• No results found

As condições em que se encontravam as escolas, os professores e o número de alunos matriculados nas aldeias que faziam parte do Projeto, foram aspectos que mais nos motivaram para a realização desse trabalho, principalmente as atividades desenvolvidas nas Oficinas de Matemática54. Dessa forma, o presente estudo reflete apenas parte do que foi desenvolvido durante esse período. Também foi esse trabalho desenvolvido com a comunidade que nos proporcionou uma clareza do processo e, conseqüentemente, fomos escolhendo os caminhos para percorrer, evitando assim os possíveis desvios de percurso.

Depois de um determinado tempo em que estávamos trabalhando com o povo A`uwẽ, por volta de 2000, foi que nos despertou o interesse de entender melhor a organização espacial/social desse povo e, conseqüentemente, a sua matemática. Pois percebíamos, mesmo empiricamente, que a forma como concebiam o espaço diferenciava de tudo que já tínhamos lido a respeito. Mas esse tema especificamente, A organização Espacial/social A`uwẽ, surgiu em 2002, durante a leitura do livro do Paulo Gerdes – Cultura e o despertar do pensamento geométrico. Desse momento em diante começamos a observar essa temática com mais

54

Na época, em 1998, as três aldeias juntas somavam 208 (75 em Caçula, 112 em Etêñiritipa e 21 em Tanguro) alunos matriculados sob a responsabilidade de 10 professores ensino fundamental incompleto.

52

cuidado e, à medida que a nossa experiência ia aumentando, paralelamente com as leituras que fazíamos, esse tema ia se tornando mais claro, o que hoje resultou nesse trabalho.

Já com um pouco mais de experiência de trabalho adquirida com as comunidades envolvidas no Projeto, em 2003, sistematizamos melhor o anteprojeto sobre esse assunto. Como a nossa experiência era com todas as aldeias pertencentes às Terras Indígenas Rio das Mortes (TI), a primeira providência a ser tomada foi delimitar em qual dessas aldeias e também qual assunto seria desenvolvido na pesquisa. Mediante essa situação, escolhemos Etêñiritipa por ser uma das aldeias A`uwẽ mais velhas (dentre as pertencentes as Terra Indígenas Rio das Mortes) e que demonstrou, ao longo da sua história, maior resistência à sociedade envolvente e esse aspecto é percebido até os dias de hoje. Segundo os A`uwẽ mais velhos, é a comunidade que mais tem resistido aos hábitos indesejáveis da sociedade envolvente. Mas essa não foi uma decisão muito fácil de ser tomada, pois já havia uma relação estabelecida com todas as demais comunidades55. Por esse motivo, quando encontramos as pessoas das demais aldeias, elas nos questionam em tom de brincadeira, mas com certo grau de verdade, por que não escolhemos sua comunidade para desenvolver o trabalho. Com esses questionamentos, mais uma vez mostram uma das principais características presentes na cultura A`uwẽ: a política inter-aldeia.

Tendo em vista a diversidade de possibilidade de investigação sobre os aspectos da matemática relacionada com a cultura A`uwẽ, foi necessário mais uma vez fazer um recorte, pois tudo que já tínhamos observado dentro da cultura dos A`uwẽ tornava-se muito amplo diante do que pretendíamos observar durante a pesquisa. Tivemos muita dificuldade para fazer mais esse recorte, pois todo o trabalho realizado com o povo A`uwẽ, que envolvia desde a matemática até mesmo aspectos relacionados com a estrutura social e espacial, era difícil de ser dividido e concebido em partes, e o pior, falar apenas de um aspecto isoladamente não era fácil.

Sendo assim, direcionamos o trabalho buscando tratar da concepção e da percepção deste povo sobre o espaço e as influências de sua organização na construção do conhecimento matemático.

Ainda na perspectiva de definir qual seria o objeto de observação, pois a temática ainda continuava ampla, foi que decidimos focalizar a investigação nos seguintes lugares,

55

Inclusive, o maior envolvimento aconteceu com a comunidade de Caçula, chegando a ponto de ser “nomeado” e identificado como integrante de um grupo de idade e com a nominação A`uwẽ.

53

instituições estabelecidas socialmente, da organização espacial do povo A`uwẽ: o Warã56 (lugar político); o pátio da aldeia (lugar público); o Hö57 (lugar educacional); as casas (lugar doméstico); o cerrado circunvizinho à aldeia (lugar sagrado para realização das roças e de várias cerimônias); e a inter-relação desses lugares entre si e com a organização social da comunidade e, conseqüentemente, com os indivíduos que ocupam esses lugares. Vale ressaltar aqui, que essa estratificação não teve o objetivo de analisar as partes separadamente, mas sim, analisar as relações sociais existentes entre essas instituições, pois elas formam a unidade referencial para o povo A`uwẽ, a aldeia. Foi a partir desses lugares que buscamos compreender as articulações espaciais e sociais do Ró. Para isso, formulamos o seguinte questionamento: a organização espacial e social do povo A`uwẽ influencia na construção do seu conhecimento matemático? A partir dessa pergunta outros questionamentos foram inevitáveis, tais como: O que é o espaço? Como o espaço é constituído no processo de ação e interação dos sujeitos? Quais as representações espaciais que sedimentam a cultura A`uwẽ? Que princípios matemáticos estruturam essas representações? Em que concepção e percepção de mundo os elementos geométricos deste grupo estão ancorados?

Foi a partir desses questionamentos acerca da organização espacial e a inserção do indivíduo nesse espaço que buscamos investigar e discutir os saberes matemáticos elaborados e utilizados pelo povo A`uwẽ, visando organizar tais saberes de modo a contribuir para a compreensão e o respeito com a forma como são concebidos tais saberes.

Diante da necessidade de recortarmos o máximo possível o objeto de investigação, conseqüentemente, fomos obrigados a deixar de aprofundar alguns aspectos relacionados à organização espacial/social A`uwẽ, como por exemplo, o espaço celeste. Pois este espaço, de certa forma, é complementar ao espaço discutido nesse trabalho e que, por sua vez, será objeto de investigação de trabalho futuro.

As questões de investigações estão inseridas, sob o ponto de vista teórico, nas tradições de pesquisa da Antropologia cultural e da Etnomatemática. Foram formuladas na perspectiva de estabelecer articulações entre essas duas áreas de conhecimento, buscando fazer um exercício de alteridade matemática no que diz respeito à maneira como o povo A`uwẽ concebe o espaço e, conseqüentemente, a matemática intrínseca nesse espaço, tendo como referencial empírico o Ró e sua organização espacial/social.

56

Reunião que acontece diariamente ao nascer e ao pôr-do-sol com a participação dos homens que já usufrui desse direito.

57

Casa de reclusão masculina. Já no que diz respeito a formação feminina essa acontece no interior da casa doméstica sob os cuidados das mulheres mais velhas e segue todo um ritual. Mas por motivo de limitações de inserção para observações desse processo, enfatizaremos apenas parte das cerimônias de formação feminina, as que a mim são permitidas, aqui nesse trabalho.

54

No que diz respeito à metodologia deste trabalho de investigação, foram considerados dois focos de análise: o primeiro é a organização do espaço ocupado e o segundo é a influência dessa organização sobre o indivíduo que o ocupa.

A partir disso, foi desenvolvida junto à comunidade, por meio de um estudo descritivo qualitativo, uma coleta direta de dados em pesquisa de campo e feita uma descrição minuciosa dos fenômenos observados (costumes, crenças, rituais, hábitos, organização social, etc.) que interferem na forma de organização e significação do espaço.

O corpus foi formado a partir das atividades desenvolvidas nas Oficinas de matemática que, a cada participação em alguma atividade do cotidiano do grupo pesquisado era, ao mesmo tempo, parte do trabalho pedagógico destinado a mostrar ao grupo o lado oculto da sua matemática e objeto de indagação dos significados produzidos nas relações no interior da organização espacial/social do povo (Martins, 1997).58

Com isso, na medida do possível, conseguimos pesquisar junto à comunidade até mesmo assuntos que os professores cursistas não dominavam, ou mesmo até porque era de responsabilidade dos mais velhos repassar tais informações aos mais novos. Nessas ocasiões, foram feitas entrevistas abertas e semi-abertas com os velhos e professores indígenas com o objetivo de completar as informações que eram abordadas pelos anciãos. Mas a maior parte dos dados que compõem esse trabalho foram levantados a partir da observação direta dos aspectos relacionados ao cotidiano da comunidade. Nesse sentido, o método de caráter etnográfico foi amplamente utilizado e estendido em todos os âmbitos da comunidade, colocando em relevo os elementos relacionados ao Espaço A`uwẽ que conduzem e estruturam as ações do cotidiano e as práticas sócio-culturais do povo.