Terminadas as comemorações do Centenário, surgiu uma proposta de ocupação do Parque Ibirapuera por serviços burocráticos. Prestes Maia, engenheiro civil que já havia considerado o Ibirapuera em seu “Plano de Avenidas” (1930)291 e que estava envolvido com política na época,
dizia não ter o que se fazer com o Parque, atitude que foi denominada de “profecia negra” pela mídia, reduzindo, portanto, o Ibirapuera a um quartel, depósito ou garagem de serviços de transportes públicos. Em 1956, a sede da Prefeitura Municipal de São Paulo ocupou o Palácio das
289 Revista Acrópole, no. 273, p. 310.
290 PEREIRA, Raquel Machado Marques e ZEIN, Ruth Verde. A Monumentalidade e sua implantação urbana: Assembleia
Legislativa do Estado de São Paulo e Parlamento Escocês. In: 9˚ Seminário Docomomo Brasil. Interdisciplinaridade e experiências em documentação e preservação do patrimônio recente. Brasília, junho de 2011. Disponível em: <http://www.docomomo.org.br/seminario%209%20pdfs/074_M13_RM-AMonumentalidadeESuaImplantacao-
ART_raquel_pereira.pdf. Acesso em: 08/05/2015>. Acesso em: 08/05/2015.
291 No Plano de Avenidas de 1930, plano de estruturação viária composto de avenidas radiais, perimetrais e
diagonais, o Ibirapuera foi apresentado como um parque monumental, articulado ao sistema viário da cidade e situado em um sistema de espaços livres cujas principais funções eram a higienização da cidade, pois áreas livres possibilitariam maior ventilação e também a prática esportiva ao ar livre, assim como seu embelezamento.
Nações, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) ocupou o Palácio da Agricultura e a Empresa Processamento de Dados do Município (Prodam) ocupou o Palácio dos Estados.
A sociedade civil se opôs a essa destinação de partes do complexo do Ibirapuera, acreditando que o Parque deveria se prestar a um programa de lazer à população da cidade, com seus gramados e “magníficos pavilhões (...) que bem definiam as possibilidades da arquitetura moderna nacional.”292 Contra a instalação de órgãos burocráticos no Parque, foi convocada uma
convenção de intelectuais e artistas em defesa do Ibirapuera, pois a sua utilização para repartições “acarretaria a mutilação de um conjunto arquitetônico planejado exatamente para servir, após os festejos do IV Centenário, a um centro cultural como o que foi sugerido aos poderes estaduais.”293
A “mutilação” do Ibirapuera, porém, não se deveu somente à apropriação dos edifícios pelas repartições públicas. Nos anos subsequentes às comemorações do Centenário, o Parque Ibirapuera, com seu conjunto de edifícios, gramados e lagos, ficou em mau estado de conservação. Isso ficou evidente por meio da análise de reportagens com imagens fotográficas que eram veiculadas principalmente nos jornais. Nas revistas especializadas, o assunto não mereceu maior destaque, pois não havia construções novas sendo incorporadas ao complexo do Ibirapuera nesse período e, sem construções novas para comentar, a função dessas imagens nas revistas de arquitetura era significativamente diminuída.
Estado de S. Paulo, 25 de setembro, autoria não creditada, p. 34
O Estado de S. Paulo, 29 de setembro de 1957, autoria não creditada, p. 25294
292 O Estado de S. Paulo, 07 de outubro de 1958, p.18. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19581007-
25593-nac-0018-999-18-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
293 O Estado de S. Paulo, 03 de janeiro de 1956, p.9. <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19560103-24744-
nac-0009-999-9-not/busca/festejos+IV+Centenário>. Acesso em: 21/05/2014.
294 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19570925-25276-nac-0034-999-34-not/busca/Ibirapuera>
As fotografias acima reproduzidas retratam o Palácio das Nações, onde ocorreu a IV Bienal de São Paulo, inundado por águas de chuva, que escorriam por goteiras devido à presença de rachaduras nas paredes e nas lajes superiores. Segundo o jornal O Estado de S.
Paulo, a situação já precária do edifício foi agravada naquele ano durante os festejos do dia
Nove de Julho, quando a Prefeitura instalou, sobre o Palácio das Nações, estruturas para a apresentação de um espetáculo pirotécnico. As fortes explosões enfraqueceram a cobertura do edifício, alargando as frestas pelas quais a água penetrava.
As imagens do edifício alagado com poças d’água provocam forte impacto. As fotografias que, por estarem numa página de jornal, deveriam ter função principalmente informativa, impressionam pela modernidade no tratamento do assunto, principalmente devido ao caráter geométrico e ao forte contraste estabelecido pelo jogo de luz e sombras. A silhueta do homem que aparece ao fundo da primeira imagem indica que a fotografia tenha sido tirada em contraluz. Segundo Helouise Costa,
se a iluminação é, em geral, utilizada para dar harmonia à cena fotografada, garantindo-lhe veracidade, no caso do contraluz ocorre a quebra da unidade da cena, deixando evidente a interferência do fotógrafo na sua execução. Disso resultam composições em que se sobressaem massas e volumes recortados, aludindo à bidimensionalidade da cópia fotográfica295.
Em ambas as fotografias, o elemento arquitetônico das janelas, com seus brise-soleils e seus reflexos nas poças, permitiu uma composição com ênfase na geometrização das imagens, que remetem até mesmo a pinturas modernistas, como as composições de Mondrian, por exemplo. As fotografias em questão parecem ser, ainda que indiretamente, tributárias da influência do Foto Cine Clube Bandeirante enquanto expansor da experiência moderna, renegando o caráter exclusivamente documental da fotografia e abrindo novas frentes de pesquisa296.
Mesmo que o caráter moderno e arrojado dos edifícios, enquanto símbolos do progresso que São Paulo vivenciava na década de 1950, estivesse sendo colocado em cheque, pelo menos em seus aspectos construtivos, as imagens da degradação apontam para outro tipo de modernidade, a imagética.
295 COSTA, Helouise & SILVA, Renato Rodrigues da. A fotografia moderna no Brasil. São Paulo: Cosac Naify,
2004, p.41.
O Palácio das Nações não foi o único edifício do Ibirapuera a sofrer deteriorações no final da década de 1950. O conjunto arquitetônico, como um todo, encontrava-se em mau estado e alguns jornais chegaram mesmo a falar na possibilidade de desabamento, que poderia ser devido a uma conjunção de fatores da ordem de projeto, de construção e de conservação.
Artigo de página inteira publicado no O Estado de S. Paulo, em meados de 1958, traz fotografias que retratam vários dos problemas encontrados nos edifícios do Parque, ainda recém construído. A primeira imagem da página é uma fotografia de vista aérea do conjunto do Ibirapuera em que, à distância, “as falhas não são percebidas e o espetáculo é, ainda, bastante agradável.”297 Outra foto, no canto direito inferior da página, proporciona um detalhe da grande
marquise, manchada com infiltrações de água. Uma foto do Palácio de Exposições evidencia o destacamento das pastilhas utilizadas como revestimento exterior e as rachaduras na cobertura. Uma fotografia interna da mesma construção evidencia, igualmente, rachaduras e infiltrações. Há também uma fotografia do Palácio das Indústrias inundado por água de chuva, muito parecida com as fotografias já comentadas do ocorrido no Palácio das Nações.
297 O Estado de S. Paulo, 01 de junho de 1958, p. 96. Disponível em <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19580601-
“Desintegra-se o Ibirapuera”, autoria das imagens não creditada / O Estado de S. Paulo, 01 de junho de 1958298
Os lagos do Parque Ibirapuera também sofreram abandono. Nessa época, eles eram tidos como um retrato fidedigno da administração municipal: “sempre sujos, feios, malcheirosos, criadouros de pernilongos, que atormentam a população dos bairros vizinhos. Imensa camada de lodo reveste os lagos, que até tempos atrás constituíam uma das atrações do Parque Ibirapuera.”299
298Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19580601-25484-nac-0096-999-96-not/busca/IBIRAPUERA+Ibirapuera>.
Acesso em: 21/05/2014.
299 O Estado de S. Paulo, 21 de setembro de 1958, p. 26. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19580921-
“Retrato de uma administração”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 21 de setembro de 1958300
Até mesmo o símbolo do IV Centenário, a espiral do progresso, entrou em decadência, restando, na década de 1960, apenas sua estrutura metálica. Esse fato não deixa de ser significativo num período em que a administração municipal relegou o espaço simbólico da força e da pujança de São Paulo – o Ibirapuera –, ao “abandono”, segundo termo frequentemente utilizado na época. A estrutura metálica remete aos trilhos de uma montanha russa e a analogia, conforme proposta por Nicolau Sevcenko, ainda que se referindo a momento histórico anterior, é propícia.
O Estado de S. Paulo, 22 de janeiro de 1960, p. 10, autoria não creditada301
300Disponível em <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19580921-25580-nac-0026-999-26-not/busca/Parque+Ibirapuera>.
Acesso em: 21/05/2014.
301 Disponível em <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19600122-25991-nac-0010-999-10-not/busca/Ibirapuera>.
O IV Centenário, época em que foram erguidas muitas estruturas do Ibirapuera, deveria representar a utopia do moderno, a subida constante e otimista da montanha russa, interpretada como sendo rumo ao progresso302. O período referente à “queda vertigionosa”303 da montanha
russa, nesta análise do Ibirapuera, estaria sendo representado pelo momento em que a fotografia da espiral publicada em O Estado de S. Paulo foi tirada, no final da década de 1950 quando, passadas as comemorações para as quais o Parque foi construído, ele entrou em decadência.
“Ibirapuera abandonado ainda é atração”, autoria das imagens não especificada / O Estado de S. Paulo, 25 de março de 1960, p. 8304
Reportagem de O Estado de S. Paulo, em março de 1960, comenta a situação deplorável em que se encontrava o Ibirapuera: “nem bem se conseguira a meta desejada – a “Brasília” do prefeito de então – nem bem a opinião pública se firmara favorável à realização,
302 Na análise de Nicolau Sevcenko, contudo, a época referente à ascensão da montanha-russa vai do século XVI
a meados do século XIX. Ver SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
303 Na análise de Nicolau Sevcenko, essa época refere-se a, aproximadamente, 1870. Ver SEVCENKO, Nicolau.
A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
304 Disponível em <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19600325-26044-nac-0042-fem-8-not/busca/Ibirapuera+abandonado>..
as obras que custaram uma fortuna eram abandonadas...”305. Cabe notar aqui o paralelo sendo
estabelecido entre o conjunto do Ibirapuera e a cidade de Brasília, ambas obras construídas em sítios sem experiência urbana (ao menos formal) anterior – as tais “páginas em branco” – e com edifícios projetados por Oscar Niemeyer. Ambas foram construídas para simbolizar modernidade e, assim, ajudar a criar uma identidade renovada para o país.
Essa nova identidade, pujante e atrativa, porém, podia ir, rapidamente, “da frescura à decrepitude”306; havia uma “precocidade dos estragos”307. Lévi-Strauss escreveu as seguintes
palavras a respeito de São Paulo, que parecem se enquadrar bem no contexto de deteriorização do Parque Ibirapuera, antes símbolo de modernidade e de progresso:
No instante em que se erguem os novos bairros, quase não chegam a ser elementos urbanos: são demasiado novos, brilhantes e alegres para o serem. Assemelham-se mais a uma feira, a uma exposição internacional construída para durar alguns meses. Passado esse período de tempo, acaba a festa e essas bugigangas gigantescas definham: as fachadas estalam, a chuva e o musgo enchem-nas de sulcos, o estilo passa de moda, a ordenação arquitetônica primitiva desaparece com as demolições que são exigidas, e também por uma nova impaciência. (...) as [cidades] do Novo Mundo vivem febrilmente numa doença crônica: eternamente jovens, nunca são todavia saudáveis308.
Apesar da deterioração do Ibirapuera, o Parque continuava a ser frequentado pelo público. A reportagem em questão traz quatro fotografias inteiras (as outras estão sangradas) do uso do Parque pela população. As três menores, no canto esquerdo da página, retratam: o Planetário com um casal passeando no primeiro plano pois, segundo a legenda, o edifício está “sempre cheio de estudiosos”; jovens em motocicletas, veículos para os quais “há sempre lotação garantida”; e um barco coletivo para passear pelo lago. A foto maior retrata um casal num barco no meio do lago e traz a legenda “a fotografia nos convence de que um barco para dois é bem mais romântico.”309
305 O Estado de S. Paulo, 25 de março de 1960, p. 8. Disponível em <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19600325-
2604-nac-0042-fem-8-not/busca/Ibirapuera+abandonado>. Acesso em: 21/05/2014.
306 LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. Lisboa: Edições 70 Lda, 1955, p. 86. 307 Ibidem, p. 87.
308 Ibidem, p. 87.
309 O Estado de S. Paulo, 25 de março de 1960, p. 8. Disponível em <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19600325-
Detalhes das imagens publicadas em O Estado de S. Paulo, 25 de março de 1960
O trecho da legenda “a fotografia nos convence” merece ser comentado, pois confere ênfase ao fato de que a imagem fotográfica nunca é totalmente neutra e isenta; ela é sempre, em maior ou menor escala, uma forma de representação com potencial semântico, capaz de comunicar mensagens e de provocar ideias.
Cabe notar que, nessas fotografias, os usuários do Parque aparecem com muito mais frequência enquanto sujeitos da imagem, ao passo que, durante a construção e inauguração do Ibirapuera, a arquitetura sempre foi a principal retratada. Isso pode ser devido ao fato de que existe certa ‘tradição’ da imagem arquitetônica ser, muitas vezes, desprovida de presença humana, para que ela possa se concentrar na composição e na textura dos volumes retratados.
(...) as reproduções impressas adquiriram um discurso de enfoques livres e picados (...) a abstração esteve presente na exposição dos novos edifícios e, curiosamente, embora a própria arquitetura seja um objeto criado para se habitar, a ausência de pessoas nas imagens tornava-se cada mais evidente à medida que a fotografia firmou presença nas páginas das revistas especializadas310.
310 MÉNDEZ, Patricia. “Fotografias en revistas de arquitectura: un discurso de la modernidade en Buenos Aires.
Outras visões a respeito da fotografia de arquitetura se opõem à representação dos edifícios como objetos estáticos ou como obras de arte que devem ser meramente contempladas e propõem imagens mais “realistas” da arquitetura, buscando evidenciar a maneira como ela é na vida cotidiana, utilizada e animada por seres humanos, que lhe conferem escala e até mesmo valor social. Para Iain Borden a representação de características temporais da arquitetura em determinado período histórico revela o modo como as pessoas vivem e a forma como as cidades e os edifícios mudam e evoluem311.