4. Discussion and Conclusion
4.4 Factors affecting local acceptance of emerging forestry governance
Luciano de Samósata é um dos responsáveis por preservar o relato da estranha doença que acometera os habitantes da cidade de Abdera. “Primeiramente todos vulgarmente adoeciam de febre forte, e contínua logo do primeiro dia”, diz o escritor sírio-helênico, ao que se somava, no sétimo dia, sangramentos no nariz e um forte suor, que diminuía aquela febre. O mais estranho, porém, é que os mesmos abderites passavam a sofrer de
um arreto ridículo [que] transtornava os entendimentos, porque delirantes todos, se provocavam a representar Tragédias, recitavam versos jâmbicos, e gritavam muito. Representavam principalmente com lágrimas a Andrômeda de Eurípides, e referiam em verso a prática de Perseu. Estava a Cidade cheia daqueles tragediógrafos feitos em sete dias, todos pálidos, e macilentos, e clamando a grandes vozes (...).1
Sabe-se que a afecção que tomara conta dos abderites, cuja obtusidade era proverbial,2 serve
a Luciano de analogia para o próprio tempo em que escreve, o século 2 d.C.:
Para comparar, pois, como dizem, uma coisa com outra, aquele delírio dos Abderites assaltou também agora a muitos dos eruditos não para representar Tragédias, (porque seria talvez este menor delírio, ocupando-se com os Jambos alheios, e não maus) mas desde que já por toda a parte estas coisas se moveram: a guerra contra os bárbaros, a rota na Armênia, e as vitórias contínuas, ninguém há que
não escreva História. Antes todos se nos fazem Tucídides, Heródoto e Xenofonte. E segundo parece,
é verdadeiro aquele dito: a guerra é pai de todos; porque de um só golpe produziu tantos Historiado- res.3
Ou seja, uma sociedade saturada de historiadores.
O quadro pintado satiricamente por Luciano poderia muito bem servir para ilustrar o contexto luso-brasílico de inícios do século XVIII. Pode-se muito bem pensar num historiador estreante tendo de considerar o número de livros de história em contínua publicação, tradução ou reedição; os diversos gêneros nos quais poderia escrever sua história e nos mais variados assuntos que ela poderia abordar; a existência de uma agremiação como a Academia Real da História, que pela via do enobrecimento buscava monopolizar o prestígio associado a uma forma de escritura que, como vimos, já frequentava os salões da Corte lusitana; as demandas de um público que poderia fazê-lo ser lido mas que dificilmente lhe asseguraria sua sobrevivência material; o desenrolar da própria história que fazia não apenas as simpatias políticas passarem de um lado a outro mas também que os eventos se perdessem no
1 LUCIANO, Arte Historica de Luciano Samosateno; Traduzida do Grego em duas versões Portuguesas
pelos Reverendos Padres Fr. Jacinto de S. Miguel. Cronista da Congregação de S. Jerônimo, e Fr. Manoel de Santo Antônio, Monge da mesma Congregação em Portugal. Dadas à luz pelo P. José Henriques de Figueiredo, in João Kennedy EUGENIO, Ficção e história – Encontros com Luciano. Teresina: EdUFPI, 2010, pp. 205-206 (transcrição de Eduardo Sinkevisque); grifo meu.
2 Segundo Jacyntho Lins Brandão, a reputação dos abderitas era corrente já no século IV a.C., sendo que
a expressão “à maneira dos abderites” designaria “um modo tolo ou louco de conduzir-se”. Essa tradição faria fortuna posteriormente, tendo sido apropriada por Erasmo, Bayle e Kant, entre outros, LUCIANO, Como se deve escrever, op. cit., pp. 87-88, nota 5.
caleidoscópio das versões; o avanço dos critérios de prova e exame de documentos e autores, que colocavam novas pressões para a escrita da história; o julgamento dos demais escritores de histórias, muitas vezes concorrentes; a dispersão dos arquivos e a desorganização da maior parte das bibliotecas; tudo, enfim, indicava que a vida dos escritores de histórias não transcorria com a calma com a qual frequentemente se imagina o passado. Não estranha, portanto, que muitos tomassem a opção segura e reproduzissem, como os historiadores de Luciano, os encômio e relatos que agradassem a seus contemporâneos; todavia também muitos desses podiam deixar de lado sua pena e, imitando Luciano, que copia, por sua vez, Diógenes, rolar seu tonel, encontrando tempo tanto para escrever quanto para julgar, criticar e debater a prática da historiografia.
Os fatores listados acima ajudam a compreender as dificuldades associadas à escrita da história em inícios do Setecentos. A situação assim configurada impõe ao historiador e a cada obra historiográfica uma série de escolhas no momento de sua realização. Tendo isso em vista, o objetivo do presente capítulo é estudar algumas das escolhas que foram tomadas pelos membros da Academia Brasílica dos Esquecidos no momento de composição de suas dissertações históricas. Ao longo das páginas seguintes, argumentarei que essas opções são condicionadas por três elementos: o autor de histórias e as maneiras através das quais ele concebe sua tarefa; o público leitor de histórias e como este compreende sua relação com as diversas formas da historiografia e, por conseguinte, como ele figura a ocupação daquele que as pratica; por fim, a relação entre uma tradição historiográfica que, em inícios do Setecentos, é já duplamente milenar, e as pressões trazidas pelos avanços da erudição, que buscam emular aquela tradição, simultaneamente apoiando-se em seu prestígio e procurando suplantá-la.4
Busca-se, com isso, um melhor enquadramento para alguns dos problemas enfrentados pelos acadêmicos Esquecidos, assim como dos debates em curso em suas reuniões e dissertações. Para dar cabo desta proposta, é preciso primeiro compreender de que maneira o apelo à erudição era entendido pelos historiadores da época. Costuma-se perceber os processos em curso na passagem do Seiscentos até meados do Setecentos como o lento mas progressivo triunfo da erudição historiográfica sobre sua contraparte narrativa e/ou retórica. Através de exemplos tanto reinóis quanto brasílicos, procurarei questionar, num primeiro momento, a oposição entre esses dois modelos historiográficos e, num segundo momento, a narrativa que vê no advento da erudição uma consolidação do ofício de historiador. A aposta deste estudo é que, quando trabalhadas de modo proveitoso, como aspectos complementares e
4 Como procurarei trabalhar ao longo do capítulo, este jogo de espelhos entre leitor, autor e as tradições que
os fundamentam tem por objetivo procurar uma visão mais complexa e completa dos debates historiográficos da época, sem que estes necessariamente se centrem sobre a composição do texto histórico e seus preceitos ou, mais importante ainda, na evolução do método, perspectiva que deu origem a uma importante e influente área de estudos. Com isso, pode-se enquadrar o desenvolvimento da historiografia no pano de fundo da emergência de uma cultura para a qual a história tem um importante papel, quando não preponderante, cf. Daniel R. WOOLF, “From Hystories to the Historical: Five Transitions in Thinking about the Past, 1500- 1700”, in Paulina KEWES, The Uses of History in Early Modern England. San Marino, Cal.: Huntington Library and Art Gallery, 2005, pp. 33-70.
não contraditórios, as noções de uma historiografia apoiada na retórica5 e, outra, associada
à erudição tornarão possível fazer emergir toda a pluralidade de uma prática historiográfica que, considerada em seus objetos, nunca conseguiu realizar completamente a oposição na qual os dois modelos – conceitualmente – se fundam. Trata-se, além disso, de desnaturalizar o papel da erudição na narrativa de formação da historiografia.
Uma terceira seção deste capítulo será dedicada ao detalhamento dos contornos de semelhante debate na Academia dos Esquecidos. A ausência de uma preceptiva específica para o gênero dissertativo assim como a ambiguidade dos usos da forma e dos conteúdos trabalhados pelos Esquecidos tornarão mais claro o caráter relacional dos dois modelos historiográficos elencados acima. A hipótese a ser testada é que, à sua maneira particular, as dissertações históricas dos Esquecidos situam-se no intervalo entre as propostas retórica e erudita apresentadas à historiografia e que, na tentativa de realizar – de novo, à sua maneira – ambas, justificam-se os aspectos contraditórios ressaltados pela recepção destas singulares peças historiográficas. Não se trata, entretanto, de mera síntese das duas perspectivas, mas sim de perceber como, a partir do repertório oferecido pela reflexão história que lhes é disponível, os Esquecidos tentam fazer frente aos problemas que surgem em seu tempo, seja explicitando-os em suas dissertações, seja tornando-os invisíveis. Esse duplo uso da tradição historiográfica será tema da quarta e última seção deste capítulo, quando explorarmos a ambiguidade presente – entre método e composição, entre escrita e leitura – na expressão frequentemente utilizada, mas nem sempre explicitadas, das leis da história.
Deleitar e instruir
Segundo Isabel Ferreira da Mota, a primeira metade do século XVIII representa um momento de grande ampliação do público leitor de histórias em Portugal: não por acaso, num breve intervalo de tempo surgem tanto a Academia Real da História Portuguesa, em 1721, quanto a Gazeta de Lisboa, cujas encadernações, que começam a circular em 1715, trazem o título de Historia Annual, Chronologia, e Politica do Mundo, e especialmente da Europa.6 Esses
5 Trata-se, é claro, de uma redução analítica do conceito de retórica, que aqui é associada quase que
exclusivamente ao campo das regras para a composição do discurso e ao uso de determinados topoi. Não é objetivo principal deste capítulo desfazer esse mal-entendido sobre o qual se funda a quase sinonímia indicada pelo uso da expressão historiografia retórica ou literária, quando não política, mas sim inverter sua valoração e indicar que a historiografia que tem na composição, no texto, possui tanta importância, quando não maior, que aquela baseada na pesquisa e na comprovação documentais. Para uma reavaliação do que se entende por comprovação de modo a poder incluir também nela a retórica, ver o próximo capítulo. É preciso conceder, todavia, a existência de algumas aproximações entre a retórica e a história da erudição, ver Anthony GRAFTON, “Renaissance Readers and Ancient Texts”, in Defenders of the Text – The Traditions of Scholarship in an Age of Science, 1450-1800. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1991, pp. 23-46.
6 MOTA, A Academia Real da Historia, op.cit., pp. 127-130. Para a historiadora portuguesa, o surgimento
do público-leitor é concomitante ao aparecimento do campo historiográfico e, na verdade, é uma função deste. Já vimos no primeiro capítulo desta dissertação que a noção de espaço público que utilizo é bastante diferente daquela da qual se vale a autora portuguesa; por conseguinte, também a noção de público-leitor deve sê-lo. Parece-me que a intenção de Mota é ligar a ascensão de um novo público-leitor a uma esfera
indícios fazem-se acompanhar pela percepção de que o incremento deste mesmo público é seguido por um relativo alargamento das práticas e do próprio conceito de história, que em termos textuais passa a englobar não só as gazetas – uma espécie de história do tempo presente, próximas ao jornalismo – mas também várias formas de representação do passado que prescindem da narrativa – como as memórias históricas – até ao limite do gênero que mimetiza as pretensões de ambas estas categorias, os romances, então chamados novelas. A disputa em torno à prática do historiador ocorre, portanto, sob o pano de fundo de uma grande diversidade no interior da própria noção de história – ao menos na história compreendida enquanto gênero de composição literária.
Essa pluralidade não significa apenas coexistência, mas sim um contexto de intensos debates entre os praticantes de um ou outro gênero (quando não praticantes de dois ou mais), todos eles englobados sob a fachada de uma escrita da história ou, mais simplesmente, historiografia. A visualização deste horizonte de problemas indica a necessidade de se discutir a composição textual da historiografia como parte da prática historiográfica – e, porque não, como parte do método histórico? – em inícios do Setecentos, e não necessariamente como um resquício ou algo que se quer deixar para trás. Para isso, é preciso desfazer alguns preconceitos a respeito do papel da retórica e da narrativa para a historiografia da primeira modernidade.
É comum considerar as formas tradicionais da historiografia anteriores à emergência das preocupações eruditas apenas como uma espécie de panegírico, uma “inscrição dos altos feitos que imortalizam a glória do príncipe”.7 De fato, a Retórica aristotélica distingue três
tipos de discurso, de acordo com os interesses dos ouvintes. O primeiro, o deliberativo, trata de uma decisão a ser tomada a respeito de um acontecimento futuro; o segundo, o judiciário, determina a respeito de um evento passado; o terceiro, o demonstrativo, também conhecido como epidíctico, trata do valor de uma ação presente, realizando o elogio ou a condenação de um acontecimento ou de uma personagem.8 Na teorização literária helenística e romana,
ainda que se expanda e se modifique o esquema genérico de Aristóteles, a história permanece enquadrada no interior do discurso demonstrativo, já que realizava justamente o encômio ou o vitupério dos homens para um público no presente, visando a instrução moral.
pública renovada, em consonância com os estudos de matriz francesa que ligam a modificação no mercado do livro ao longo do Setecentos com as modificações nos hábitos de leitura. Se isso é assim, a existência de um organismo que procura – como a própria autora reconhece – controlar a circulação, a produção e a recepção de obras históricas como a Academia Real só pode se chocar com esses aspectos inovadores que seriam relacionados aos livros de histórias ligados ao público alargado da época. Parece-me que falta, para o conceito trazido pela autora ganhar toda sua força, a ligação do público com a (estrutura de) recepção, através da qual o público é simultaneamente mais e menos autônomo do que quer conceder; em outras palavras, falta conectar o estudo do público ao estudo da historiografia, ainda mais tendo em vista a ligação entre público e destinatário que apontei no primeiro capítulo. Para um problema similar, ver KAGAN, Clio and the Crown, op. cit, pp. 201-250.
7 BARRET-KRIEGEL, “Jean Mabillon et la science de l’histoire”, in MABILLON, Brèves reflexions sur
quelques règles de l’histoire, op. cit., p. 45.
Esse pertencimento da história ao gênero demonstrativo, responsável por sua funcionalidade, a instrução moral, é muitas vezes interpretado como se a narrativa histórica fosse apenas outra forma de louvor, algumas delas estudadas no último capítulo.9 A
contrapartida deste movimento teórico é considerar que a a progressiva transformação da historiografia numa atividade do conhecimento – uma ciência, por assim dizer – demandaria um distanciamento da retórica e a constatação do fato de que o “historiador se torna cada vez menos preocupado com a forma literária”.10 Parece claro a este estudo, como demonstrarei
mais adiante, que para os sujeitos dos séculos XVII e XVIII era possível aprender algo com a historiografia dita retórica, ainda que não fosse o conhecimento factual do passado que se pretende conceder atualmente.
A redução da narrativa historiográfica a lugares-comuns retóricos é acompanhada, frequentemente, por sua progressiva desqualificação conforme a história passa a representar o papel de ciência. Todavia a historiografia moderna, aceita-se, é tanto uma atividade do conhecimento quanto uma espécie de relato que não pode prescindir, em determinados momentos, da narração.11 A solução encontrada – e muitas vezes correta – foi ver a evolução
da historiografia sendo feita por dois caminhos distintos, o dos eruditos, antiquários e jurisconsultos de um lado, e o do historiador, do outro. A consequência é que a narrativa de seu desenvolvimento é construída de modo que o historiador – isto é, o escritor de histórias – é progressivamente despossuído de sua prática, assumindo papel secundário, quando não desnecessário, já que ele não consegue acompanhar os avanços de seus colegas eruditos.12
O telos dessa narrativa se torna a descoberta das maneiras pelas quais a história conseguiu
9 Algo que mesmo Carlo Ginzburg, tentando salvar uma retórica baseada no uso da prova, faz ao propor que
o uso da argumentação na história a colocaria ao lado do gênero judiciário e não do demonstrativo, cf. Carlo GINZBURG, “Sobre Aristóteles e a história, mais uma vez”, in Relações de força. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 47-63.
Acerca da leitura de Carlo Ginzburg da Retórica, ver o interessante trabalho de Carlos Eduardo de Almeida OGAWA, História, retórica, poética, prova: a leitura de Carlo Ginzburg da Retórica de Aristóteles. São Paulo: FFLCH/USP, 2010, dissertação de mestrado.
10 Phyllis K. LEFFLER, “The ‘Histoire Raisonnée”, 1660-1720: A Pre-Enlightenment Genre”, in Journal
of the History of Ideas, vol. 37, n° 2, Apr.-Jun. 1976, p. 221. O mesmo ponto é feito em Gianna POMATA; Nancy G. SIRAISI, Historia: empiricism and erudition in early modern Europe. Cambridge, Mass.: The MIT Press, 2005, pp. 3-4.
11 MOMIGLIANO, “Gibbon’s Contribution...”, op. cit.
12 Como afirma um primeiro J.G.A. Pocock – autor, todavia, de grande coerência ao longo de sua carreira
–, “é um dos grandes fatos sobre a história da historiografia que as técnicas críticas desenvolvidas durante os séculos XVII e XVIII foram apenas lenta e muito tardiamente combinadas com a escrita da história como uma forma de narrativa literária; que havia um grande divórcio entre os eruditos [scholars] e os antiquários, de um lado, e os historiadores literários, de outro; que a história como uma forma literária persistiu serenamente em seu caminho, nem se dando conta das técnicas críticas desenvolvidas por eruditos [scholars] nem desenvolvendo técnicas similares por conta própria, até que houve uma espécie de revolta pirronista, um movimento generalizado de ceticismo a respeito de se a história [story] do passado podia ser contada de maneira confiável”, de modo que se os historiadores da historiografia tivessem prestado atenção a isso, a “intensidade de seu desespero pirronista talvez tivesse sido menor”, J.G.A. POCOCK, The Ancient
Constitution and the Feudal Law - A Study of English Historical Thought in the Seventeenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1987, pp. 6-7. Originalmente publicado em 1957, pode-se dizer que, desde então, essa perspectiva se tornou canônica.
incluir os instrumentos da erudição. Essa visão proporciona muitos ganhos ao entendimento da historiografia da Idade Moderna – e dela nos valeremos sempre que for preciso – porém ela acaba por simplificar o problema ao deixar de lados as questões relacionadas aos gêneros historiográficos e à escrita da história. Pode-se perguntar, assim, porque não inverter a perspectiva e perceber que era a erudição que encontrava dificuldade em se aproximar da história, gênero muito mais prestigioso? Caso aceitemos isso, outro quadro se descortinará ao entendimento dos problemas aqui tratados – e é justamente a respeito dessa dificuldade que surgiam a maior parte dos problemas enfrentados pelos Esquecidos.
Segundo Mark Salber Phillips, o que diferencia a história das demais práticas literárias coêvas foi a amplitude de sua reconceitualização, levada a cabo ao final do século XVIII, pois para nenhuma outra “literatura de descrição social (...) o problema formal da narrativa era tão significativo para a contínua identidade do próprio gênero”.13 Na passagem do século
XVIII para o século XIX, portanto, teria emergido uma tensão especialmente aguda entre o que o autor denomina pretensões mimética e instrutiva do discurso historiográfico.14 De
um lado, conforme as histórias buscavam a mímese (aqui entendida como representação) do passado, acabavam por se concentrar na concretude dos eventos; levado ao extremo, isso podia significar o abandono da própria narrativa, tal como exemplificado pelas enciclopédias, dicionários biográficos, entre outros. De outro lado, os impulsos didáticos também podiam ferir o primado da narativa, como quando a obra historiográfica trazia em anexo dissertações ou outros apêndices. A distinção entre as categorias elaboradas pelo autor, que ecoa aquela entre uma história dita retórica e outra, qualificada como erudita, na verdade não ressalta tanto a adversidade quanto a complementariedade entre as duas intenções do discurso histórico. Nas palavras do autor, portanto,
A heurística que delineei pode ser útil de duas maneiras. Primeiro, ao destacar a tensão entre dos
foci da prática historiográfica, o esquema nos ajuda a dar conta do alcance e da variedade de escritas