedades utópicas.
La irrupción de nuevos hombres hace, ciertamente, que si pierdan bienes constantemente acumulados; pero crea inconscientemente la novedosa elección que se hace necesaria, la revisión en el dominio de lo que está disponible; nos enseña a olvidar lo que ya no es útil, a pretender lo que todavía no se há conquistado (MANNHEIM, 1993, p. 213).
Neste sentido, segundo Forquin, podemos enfatizar que,
as «transições entre gerações» constituem, com toda evidência, uma espécie de lei universal do mundo vivo: o fato de que as espécies vivas perduram e se reproduzem às custas de uma renovação permanente dos indivíduos, e que essa renovação é submetida ao ciclo perpétuo da vida e da morte (FORQUIN, 2003, p. 1).
Por essa razão, a limitação de uma determinada geração no decorrer da história, garante um fluxo contínuo na mudança geracional própria da vida social, acarretando, conforme Mannheim, a necessidade da “transmissão constante de bens culturais acumulados”, de forma a perpetuar tradições ancoradas por um determinado tempo. Acreditamos, em vista disso, que a entrada dos novos portadores de cultura é tão significativa quanto a saída dos velhos, pois o afastamento destes das modalidades culturais “suscita a memória ou a recordação social, tão importante quanto o esquecimento daquilo que deixou de ser
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significativo ou necessário” e torna a vivência passada, presente na vida daqueles que irão assumir os valores de uma determinada tradição (WELLER, 2010, p. 212). Compreendemos assim, tal como Foracchi, que “a continuidade das gerações é fundamental para assegurar a criação cultural e a transmissão da cultura” (FORACCHI, 1972, p. 22).
No âmbito das tradições populares, podemos inferir, deste modo, que a sobrevivência delas se faz também pela entrada de novos membros, o que acarreta a perda de alguns bens culturais acumulados, mas ao mesmo tempo possibilita que estas sobrevivam ao longo dos anos, pela inovação e adequação às novas exigências sociais. Através da incorporação de novos elementos característicos das novas gerações, as tradições se renovam e podem se manter, reafirmando, pois, que a mudança geracional é necessária para a continuidade da cultura.