Bardin (2011) considera que o material a ser analisado é dotado de índices, os quais serão explicados pela análise. Assim, a referenciação dos índices faz parte do trabalho preparatório. Após a escolha dos índices, passa-se à construção de indicadores seguros, bem como à organização sistemática nesses indicadores. Essas escolha e organização devem acontecer em função das hipóteses, se forem pré-determinadas.
No caso do presente estudo, nossa escolha para a referenciação dos índices faz menção à temática maior “Infância”, mais especificamente à Infância do e no Campo. Bardin (2011) nos orienta que desde a pré-análise é necessário delimitar e escolher critérios de recorte do texto em unidades comparáveis de categorização para análise temática e de modalidade de codificação para o registro dos dados.
Por se tratar de uma temática abrangente – “Infância” –, nosso primeiro recorte em relação a esse assunto foi escolher qual das ramificações deste amplo campo de estudos seria abordada. Dessa forma, optamos pela Infância do e no Campo a partir das produções realizadas na área de conhecimento da Educação. Para isso, nos pautamos nas diretrizes que regulamentam a Educação do Campo e que definem quais são as infâncias consideradas do campo, como já citado ao longo deste estudo. Esse recorte pode ser representado
esquematicamente conforme a Figura 2.
Figura 2 – Representação esquemática do recorte do estudo da tese
Fonte: PELOSO (2015).
Essa organização se dá pelo fato de que nossa opção foi pela técnica de análise categorial. Essa técnica prevê a codificação e a categorização de todo o material eleito para a análise.
A codificação, de acordo com Bardin (2011), é o tratamento dado ao material. Quando o material é submetido a regras precisas de análise, ele sofre uma transformação. É a transformação dos dados brutos do texto que, por recorte, agregação e numeração, passa a representar índices sobre o assunto/temática em questão.
No processo de codificação, quando o material é submetido a uma análise categorial, é necessário prepor:
a) o recorte: escolha das unidades;
b) a enumeração: escolha das regras de contagem; c) a classificação e a agregação: escolha das categorias.
O recorte é ação de escolher quais elementos do material serão considerados no momento da análise. Bardin (2011) denomina essas escolhas de “unidades de registro” e de “unidades de contexto”.
Educação
Infância
Infâncias
do/no
Campo
As “unidades de registro” representam a unidade de significação codificada correspondente ao segmento de conteúdo da unidade base. Definir as unidades de registro é um processo indispensável à categorização, uma vez que garante a objetividade da análise.
A autora supracitada afirma que as “unidades de registro” podem ser de natureza e de dimensões muito variáveis. Podem se tratar de temas ou de variáveis, como, por exemplo, as palavras. O fato é que ao utilizar as técnicas da análise de conteúdo é sempre necessário que o recorte seja de ordem semântica que pode variar entre palavra, palavra-tema ou frase e unidade significante.
Com efeito, para este estudo, trabalhamos as unidades de registro no contexto do tema, avalizado pelas regras de Bardin (2011) para a análise de conteúdo.
Segundo a autora, “fazer uma análise temática consiste em descobrir os “núcleos de sentido” que compõem a comunicação e cuja presença, ou frequência de aparição, podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido” (BARDIN, 2011, p.135).
Para esta pesquisa, utilizamos como recorte as produções provenientes da área de conhecimento da Educação sobre as Infâncias, mais especificamente sobre as Infâncias do e no Campo e, para formar as categorias temáticas, nos utilizamos de nosso objetivo maior de mapear, identificar e analisar, na produção bibliográfica sobre a Infância, concepções e abordagens teóricas e metodológicas relativas às Infâncias do e no Campo. A partir dessa premissa, optamos por categorizar os estudos a partir das suas contribuições para a constituição da área.
Por sua vez, as “unidades de contexto” são sempre maiores que as “unidades de registro”. Aquelas servem de unidade de compreensão para codificar estas. No nosso caso, “as unidades de contexto” foram eleitas a partir da DOEBEC que define quais populações são consideradas do campo. Dessa forma, buscamos compreender a unidade de registro “Infância do Campo”, através da unidade de contexto “Educação do Campo”.
Relativamente à enumeração, que corresponde à escolha das regras de contagem, optamos por identificar a frequência, ou seja, identificar a importância da unidade de registro “Infância do Campo” que aparece nas produções sobre a Infância.
A classificação e a agregação são realizadas a partir dos critérios de categorização. De acordo com Bardin (2011), as categorias podem ser definidas como assuntos ou classes que reúnem um conjunto de princípios e são agrupados a partir de um título que retrata suas generalidades. O critério utilizado para a categorização pode ser: semântico, sintático, léxico e expressivo.
do que cada um deles tem em comum com os outros. O que vai permitir o seu agrupamento é a parte comum existente entre eles. Assim, o processo de categorização é processo estrutural e demanda de suas etapas:
a) o inventário: isolar os elementos;
b) a classificação: repartir os elementos e organizá-los.
c) a categorização propriamente pode acontecer a partir de dois processos:
d) por caixas: quando as categorias são elencadas a priori, a partir das hipóteses e dos objetivos;
e) por acervo: quando as categorias são definidas ao longo do processo de análise e o título conceitual de cada categoria só é definido no final do estudo.
Seguindo os pressupostos de Bardin (2011), definimos as categorias, a priori, ou seja, pelo processo denominado pela autora de “caixas”. A partir de nossa hipótese e de nossos objetivos, ambos já citados, as seguintes categorias foram criadas:
a) categoria 1: estudos que abordam especificamente as infâncias do e no campo. b) categoria 2: estudos que investigam a dimensão pedagógica voltada para a infância
do e no campo.
Para cada categoria, elegemos critérios de análise. Para a categoria de número 1: a) objetivos;
b) base teórica declarada; c) referencial teórico; d) metodologia;
e) concepção de infância;
f) correspondências e semelhanças entre os estudos. Para a categoria de número 2:
a) objetivos;
b) base teórica declarada; c) referencial teórico; d) metodologia;
e) concepção de infância;
f) proposição de sugestões/soluções para o trabalho pedagógico com as crianças do e no campo;
g) correspondências e semelhanças entre os estudos.
Elegemos essas duas categorias pela amplitude de discussões que contemplam, nos permitindo maior flexibilidade durante a análise. A intenção da categoria de número um é a
de identificar e discutir como as Infâncias do e no Campo estão sendo exploradas e socializadas a partir dos estudos acadêmicos. A intenção da categoria de número dois é a de identificar como a dimensão pedagógica voltada para as Infâncias do e no Campo estão sendo contempladas nos trabalhos acadêmicos e se a partir disso é possível vislumbrar uma prática pedagógica mais efetiva para essas populações. Os critérios de análise foram escolhidos por responderem diretamente aos nossos objetivos para este estudo, conforme já citado.
Após esse processo, passamos para a preparação do material, último passo proposto para a pré-análise.