Ao longo do período de contato, entre a sociedade envolvente e os povos indígenas, foram identificados, aproximadamente, 220 grupos indígenas em território brasileiro. Os quais foram classificados em quatro troncos lingüísticos: Tupi, Aruak, Karib e Jê, considerando ainda aqueles que não se encaixam em nenhum desses troncos, foram classificados como línguas “isoladas” (Silva, 1986).
Formando o ramo do tronco Jê, encontram-se os índios A`uwẽ e Xerente que, como indicam as evidências, foram parentes muitos próximos, senão um povo só até o século XIX (Maybury-Lewis, 1984). Embora vivam hoje separadamente, falam línguas parecidas e se autodenominam A’uwê e Akuwê, respectivamente. Na memória histórica dos A`uwẽ, A`uwẽ
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e Xerente foram um só povo até o momento da travessia do Rio Araguaia, ocorrida aproximadamente em 1820.
O povo A`uwẽ, numericamente, é um grupo de grande expressão numa lista de cerca de 220 povos indígenas em território brasileiro. Em território mato-grossense, podemos dizer que é o maior grupo. Mas, apesar da existência dessa grande expressão, ainda é grande também a falta de conhecimento por parte da sociedade envolvente a respeito deles28.
A expressão Xavante, por exemplo, é um dos aspectos que caracteriza esse desconhecimento na época das grandes invasões. Essa expressão foi aplicada indiscriminadamente a todas as comunidades que habitavam o cerrado (Siqueira, 1872:41-42 apud Mayburi-Levis, 1984). Esse termo foi dado pelos portugueses aos componentes de um povo que, até o final do século XVI, ocupou o norte do Estado de Goiás e que, até o momento, não se sabe sua origem. É um termo que é usado de forma genérica para homogeneizar um povo que tem sua maneira específica de ser e viver. É um povo que está organizado em comunidades e que se autodenomina A`uwẽ Uptabi, que significa Povo Verdadeiro. É também com o objetivo de respeitar a sua autodenominação como forma de se auto-afirmarem, que, no decorrer desse trabalho, omitiremos o termo Xavante, exceto no título29.
Apesar de todo esse desconhecimento a respeito dos A`uwẽ, sabemos que até o início do século XIX, eles ocupavam o norte de Goiás, entre os rios Tocantins e Araguaia (Mayburi-Levis, 1966a e 1984). Apesar de terem recebido do não índio a mesma designação, os A’uwê não possuem relação com outros grupos denominados A`uwẽ como Oti-Xavante, do oeste do Estado de São Paulo e os Ofaié (Opaié)-Xavante, do Mato Grosso do Sul (Mayburi- Levis, 1984).
Atualmente, os A`uwẽ vivem em sete terras indígenas: TI-Rio das Mortes30, TI- São Marcos, TI-Parabubure, TI-Sangradouro, TI-Areões, TI-Marechal Rondon e TI Marãiwaséde e nestas terras estima-se, atualmente, cerca de 13.000 pessoas, embora este número deva ser tomado apenas como aproximação na ausência de um recenseamento digno de confiança. Estão divididos em mais de setenta aldeias (Cerqueira, 2003) que caracterizam três subgrupos familiares distintos: o subgrupo de Êtêñiritipa, que se autodenomina A`uwẽ
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Sabe-se que, na época da chegada dos invasores eram aproximadamente 1000 povos, totalizando de 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente esse número é menos de um quarto do que era na época das invasões. São, atualmente, em torno de 220 povos, falam mais de 180 línguas diferentes e totalizam aproximadamente, 370 mil indivíduos. Sendo que a maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 583 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional (ISA, 2005).
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Será usado o termo simplesmente por questão política, pois esse termo é mais familiar no meio acadêmico.
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apseniwihã; o subgrupo de Suiá Missú, A`uwẽ marãiwaséde; e o formado pelos índios de São Marcos e Parabubure, A’uwê norõzura (Leeuwenberg & Salimon, 1999). Nesse contexto, considera-se como subgrupo o conjunto de famílias que, historicamente, mantiveram alianças políticas e celebraram casamentos entre si.
Mapa nº. 04 – terras indígenas Fonte: (ISA - Instituto Socioambiental).
Os territórios A`uwẽ ocupam a zona norte oriental do planalto do Brasil Central (leste de Mato Grosso – ver mapa31 nº. 04) e que estão localizados em áreas de cerrado, com exceção a Terra Indígena Marãiwatsede, mista de cerrado com formações florestais amazônicas que margeiam o rio das Mortes (T.I. Rio das Mortes - no baixo rio das Mortes; T.I. Areões e T.I. São Marcos – no médio rio das Mortes; e Sangradouro – no alto rio das Mortes); nos vales dos rios Kuluene e Couto Magalhães (T.I. Parabubure); nos vales dos rios Curisevo e Batovi (T.I. Marechal Rondon); e, finalmente, no interflúvio entre o Araguaia e o Xingu, na região do rio Suiá-Missu (T.I. Marãiwatsede).
No que diz respeito às suas unidades administrativas municipais, as Terras Indígenas A`uwẽ estão localizadas nos seguintes municípios: TI Marãiwatsede – Alto da Boa Vista-MT; TI Rio das Mortes – Canarana-MT e Ribeirão Cascalheira-MT; TI Areões – Água Boa-MT e Nova Nazaré-MT; TI São Marcos – Barra do Garças-MT; TI Sangradouro/Volta Grande – General Carneiro-MT e Poxoreu-MT; TI Parabubure – Campinápolis-MT; TI Marechal Rondon – Paranatinga-MT.
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É importante ressaltar que essas Terras Indígenas ocupam regiões que se encontram nas cabeceiras dos principais rios da região centro-oeste (ver mapa nº. 04) e que são importantes viveiros reprodutores de espécies animais (incluindo os peixes) e vegetais do cerrado (utilizadas por várias comunidades indígenas como alimentos, matéria-prima para sua cultura material e de seu simbolismo mítico e ritual).
1.3.1 - Os A`uwẽ de Êtêñiritipa
Os A’uwê a quem estamos nos referindo no presente trabalho são de Êtêñiritipa e fazem parte das Terras Indígenas Rio das Mortes32 que ocupam uma área total de 330 mil hectares, com uma população de aproximadamente 1150 pessoas.
Êtêñiritipa está localizada entre os graus 51º00` e 52º30` de longitude leste e entre os graus 13º00` e 14º00` de latitude sul (ver fig. nº. 02). Sua população é de aproximadamente 547 pessoas, sendo 274 do sexo feminino e 273 do sexo masculino (dados do autor), que falam a língua A`uwẽ, e alguns, o português. Possui uma escola municipal de Ensino Fundamental e Médio33, um posto de saúde mantido pela Fundação Nacional da Saúde e está situada em terras pertencentes aos municípios de Ribeirão Cascalheira - MT e Canarana-MT.
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TI Rio das Mortes: Êtêñiritipa, Caçula, Tanguro, Água Branca, Wederã, Canoa, Jatobá e Buritirana.
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Atualmente (2005), somente em Etêñiritipa, são 373 alunos matriculados sob a responsabilidade de 09 professores. Mas participam das Oficinas 25 professores de sete aldeias pertencentes s Terras Indígenas Rio das Mortes.
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Pimentel Barbosa é o nome que foi dado à Aldeia Êtêñiritipa em homenagem ao comandante que foi morto à borduna durante o contato em 1942. Naturalmente, não foi dado pela comunidade, mas sim pelos Warazu34.
A comunidade de Êtêñiritipa está a 860 km da capital, Cuiabá. Para chegar até esta aldeia existem duas maneiras. A primeira, que é a mais rápida, porém a mais cara, é de avião, pois a comunidade possui uma pista de pouso (para avião de pequeno porte); a segunda é via terrestre. Pode-se chegar até a Matinha35 de ônibus de linha e da Matinha até a Aldeia de carro próprio, carona (quase sempre no carro da comunidade) ou a pé36. Esse último percurso é de aproximadamente 62 km de estrada de terra, sendo que no período chuvoso, dezembro a maio, a estrada fica quase intransitável.
Os A’uwê de Êtêñiritipa (apseniwihã), especificamente, são descendentes dos primeiros líderes históricos que se propuseram a aceitar a aproximação do homem não-índio. Ainda guardam em suas memórias lembranças de fortes massacres ocorridos durante o
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Denominação dada pelos A`uwẽ aos não-índios.
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Povoado pertencente ao município de Canarana – MT onde fica a interseção da BR 158 com a estrada que vai para Êtêñiritipa.
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Numa conversa informal a respeito de um A`uwẽ que fica transitando, semanalmente, entre a aldeia e o povoado de Matinha, ficamos sabendo que ele faz esse percurso a pé em 12 horas de viagem.
Mapa nº. 05 – mapa da Terra Indígena (TI) Rio das Mortes. Fonte:
Ministério dos Transportes/ Companhia Docas do Pará.
12º00` SD.22-V-D Escala 1:250000 52º00`
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51º30` 51º00` 13º30` 14º00` 52º00`2
13º30` 14º00`TI Rio das Mortes
52º30`
13º00` 13º00`
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processo de luta contra a forma agressiva como eram tratados. Atualmente, fazem parte do grupo supostamente mais tradicional e envolvido no processo de reversão das ameaças de degradação cultural. Opuseram-se praticamente a todas as formas de relacionamentos com a sociedade envolvente que viesse lhes ameaçar.
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