A preservação de tradições baseadas na entrada e saída dos novos e velhos portadores de cultura requer uma “estruturação” educacional que viabilize a passagem dos conhecimentos dos mestres para seus aprendizes, o que entrelaça as idéias de mudança geracional e educação. Com efeito, é preciso pensar a sucessão de gerações como um processo ou um “rito” de passagem visando à continuidade, o que nos obriga a refletir sobre as formas de ensino e aprendizagem que permitem que fundamentos de uma determinada “teoria”, um ritual, uma tradição enfim, possam ser renovados e mantidos pelas novas gerações.
As transformações da sociedade estão matizadas por este processo de mudança de uma geração para outra em que um determinado legado somente é mantido ou renovado se uma nova geração que adentra for ou não preparada para tal fim. A transmissão de conhecimentos é de suma importância neste processo, cabendo a uma geração predecessora preparar suas sucessoras de forma a perpetuá-la, garantindo um elo entre o passado e o presente que permitirá a “toda geração humana (...) se inscrever dentro de uma duração maior do que a sua própria” (FORQUIN, 2003: 1).
Ao longo desse complexo processo, composto por várias e distintas fases, ocupamos posições sociais particulares, desempenhamos tarefas específicas e contemplamos o surgimento e o desabrochar, o ocaso e o desaparecimento de coletividades que nos precederam e que nos sucederão, contribuindo positiva ou negativamente, para isso (DOMINGUES, 2002: 67).
Dentro desta perspectiva, podemos considerar que o processo de transmissão de um determinado legado cultural por meio da sucessão geracional é universal, uma vez que as sociedades, em geral, buscam constantemente manter a memória de sua constituição e a história ao longo do tempo, sendo o ensino e o aprendizado das sucessivas gerações uma forma de preservar as vivências de um determinado povo, dando o suporte social e afetivo necessário às pessoas que dele fazem parte.
Em vista disso, esta pesquisa preocupa-se em evidenciar os rituais festivos como uma “experiência educativa”, enfatizando a importância deste processo para a manutenção de tradições, bem como sua implicação nos significados atribuídos pelas diferentes gerações às manifestações culturais. São as situações de aprendizagem, na passagem de rituais durante os
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eventos festivos, nos ensaios, na observação dos jovens das danças, dos ritos, dos movimentos, e no ensino dos velhos, que são constituídas e construídas, segundo Pessoa, as “possibilidades de continuidade de cada grupo e da crença e da tradição que ele expressa e que o fundamenta”.
As pessoas e grupos populares não têm como primeira forma de expressão o domínio da escrita. Seus textos são escritos em forma de dança, de cânticos rimados para facilitar a memorização, são troças, lendas, ditados, com muita, mas muita comidinha gostosa. É dessa forma que o povo escreve suas memórias, seus valores, seus códigos de regras, suas crenças, suas angústias pelo árduo trabalho, suas esperanças e fantasias. Os ingredientes que compõem a festa popular são também textos por meio dos quais a gente simples manifesta tudo aquilo que lhe toca mais profunda e intensamente (PESSOA, 2007, p. 4).
Neste contexto, as festas populares, por exemplo, apresentam-se, como uma escola “na qual se aprende, antes de outras tantas coisas, como a vida em sociedade acontece – seus valores, seus conflitos e suas possibilidades de interação e sociabilidade”. Segundo Ribeiro Junior “enquanto ritual, a festa reproduz de forma simplificada a sociedade que a produziu; ela desenvolve uma espécie de pedagogia social” (JUNIOR apud PESSOA, 2007, p. 5). É por ocasião do evento festivo, propriamente prático, que os jovens podem aprender os fundamentos rituais da tradição de seus ancestrais e a vivência em sociedade, a partir da conformação e legitimação de sua história entre os seus membros através da manifestação cultural.
A partir disso, podemos enfatizar conforme Geertz, que o comportamento humano, neste caso, “é visto como uma ação simbólica” que vai atuar como referência para os membros de um determinado grupo ou comunidade, sendo que este “fluxo de comportamento”, transmitido através dos rituais festivos, por exemplo, repassa ensinamentos e fundamentos importantes de uma dada tradição que serão responsáveis pela articulação das formas culturais de uma sociedade. Neste sentido, a transmissão de rituais se dá pela interpretação dos significados de uma tradição, sendo seus fundamentos preservados na medida em que se conserva, mas também se renova, os significados de sua existência (GEERTZ, 2008, p. 96).
Pode-se dizer, desta forma, tal como Pessoa, que
A dimensão educativa da festa expressa-se, especialmente, numa ambigüidade que lhe é intrínseca: a festa visa marcar em cada membro do grupo social os seus valores, as suas normas, as suas tradições; ao mesmo
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tempo em que se transforma sempre num grande balcão, numa grande demonstração das inovações, das mudanças, das novas descobertas, das novas concepções e, porque não dizer, da fecundidade das transgressões. Festejar ou simplesmente festar, como dizemos num genuíno "goianês", é, antes de tudo, aprender o quanto temos de riqueza e de sabedoria a preservar e, ao mesmo tempo, o quanto temos a aprender com as transformações da história, com a lenta mudança das mentalidades. Quem vai à festa tem a possibilidade de aprender que o que se sabe ainda não é tudo para se continuar a viver e a reproduzir as condições de sobrevivência. Há que se abrir para o novo que cedo ou tarde acaba chegando e preenchendo nossos espaços vitais, até mesmo os de nossa habitação. Mas na festa também se pode aprender que o novo, por mais irremediável que seja, precisa ser integrado à herança que recebemos, que foi e, em muitos casos, ainda permanece sendo reconstituída, reproduzida e ensinada por abnegados artistas e sábios conservadores da cultura popular. A festa popular é o grande e fecundo momento a nos ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo. Sem o novo, paramos no tempo. Mas sem o velho nos apresentamos ao presente e ao futuro de mãos vazias (PESSOA, 2005, p. 39).
Assim, diante do exposto, torna-se importante indagar, primeiramente, qual o papel dos antigos portadores de cultura neste processo de manutenção das tradições. O debate acerca das mudanças geracionais perpassa esta questão, uma vez que se a continuidade se dá pela entrada de novos componentes, o seu aprendizado só é possível graças aos “velhos” que exercem o papel de educadores e incentivam a prática de rituais coletivos, o que os tornam, da mesma forma, responsáveis pela permanência das tradições festivas ao longo das gerações.
As populações rurais, neste contexto, são ainda as maiores responsáveis pela guarda destas relações geracionais de trocas e ensinamentos de tradições que contam e rememoram, em sua maioria, a história da comunidade, sendo que nelas predominam o conhecimento tradicional e a memória do passado. A este respeito, consideramos para este estudo a importância dos mestres das religiosidades populares no processo de continuação das tradições festivas, nas quais eles exercem o papel de transmissores dos conhecimentos populares e ensinam através de uma educação leiga os rituais que irão permitir a perpetuação das tradições coletivas (BRANDÃO, 2010).
Na cultura popular, o sistema de transmissão de tradições baseia-se, assim, segundo Brandão, no ensinamento prático dos rituais festivos, através da oralidade e do acompanhamento pessoal por parte dos discípulos com os seus mestres; “o mestre é um professor rústico”. De acordo com o autor, ele é o responsável pela qualidade do trabalho do grupo festivo, tendo recebido-o, na maioria das vezes, por herança de um pai ou outro parente
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consangüíneo; repassa um aprendizado pelo qual já vivenciou e perpetua às próximas gerações os ensinamentos que lhe foram passados. Trata-se de um “trabalho social de ensinar” que cria e recria redes de “trabalho coletivo e rotineiro” envolvendo a família, amigos e vizinhos, dentro de um sistema cíclico de ensino próprio em que o ofício da educação “é carregado do exercício ativo de fazer circular o conhecimento” (BRANDÃO, 2010, p. 47).
Esta forma de ensino diferencia-se, pois, da educação erudita, já que ao contrário desta, não é desenvolvida na escola, e sim por toda uma rede envolvida em uma trama social de trocas de sentidos e significados. Segundo Brandão, essa forma de educação popular relaciona-se a uma “autonomia relativa de lógica e de prática” religiosa, uma vez que estas manifestações coletivas do povo, como o congado, fazem e preservam “a moldura e as redes sociais de transmissão de seu próprio saber”. Para o autor, “são as regras do código social de trocas entre sujeitos subalternos as que definem as rotinas da produção e do acesso ao saber religioso (...)” (BRANDÃO, 1980, p. 296/297):
O saber da religião popular é uma memória preservada e recriada pelas redes sociais de trocas entre agentes e usuários, e é uma memória viva enquanto as unidades locais de sua reprodução preservam ativas as condições do trabalho coletivo dos especialistas do sagrado (BRANDÃO, 1980, p. 298).
De acordo com Giddens, “a tradição é impensável sem guardiões, pois esses têm acesso privilegiado à verdade e a verdade não pode ser demonstrada salvo na medida em que se manifesta nas interpretações e práticas dos guardiões”. Segundo o autor, as ações dos guardiões definem de fato o que são as tradições, pois eles são pessoas relacionadas ao sagrado e que, portanto, tem acesso à verdade formular. Os guardiões, por sua vez, são aqueles que possuem habilidades de ensinar “pela aprendizagem e pelo exemplo” e seus conhecimentos “são protegidos como arcanos e exotéricos” (GIDDENS, 1997, p. 100).
A importância dos guardiões de uma determinada tradição encontra-se também na capacidade que somente eles têm de interpretar a “verdade formular” que corresponde aos princípios formadores de uma tradição que dão a ela sentido e garantem a adesão de seus membros. Essa capacidade, conforme Giddens, é atribuição daquele detentor do conhecimento tradicional que, além disso, deve ter o desprendimento para transmitir os rituais aos membros mais novos, garantindo a perpetuação através das gerações (GIDDENS, 1997).
A verdade formular é uma atribuição da eficácia causal ao ritual. Os critérios de verdade são aplicados ao conhecimento provocados, não ao conteúdo
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proposicional dos enunciados. Os guardiões sejam eles idosos, curandeiros, mágicos ou funcionários religiosos, têm muita importância dentro da tradição porque se acredita que eles são os agentes, ou os mediadores essenciais, de seus poderes causais. Lidam com o mistério, mas suas habilidades de arcanos provêm mais de seu envolvimento com o poder causal da tradição que do seu domínio de qualquer segredo ou conhecimento esotérico (GIDDENS, 1997, p. 83).
Neste sentido, os componentes normativos de uma tradição, segundo Giddens, são interpretações realizadas pelos guardiões e na maioria das vezes eles encontram-se ocultos dentro dos rituais. A figura do guardião, dessa forma, alicerça, através do ensinamento tradicional, a própria tradição, sendo ela então alimentada por essa transmissão mediante a adesão afetiva de seus membros. Os guardiões das tradições que atingem este status em função da sabedoria adquirida ao longo do tempo “que cria habilidades e estados de graça”, transforma os guardiões da memória de uma comunidade, conforme Giddens, em repositórios da tradição.
A partir desta perspectiva, os guardiões da tradição, ou os velhos portadores de cultura, como diria Manheim (1983) possuem a responsabilidade de formar os novos portadores de cultura. Os antigos assumem um grande papel dentro dos rituais, pois são capazes de conduzir seus discípulos e ensiná-los no instante festivo não só os passos da tradição, mas a relevância de mantê-los vivos. A mudança geracional neste processo é de suma importância, uma vez que, conforme Mannheim, para que uma tradição se perpetue é necessária a constante transmissão dos bens culturais acumulados por uma determinada sociedade. Cabe às velhas gerações o desafio de transmitir às mais novas o conhecimento e a memória do grupo:
Una educación y una ensenãnza adecuadas (en el sentido de la completa transmisión de los ejes de la vivencia que son necesarios para el saber activo), puesto que la problemática vivencial de la juventud se plantea frente a un contrincante distinto al del maestro (MANNHEIM, 1993, p. 219). Com base nesta afirmação, consideramos que este processo de transmissão de tradições pode envolver conflitos, relacionados, segundo o autor, às orientações ou visões de mundo distintas de cada geração. As tradições na sociedade em que vivemos hoje buscam superar cada vez mais o desafio de sobreviver ao tempo e aos novos interesses da população. Entendemos, no entanto, conforme Mannheim, que as velhas e as novas gerações não formam uma dicotomia, mas se complementam umas as outras, pois se encontram em constante interação. O papel dos mais velhos encontra-se, desta forma, atrelado ao dos mais jovens que
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não somente absorvem o que está sendo aprendido, mas também ensinam, na contemporaneidade, aos “donos” de sua história que as tradições não são estáticas, pois se movem e incorporam novos elementos de forma a permanecerem.
Dito isso, este capítulo procurou articular as idéias de tradição e inovação na sociedade contemporânea buscando entender a importância da mudança geracional no processo de transmissão e sobrevivência das tradições culturais e o papel dos guardiões da memória tradicional neste processo. Assim, o próximo capitulo apresenta uma análise acerca da juventude e do papel que ela exerce na manutenção e na inovação de tradições herdadas pelos “antigos”. Apresentaremos também uma análise acerca dos estudos sobre juventude e o lugar ocupado pelas manifestações culturais nestes estudos, a fim de contribuirmos com as análises sobre o tema no trabalho com os jovens congadeiros de Estrela do Indaiá.
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