5.6. Videre utvikling
5.6.5. Ikke bare bedriftsmøter
Em 1957, o Parque Ibirapuera ganhou duas novas incorporações ao seu complexo arquitetônico. O primeiro foi o Planetário, de autoria dos arquitetos Eduardo Corona, Roberto G. Timbau e António Carlos Pitomba. Esse foi o primeiro planetário a ser instalado na América Latina.
“Entrada principal com suave rampa”, José Moscardi. / Acrópole no. 225, 1957, p. 313
270 Ver GOUVEIA, Sônia Maria Milani. A Fotografia de Peter Scheier em Três Publicações. São Paulo: pós
v.15, n.24, dezembro 2008.
A fotografia acima foi publicada na Acrópole no. 225 em 1957, e é de autoria de José Moscardi, nesse momento já trabalhando sozinho, sem a parceria com Hugo Zanella. Moscardi chegou a ser considerado como “o fotógrafo da Acrópole” por Max Gruenwald, proprietário da revista entre 1953 e 1971, e foi uma grande referência na área de fotografia de arquitetura em São Paulo.
Nessa publicação, o nome de José Moscardi aparece logo abaixo da imagem aqui reproduzida, no canto inferior direito da faixa branca. Conforme já se comentou anteriormente, o fato da autoria das imagens começar a figurar com maior destaque nas publicações significa maior importância sendo atribuída ao fotógrafo, cada vez mais especializado e reconhecido, que foi o caso de Moscardi na Acrópole, conforme apontou Max Gruenwald.
“Vista de conjunto no Ibirapuera com lago à frente”, José Moscardi. / Acrópole no. 225, 1957, p. 314
Pode-se observar nas fotografias reproduzidas aqui que o edifício do Planetário manteve-se fiel ao estilo dos anos de 1950, principalmente dentro do escopo da obra de Niemeyer (e que também aparece no projeto do Parque Ibirapuera, como no Palácio de Exposições), que possui características referidas como modernistas, mas, mais especificamente, como “futuristas”272. A grande cúpula e a entrada principal remetem a uma espaçonave, forma
condizente com a função do edifício. Questionamentos a respeito do papel que planetários possam ter desempenhado na Guerra Fria podem ser pertinentes aqui, já que simbolizam o embate travado entre o Leste e o Oeste em meados do século XX. A maior parte dos planetários do mundo foi construída justamente durante esse período273. O ano de 1957 é o da construção
do Planetário do Ibirapuera e também o do lançamento do satélite soviético Sputnik. A arquitetura em pauta, assim como sua representação fotográfica, parece sugerir que as possibilidades relacionadas à tecnologia espacial pudessem estar presentes, consciente ou inconscientemente, no imaginário dos arquitetos e artistas da época.
A revista Acrópole exalta o novo edifício e a tecnologia nele empregada em sua reportagem, comentando que a cúpula em concreto armado “ficou sendo uma das mais perfeitas do mundo em casca de concreto.”274 Comenta também que “para abrigar esse notável engenho
do homem, imaginou-se o edifício ora implantado no Ibirapuera, satisfazendo todos os requisitos necessários ao seu bom funcionamento e obedecendo aos principais fundamentos da arquitetura moderna.”275
272 Mais uma vez, o termo “futurista” está sendo empregado com referência ao avanço tecnológico e ao imaginário
da ficção científica, e não ao movimento futurista em si, encabeçado por Marinetti. Cabe aqui menção à denominada “Googie Architecture”. A arquitetura Googie é uma forma de arquitetura moderna, uma subdivisão da arquitetura futurista, influenciada pela cultura dos carros, dos jatos, da Era Espacial e da Era Atômica ao valorizar curvas, formas geométricas e arrojado uso de vidro, aço e néon e ao tomar inspiração de objetos como discos voadores, átomos e parábolas. Mais tarde, a Googie ficou amplamente conhecida como parte do estilo moderno de meados do século. O termo “Googie” recebe seu nome de um café, hoje extinto, construído em West Hollywood, projetado por John Lautner. Estilos arquitetônicos similares também são referidos como “Doo Wop”.
273 Ver FAIDIT, Jean-Michel. Planetariums in the world. The Role of Astronomy in Society and Culture, E9.
Proceedings IAU Symposium No. 260, 2009. Disponível em:
<http://journals.cambridge.org/download.php?file=%2FIAU%2FIAU5_S260%2FS1743921311003292a.pdf&co de=4e0ee76b2bb940293395fd739ff44a29>. Acesso em: 17/03/2015.
274 Acrópole no. 225, 1957, p.313. 275 Ibidem, p.313.
“Planetário”, José Moscardi / Acrópole no. 225, 1957, p. 318
As imagens de José Moscardi publicadas na Acrópole n°. 225 retratam a estrutura construída em concreto no estilo modernista, mas com algo da iconografia de ficção científica. Esse imaginário está aparente não só no projeto arquitetônico como também nas imagens de Moscardi, que possuem ar de mistério e de estranhamento. Cabe notar que esse tipo de referencial não era de todo incomum, pois o design americano na década de 1950 também fez uso de imagens de ficção científica, inspiradas na corrida espacial276.
276 Ver BANHAM, Mary. (1976). A Tonic to the Nation: The Festival of Britain, 1951. London: Thames &
Planetário do Ibirapuera, 1965, autoria não creditada / Folhapress
Outra construção do ano de 1957, e que tem uma arquitetura que, em parte, remete a do Planetário, é o Ginásio Geraldo José de Almeida, localizado na rua Manoel da Nóbrega, próxima ao Parque.
O ginásio, projetado pelo arquiteto Ícaro de Castro Mello, faz parte do Complexo Esportivo Ibirapuera e possui noventa e cinco mil metros quadrados, tendo capacidade para comportar onze mil pessoas. Essa imagem mostra o ginásio em sua totalidade, visto de fora. Sua estrutura também remete ao imaginário “futurista.” O fato de o edifício estar implantado numa área relativamente vazia e da fotografia da Folha de S. Paulo, aqui reproduzida, não ter flagrado presença humana – a não ser de maneira indireta, por meio dos carros que aparecem pequenos ao fundo –, parece corroborar essa interpretação.
A revista Acrópole, de março de 1957, também publicou reportagem com fotos do Ginásio, de autoria de José Moscardi.
“Detalhe do Ginásio, vendo-se uma das entradas”, José Moscardi / Acrópole no. 221, março de 1957, p. 158
“Detalhe das arquibancadas e cabines de televisão, rádio e imprensa”, José Moscardi / Acrópole no. 221,
março de 1957, p. 159
“Aspecto interno, vendo-se à esquerda o reservado para a imprensa, rádio e televisão”, José Moscardi /
Planetário, José Moscardi / Acrópole no. 221, março de 1957, p. 159
A revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui, de fevereiro de 1958, também publicou reportagem a respeito do Ginásio e, apesar do fotógrafo não ter sido identificado na publicação, percebe-se que as três imagens localizadas na parte superior das páginas são as mesmas que foram publicadas na Acrópole, no. 221, de março de 1957, de autoria de Moscardi. A única fotografia que não parece ser deste autor é a do canto inferior.
A imagem de Moscardi do espaço interno do Ginásio remete a outras, do fotógrafo Hans Günter Flieg. Suas fotografias circularam em outros meios e também podem ser interpretadas como possuidoras de imaginário referente aos avanços tecnológicos e determinada noção de futuro. O uso do termo “interpretadas” é relevante, pois o próprio Flieg não identifica essas características como sendo marcantes277.
Ginásio do Ibirapuera em construção, 1966, Hans Günter Flieg / Acervo IMS
Ginásio do Ibirapuera, 1966, Hans Günter Flieg / Acervo IMS
Conforme já comentado anteriormente, Flieg realizou grande parte de sua produção fotográfica associada a trabalhos comissionados para indústrias e para empresas fornecedoras de equipamentos e de materiais para grandes obras em São Paulo, conforme pode-se observar nesse seu ensaio do Ginásio do Ibirapuera, encomendado pela Companhia Brasileira de Alumínio. O Ginásio foi erguido em 1957 e as imagens de Flieg, que parecem retratar o edifício ainda em construção, são de quase dez anos depois. Essa discrepância entre a data de inauguração do prédio e a data das imagens de Flieg é devida à troca da cobertura do Ginásio. A primeira cobertura, da época da inauguração da obra, havia ruído e, segundo o fotógrafo,
chegou até mesmo a matar algumas pessoas278. Foi nesse contexto que a Companhia Brasileira
de Alumínio foi contratada para fornecer o material – chapas de alumínio – para a nova cobertura e foi também nesse contexto que Flieg foi chamado para desenvolver seu ensaio fotográfico. Ainda que as imagens tenham sido comissionadas pela empresa, algumas ainda tiveram circulação para além do âmbito empresarial na época, pois chegaram a figurar em revistas de arquitetura como a Habitat e a Acrópole279.
Ginásio do Ibirapuera, 1966, Hans Günter Flieg / Acervo IMS
Outra imagem de Flieg, bastante conhecida, é, segundo o fotógrafo, comumente confundida com o Ginásio e com a marquise do Ibirapuera. Trata-se de fotografia da fábrica Duchen, em Guarulhos, de 1953.
278 Informações obtidas em entrevista telefônica com Sr. Hans Gunter Flieg em 21/10/15.
279 Em entrevista telefônica, em 21/10/15, Sr. Hans Günter Flieg comentou que por vezes era indicado pelos
arquitetos das obras ou pelos diretores das revistas para fornecer imagens. Atualmente, algumas imagens foram publicadas em livros e mostradas em exposições.
Fábrica Duchen, Guarulhos – SP, 1953, Hans Günter Flieg / Acervo IMS
Para o fotógrafo, é interessante observar as semelhanças dos recursos arquitetônicos, que eram típicos da época280. Da mesma forma, é possível pensar que a maneira de abordar a
retratação da arquitetura também apresentasse similaridades, ajudando a explicar as causas do equívoco.
Apesar das fotos do Ginásio terem sido encomendadas a Flieg, revelando a intenção de propaganda e divulgação da empresa contratante, isso não significa ausência de criatividade, pois o trabalho ainda resulta em uma tomada de ponto de vista específico, subjetivo e estético, por parte do fotógrafo. As imagens possibilitam perceber a quantidade de alumínio e de ferro necessária para a realização das estruturas das formas arquitetônicas modernas, mas elas também são dotadas de dramaticidade devido ao uso de luz e sombra e aos recortes do objeto, pois o assunto arquitetônico é fragmentado. Nessas fotografias, Flieg preocupou-se menos com o contexto geral da obra e investiu em enquadramentos mais fechados, que acabam adquirindo certa autonomia em relação ao referente. Nas imagens selecionadas, a atenção aos detalhes e ao jogo de luz e sombra, formado pelas estruturas metálicas, adquirem a qualidade de gravuras ou de desenhos, formando uma “paisagem gráfica”281 de impacto visual.
Na representação dessas estruturas, os trabalhadores que ajudaram a construí-las são pouco notados. Percebe-se apenas, na terceira imagem, um único trabalhador erguido junto à claraboia. A estrutura arquitetônica aparece imensa frente à pequenez do sujeito que a constrói.
280 Informações obtidas em entrevista telefônica com Sr. Hans Günter Flieg em 21/10/15.
281 Termo utilizado por ESPADA, Heloisa. In: Monumentalidade e Sombra: a representação do centro cívico de
A ênfase da imagem está na arquitetura em construção, seu estranhamento e, simultaneamente, na sua monumentalidade.
Nesse sentido, pode-se pensar que haja algo de sublime nas imagens de Flieg, não no sentido que estariam relacionadas de alguma maneira ao transcendental, mas no sentido que elas provocam mistério e espanto no observador282. Cabe notar que se costuma julgar como sublime não o objeto
em si, mas o estado de espírito de quem o contempla283. Segundo Edmund Burke, o assombro
refere-se ao estado de alma em que tudo fica em suspenso. Assim, a mente do observador fica tão entretida com o objeto contemplado que ela não pode se ocupar com a contemplação de qualquer outro objeto. Desse mistério surge, com maior clareza, o conceito de paisagem, compreendida como um espaço sacralizado, que vai além de um simples lugar físico e utilitário284.
A sucessão e a uniformidade das partes que podem ser observadas nessas imagens do Ginásio constituem uma espécie de infinidade artificial e, assim, produzem efeito de sublimidade na arquitetura. Igualmente, os efeitos provocados pelos jogos de luz e sombra nas fotografias causam inquietação. A escuridão gera sensação de mistério, mas a intensidade forte de luz, como a que passa pela claraboia, também pode causar similar sensação, já que parece ofuscar a vista, não permitindo que se enxergue claramente; trata-se de uma luz que, “justamente por seu excesso, converte-se em uma espécie de escuridão.”285 Esse assombro é o
efeito do sublime e seus efeitos no observador são admiração, reverência, respeito e poderio, todas características sendo evocadas, direta ou indiretamente, no Ibirapuera.
Esses sentimentos podem ser associados ao efeito de monumentalização e essa sensação também ocorre no trabalho do fotógrafo de outras maneiras.
282 A respeito da noção de sublime ver: BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas
ideias do sublime e do belo. Campinas: Unicamp/Papirus, 1993& KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993 & FERRY, Luc. Homo Aestheticus: l'invention du goût à l'âge
démocratique. Paris: B. Grasset, 1990.
283 Se a vivência do sublime está ligada à intuição e ao subjetivo, para se afirmar que algo é sublime deve-se
pressupor que todos têm o mesmo discernimento e julgamento das coisas. Diferentes pessoas, porém, possuem diferentes universos sociais, culturais e emocionais que devem ser levados em consideração. O sublime, portanto, deve ser percebido na escala individual: “as diferentes sensações de contentamento ou desgosto repousam menos sobre a qualidade das coisas externas, que as suscitam, do que sobre o sentimento, próprio a cada homem.” Ver Immanuel KANT. Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as Doenças Mentais. Campinas: Papirus, 1993, p.19
284 Ver também OLWIG, Kenneth Robert. Landscaping racial and natural progress. In: Landscape, nature and
the body politic. Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 2002.
285 BURKE, Edmund Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo.
Ginásio do Ibirapuera e Monumento às Bandeiras, 1966, Hans Günter Flieg / Acervo IMS
A imagem do Ginásio ao fundo, com fragmento do Monumento às Bandeiras no primeiro plano, revela a grandiosidade do conjunto, privilegiando a obra mais antiga. A relação, contudo, entre passado e presente cria narrativa capaz de explicar as grandes conquistas dos paulistanos, e dos brasileiros, por meio de continuidades históricas. Essa era uma relação frequente nas imagens desse período e que aparece não só em fotografias de autor, mais relacionadas às esferas artística e intelectual, mas também em peças publicitárias.
“700 dias para você julgar!”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 25 de janeiro de 1957, p. 9286
No dia 25 de janeiro de 1968, portanto mais de dez anos após a incorporação do Planetário e do Ginásio de Esportes ao complexo do Ibirapuera (e na data simbólica do aniversário da cidade de São Paulo), foi inaugurado o prédio da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, localizado na avenida Brasil, com projeto dos arquitetos Adolfo Rubio Morales, Ricardo Sievers e Rubens Carneiro Viana287. A Assembleia Legislativa também é
denominada de Palácio Nove de Julho, como tributo ao movimento constitucionalista de 1932, já homenageado com um monumento no complexo do Ibirapuera, e com a promulgação da Constituição Estadual de 1947.
286 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19570125-25071-nac-0008-999-9-not/busca/Ibirapuera>. Acesso
em: 22/05/2014.
“Este é o futuro prédio da Assembleia Legislativa, no Ibirapuera”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 04 de maio de 1967, p. 15288
A entrada principal da Assembleia é feita por meio da esplanada localizada na avenida Brasil e sua monumentalidade é acentuada pelas palmeiras imperiais e pelos mastros de bandeiras, conforme pode-se observar na fotografia que segue.
“Assembleia Legislativa”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 30 de agosto de 1968
288 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670504-28236-nac-0015-999-15-not/busca/Assembléia+Legislativa>.
O edifício possui forma retangular, de maneira não incomum a outros “Palácios” do Ibirapuera, em monobloco horizontal, e:
entendimento plástico simples, (...) tranquilo pela proporção e severo pela implantação, poderiam conferir ao edifício a nobreza que se nos afigurou necessária, dado o tema em questão. (...) E admitindo também que o Poder Legislativo se impõe por segurança, sobriedade e nobreza, requerendo mesmo generosidade nos espaços circundantes, bem como proteção e distanciamento.289
O edifício da Assembleia Legislativa constitui, também ele, um marco na paisagem da região do Ibirapuera e representa o poder e a organização na cidade de São Paulo. É, portanto, “símbolo e exemplo do quadro urbano moderno projetado para o local onde está inserido.”290
Com a inauguração da Assembleia Legislativa, fecharam-se as construções do complexo arquitetônico do Ibirapuera no período, pois somente em 2005 será construído o Auditório, previsto no projeto original.