O linguísta suíço Ferdinand de Saussure ministrou o Curso de Linguística Geral, entre 1906 e 1911, na Universidade de Genebra, e suas aulas são consideradas como marco do nascimento da Linguística, enquanto ciência. O retorno a Saussure nos servirá para extrair alguns conceitos sobre a estrutura da linguagem e como poderíamos realizar uma forma de leitura sobre a formação dos sintomas de linguagem na relação com a clínica fonoaudiológica. O autor afirma que é impossível constituir um campo de saber homogêneo sobre a linguagem em sua totalidade, dada à heterogeneidade de seus constituintes. Saussure define a linguagem como a divisão de dois polos, a língua (langue) e a fala (parole), concedendo à língua [para aquela época e para o autor], o privilégio de ocupar o centro de interesse da Linguística.
A língua (langue) é um tesouro depositado pela prática da fala, definida segundo sua característica de pertencer ao código coletivo, “a língua existe na coletividade sob a forma de sinais que são impressos nos indivíduos tal como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos”(Saussure, 2006, p. 27). A língua, portanto, consiste em um padrão coletivo recebido de fora. Nas palavras do autor: “trata-se, pois, de algo que está em cada um deles, embora seja comum a todos e independa da vontade dos depositários” (Saussure, 2006, p. 27). Já a fala (parole) é representada como o que há de individual e singular na linguagem, ou seja, está sob o efeito das associações realizadas pelo sujeito e sob o efeito vocálico (voz, timbre,
entonação) do que é dito ou não dito (silêncio). A fala é um mecanismo com dupla função, que opera sobre: a) as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua, com o propósito de exprimir seu pensamento pessoal e subjetivo; e b) o caráter psicofísico, que lhe permite exteriorizar essas combinações(Saussure, 2006, p. 27).
O signo é a menor unidade da língua, é uma entidade psíquica formada por duas faces: conceito e imagem acústica, elas estão unidas e uma demanda a outra:
Figura 8. O Signo Linguístico: Conceito e Imagem Acústica (Saussure, 2006, p. 80).
Saussure substitui o conceito pelo termo significado e imagem acústica por significante, pelo fato de que estes termos assinalam a oposição, que os separa, quer entre si, quer do total de que fazem parte (Saussure, 2006, p. 81). A face significante do signo caracteriza-se por sua natureza fonêmica, de se opor e se distinguir dos outros fonemas, tendo a característica mais exata de ser aquilo que os outros não são. O fonema é a menor unidade da língua, sem sentido, que se constitui por um pequeno número de propriedades acústico-articulatórias, que não se definem pela totalidade do som, mas por suas relações no sistema de combinação e substituição dos significantes. As oposições significativas mínimas seriam os monemas. O laço que une conceito e imagem acústica ou significante e significado, é arbitrário, não haveria nada em comum entre o conceito e o conjunto de sons que constitui o significante, é um sistema de equivalência entre coisas de ordens diferentes – significante e significado. Apesar de o
signo ser o resultante das duas faces, no uso da língua a imagem acústica por si só designa o signo:
Figura 9. O Signo Linguístico e a Impressão Significante (Saussure, 2006, p. 81).
O significante é linear, pois sua sucessão segue o princípio da imutabilidade, em que um significante impõe a escolha do significante seguinte, por mudança ou continuidade, dependendo de sua posição dentro do sistema.
O signo linguístico apresenta, ainda, caráter de fixidez, no que diz respeito ao movimento da língua, no tempo – sincrônico e diacrônico – que supõe o que pode emergir pela ausência do termo empregado. As leis sincrônicas se ocupam “das relações lógicas e psicológicas que unem os termos coexistentes” (Saussure, 2006, p. 116), e o autor as define como “fatores constituintes de todo estado de língua” (Saussure, 2006, p. 117). Tal estado de língua deve ser concebido como um “espaço de tempo”, de maneira que o tempo de transformação sincrônico se dá pelas combinações sucessivas, por outro lado, a diacronia, diz das relações entre “termos sucessivos que se substituem uns aos outros” (Saussure, 2006, p. 163).
Por fim, a língua “é um sistema de valores puros que nada determina fora do estado momentâneo dos seus termos”(Saussure, 2006, p. 95). Os valores correspondem negativamente por suas relações com outros termos do sistema. Sua característica mais exata é a de ser o que os outros não são. Um sistema de valor está fundamentado, do
ponto de vista saussuriano, na diferença. A diferença implica considerar as entidades negativas, relativas e opositivas. Ou seja, os valores correspondem negativamente por suas relações com outros termos do sistema. Para mostrar que a língua é um sistema de valores, Saussure parte da análise de dois de seus aspectos básicos, as ideias e os sons. O que mais conta em um signo são os outros signos que o rodeiam, mais do que uma ideia ou um som a ele associado, pois “o papel característico da língua frente ao pensamento não é criar um meio fônico material para a expressão de ideias, mas servir de intermediário entre o pensamento e o som” (Saussure, 2006, p. 131):
Figura 10. Associação da massa amorfa do pensamento à massa amorfa fônica (Saussure, 2006, p. 131).
O princípio da diferença é central para o sistema da língua e Saussure define duas diferenças ou relações fundamentais para a “vida da língua” (Saussure, 2006, p. 142) e para a “existência de um valor” (Saussure, 2006, p. 134): uma, chamada “relações sintagmáticas”, ou seja, dizem respeito ao encadeamento de um elemento após o outro na cadeia da língua em que “um termo só adquire seu valor porque se opõe ao que o precede ou ao que o segue, ou a ambos” (Saussure, 2006, p.142) e a outra, entendida como “relações associativas” as que “fazem parte desse tesouro interior que constitui a língua de cada um” (Saussure, 2006, p.143). Esse sistema de valores opera sob duas condições, pondo em cena que o sistema lógico da linguagem tem a
propriedade de seus valores poderem, simultaneamente, entrar em relação com coisas dessemelhantes e semelhantes:
1ª – a de dessemelhança, em que uma coisa é suscetível de ser trocada por outra, cujo valor está por ser determinado (por exemplo: dinheiro para comprar pão). Os fonemas seriam equivalentes ao papel e à tinta com que são feitas as notas de dinheiro. O valor atribuído às notas, por sua vez, seria comparável ao significado dos signos linguísticos(Rodrigues, 2008).
2ª – a de semelhança, em que uma coisa pode ser comparada com aquela cujo valor está em causa (R$ 3,00 reais para US$ 1,00 dólar).
Essas duas condições implicam no caráter de identidade e diferença que há entre os signos. Por exemplo, ao dizer “o trem das 11:00 horas”, acreditamos que seja o mesmo trem e o mesmo horário, mas o vagão, as pessoas, os dias, o horário em que o trem chega são diferentes. Outro exemplo, dado por Saussure, para explicar que o funcionamento da língua é um sistema de valores, é compará-lo a um jogo de xadrez: a peça do cavalo pode ser substituída por qualquer coisa, por exemplo, um grão de feijão, sob a condição de que ele exerça a função do cavalo, isto é, com a atribuição do mesmo valor, mas sem qualquer semelhança com o objeto substituído.
Portanto, para finalizarmos, podemos dizer que a língua no sentido saussuriano é uma estrutura formada por dois elementos, o significante e o significado, os quais operam no interior de um sistema de leis e regras segundo a combinação e a substituição dos termos. Esse sistema funciona por oposição, negação e diferença, sendo somente possível extrair uma significação pelo valor dos termos que o sucedem ou precedem.
Uma primeira extração que podemos realizar, a título de hipótese, da linguagem do ponto de vista saussuriano na relação com o sujeito falante, é que poderia haver sintomas de linguagem formados especificamente no campo da língua e sintomas que poderiam ser formados na dimensão da fala. Vimos que o signo é marcado pelas relações de negação, diferença e oposição, desse modo, uma leitura do sintoma de linguagem, no eixo da língua, poderia ser traduzido como efeito do sujeito que se submeteu ao uso de uma língua, que escapa às leis de combinação e substituição que a língua impõe. Há outro tipo de imposição da negação, oposição e diferença em jogo, na dimensão do excesso ou da falta, da antecipação ou do atraso, de modo que, o falante nega o significante ou sujeito; a continuidade ou descontinuidade; o significante ou significado; o sentido ou não sentido; a ideia ou som; a semelhança ou dessemelhança. Analisaremos, a seguir, como Jakobson categoriza o sintoma de linguagem na Afasia, segundo os constituintes saussurianos.