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O epistemólogo suíço Jean William Fritz Piaget, conhecido como Jean Piaget, fundou a Epistemologia Genética, tomando como base o estudo sobre a gênese do funcionamento do pensamento humano. Sua teoria é também conhecida como uma

abordagem centrada no cognitivismo construtivista. Para saber como se dá a aquisição de linguagem pela criança, Piaget explica a evolução cognitiva, isto é, o desenvolvimento de sua inteligência.

Para Piaget (1979), o conhecimento ocorre por construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas que substituem as antigas. O sujeito, ao nascer, receberia como herança uma série de estruturas sensoriais e neurológicas que predispõem o aparecimento de estruturas mentais. A evolução cognitiva é afetada por quatro fatores: a experiência de mundo, a maturação neurológica, o meio social e o equilíbrio. Piaget define equilíbrio como sendo uma função biológica capaz de responder por processos de compensação aos desequilíbrios provocados pelo meio, sendo o mecanismo responsável pela evolução do desenvolvimento cognitivo. O meio social é o lugar em que a inteligência é construída, no processo de interação entre o homem e meio ambiente.

A inteligência é uma forma de adaptação, sendo que a ação é o modo de interação do sujeito com o meio, de modo que uma conduta cognitiva é uma ação, cuja função é a adaptação do sujeito ao seu meio, pela interação. A assimilação se caracteriza pela tentativa do sujeito em solucionar uma determinada situação a partir da estrutura cognitiva (esquemas previamente estruturados), que ele possui naquele momento específico da sua existência, com o objetivo de restabelecer o equilíbrio do organismo. A acomodação diz respeito à capacidade de modificação da estrutura mental antiga para dominar um novo objeto do conhecimento.

O desenvolvimento cognitivo, ou da inteligência, passa por quatro estágios, no processo evolutivo do pensamento humano. São eles: a) sensório-motor, b) pré- operatório, c) operações concretas e d) operações formais. Estes estágios são

caracterizados por diferentes formas de organização mental. O início e o termino de cada um deles varia de acordo com a estimulação do meio e com as condições genéticas de cada indivíduo.

O período sensório-motor (0 a 2 anos) tem início no universo caótico em que a criança nasce, habitado por objetos que desaparecem do seu campo de visão. As funções mentais limitam-se ao exercício dos aparelhos reflexos inatos, o meio é conquistado mediante a percepção e os movimentos (como a sucção, o movimento dos olhos), uma vez que o seu contato com o meio é direto, sem representação ou pensamento. O bebê constrói esquemas de ação para assimilar o meio e, gradualmente, vai aperfeiçoando os movimentos reflexos, adquirindo habilidades e se separando do objeto.

O período pré-operatório (2 aos 7 anos) se caracteriza justamente pela emergência da linguagem, marcando que a inteligência é anterior à emergência da linguagem, uma vez que o trabalho de reorganização da ação cognitiva não é dado pela linguagem. Contudo, a aquisição de linguagem contribui para mudanças nos aspectos cognitivos, afetivos e sociais da criança, pela sua capacidade de trabalhar com representações e atribuir significado à realidade. Desse modo, a linguagem, para Piaget, é um sistema simbólico de representações, que aparece na criança por volta dos 18 meses. Haveria três processos importantes para o desenvolvimento de uma função simbólica na criança, quando esta passa a representar um objeto por meio de um significante. Estes processos são: descentralização das ações em relação ao próprio corpo (eu e outro), quando o sujeito começa a se conhecer como fonte de seus movimentos; coordenação gradual das ações quando elas passam a se constituir como uma relação entre meios e fins; e o processo de permanência de objeto, quando um objeto que não está presente na realidade perceptual da criança permanece o mesmo e

igual a si próprio, ou seja, quando o objeto passa a ser representado em sua ausência, quando, por exemplo, a criança faz de conta que uma caixa é um carrinho (Scarpa, 2001). Outra característica deste período é o egocentrismo, que se caracteriza pelo fato de a criança não conceber uma realidade da qual não faça parte. A criança não consegue se colocar no lugar do outro e não aceita o acaso, de modo que tudo deve ter uma explicação; apesar de sua capacidade de atuar de forma lógica e coerente, ocorre um entendimento da realidade desequilibrado em função da ausência de esquemas conceituais.

O período das operações concretas (7 aos 12 anos) se configura pelo egocentrismo intelectual e social. A criança passa a estabelecer relações e a coordenar diferentes pontos de vista e os integra de modo lógico e coerente. Consegue interiorizar ações e as realiza mentalmente, desde que se refiram a objetos ou situações passíveis de serem manipuladas ou imaginadas de forma concreta, isto é, ocorre a reversibilidade do pensamento.

O período das operações formais (12 anos em diante) caracteriza-se pelo mecanismo de raciocinar sobre hipóteses, na medida em que a criança consegue formar esquemas conceituais abstratos e, através deles, executar operações mentais dentro da lógica formal, sem depender da observação da realidade. Isso quer dizer que a criança adquire sua forma final de equilíbrio, atingindo um padrão intelectual que conduzirá seu modo de raciocínio na vida adulta. Seu desenvolvimento posterior consistirá apenas em ampliar seus conhecimentos.

Podemos verificar que, no modelo piagetiano, a aquisição da linguagem pela criança está condicionada à experiência de mundo, à maturação neurológica, ao meio e ao equilíbrio dos esquemas, sendo a linguagem definida como um sistema simbólico de

representações, adquirido após a superação da estrutura reflexa e maturacional. O meio é fonte de conflito e desequilíbrio e o pensamento seria responsável pelo reequilíbrio. A linguagem está em uma estrutura que precisa de uma organização biológica prévia não submetida a ordem simbólica. É uma estrutura estática, temporalmente ligada a noção de conservação e reversibilidade entre progresso e evolução e não leva em consideração o tempo da irreversibilidade. A tradição piagetiana é dominante nas práticas terapêuticas fonoaudiológicas. O papel do fonoaudiólogo, segundo esta perspectiva, seria o de promover conflitos, no meio, para que a criança possa reequilibrar o seu funcionamento. Em termos de hipóteses etiológicas, podemos extrair as noções de fixação, retenção, atraso, apressamentos, bloqueios ou regressão, no interior do processo de desenvolvimento da linguagem.