• No results found

EXTERNAL ACTORS Relations with the US

In document The UK and Afghanistan (sider 65-71)

Para falar de um rádio inovador, vamos nos remeter a dois autores que vislumbram o meio de uma forma no mínimo inusitada e até mesmo utópica, Gaston Bachelard e Murray Schafer. Ambos falam de um rádio que não está preocupado em seguir os ditames da indústria fonográfica, tampouco está interessado em anestesiar a audiência com fórmulas repetitivas, tais como a presença extasiada de um Disque Jóquei, o DJ animado e falante, sem que nada esteja dizendo de verdade; ou a série de músicas que se repete dia após dia. Pelo contrário, fala-se de um rádio que ofereça a seu ouvinte novos embates, encontros com o que já ouviu e com o que nem pensou que existisse, ou não atentou para aquela existência.

Gaston Bachelard, filósofo dual, como se auto-referia, um pensador diurno (com temas sobre a Ciência) e noturno (ao investigar o devaneio, a imaginação), traz em seu livro “O Direito de Sonhar”, o artigo “Devaneio e Rádio” (1985, pp. 176-182), no qual fala de um

11 No original, soundscape, termo criado pelo compositor canadense R. Murray Schafer para, em linhas

rádio capaz de conversar com o inconsciente das pessoas. “O rádio é, verdadeiramente, a realização integral, a realização cotidiana da psique humana” (Idem, p.176).

O filósofo vislumbra um rádio original, com novidades a cada dia e para isso deve penetrar fundo no inconsciente. “É necessário, conseqüentemente, que o rádio ache o meio de fazer com que se comuniquem os ‘inconscientes’. Por meio deles é que irá encontrar uma certa universalidade” (Idem, p. 177). O rádio de Bachelard tem no inconsciente e no trabalho com os arquétipos a chave para alcançar o ouvinte disposto a sonhar. Esse ouvinte encontrará nesse meio “boas horas de sonhos” e para isso ajudará o fato de não ver quem está falando. O rádio como meio cego, é visto por Bachelard como algo positivo, pois aqui se instaura a intimidade necessária para alcançar o mundo subjetivo.

O rádio está certo de lhe impor solidões. Nem sempre, naturalmente. Não se trata de escutar esse tipo de transmissão numa sala de baile, num salão. É preciso escutá-la (...) num quarto, sozinho, à noite, quando se tem o direito e o dever de colocar em si mesmo a calma, o repouso. O rádio possui tudo o que é preciso para falar na solidão. Não necessita de rosto.

O pensador propõe um rádio de transmissão noturna, em horários diversos durante à noite, para que todos tenham oportunidade de ouvir a programação e conseguir pelo menos uma boa noite de sono por semana. Mas para um rádio deste tipo, Bachelard diz que é preciso haver “engenheiros psíquicos”, principalmente se “forem poetas que desejam o bem do homem, a doçura de coração, a alegria de amar, a fidelidade sensual do amor” (Idem, p. 182), dispostos a preparar boas noites para os ouvintes.

Em um ensaio escrito em 1987, R. Murray Schafer (2008, apud MEDITSCH e ZUCULOTO, p. 239) defende a ideia de um rádio radical, um rádio capaz de trazer “ritmos radiofônicos alternativos”. O autor vê o meio como o ideal para trazer bem estar físico e mental às pessoas. Isso seria possível, ao se colocar o rádio a serviço da natureza:

Os ritmos da vida são incrivelmente complexos. Consideremos, por exemplo, os festejos prolongados do casamento no interior, o batimento cardíaco daquele que dorme, do nadador ou do corredor de longa distância. Lembremo-nos do ritmo natural das ondas, quebrando-se na areia da praia. Vamos medir o tempo que dura a neve derretendo, a lua minguando (...). E quando a descoberta de que a continuação de nossa existência nesse planeta depende do restabelecimento desta continuidade com todas as coisas vivas, tenho a suspeita de que o rádio refletirá esta descoberta e desempenhará o seu papel.

O rádio radical de Schafer chama a atenção para o fato do meio dirigir-se à comunidade. A preocupação, portanto, é com o regional. Por isso, o ouvinte deve ser priorizado em qualquer programação, com participação, inclusive, na escolha dos assuntos que serão veiculados (Idem, p. 243). O autor também sugere que microfones sejam colocados em locais onde as pessoas estejam reunidas para conversarem. “Estas e outras milhões de situações produziriam um material muito mais interessante do que as opiniões solicitadas aos ouvintes sobre assuntos do dia”, acredita Schafer (Idem, p. 244).

Por que o rádio não deveria registrar as mínimas alterações no ambiente sonoro? Ele é o instrumento perfeito para fazer isso. Por que não gravar a mudança das estações no som das folhas outonais, ou na chegada dos pássaros na primavera? E por que não divulgar esses temas nas vozes de quem melhor os compreende? Como por exemplo, transmitir o monólogo de um chefe indígena, na íntegra, com seus silêncios calculados e deliberados (...) Vire de cabeça para baixo todo o modelo de radiodifusão e você se surpreenderá como as ideias surgirão de dentro de você (Idem, p. 245).

No Brasil, um rádio radical não encontra abrigo nas emissoras comerciais. Salvo raras exceções, a programação padrão das nossas emissoras FMs12 está balizada na execução de música, informação e serviço. Além disso, o rádio tomado pelas grandes gravadoras e pela busca incessante do lucro não está preocupado em estabelecer novas formas de escuta, pelo contrário, conforme já foi dito, as músicas são repetitivas e a locução dos DJs é enervante. Janete El Haouli (2000, p. 55) afirma que o rádio comercial impõe uma escuta pobre e estressante, sendo também um tipo de rádio voltado ao consumo voraz.

Imerso num sistema no qual se consomem expectativas e se comercializa progresso, um rádio “ágil”, “dinâmico”, um “rádio-de-ação”, parece ser a grande pedida para o imenso mercado de jovens clientes. Aqui é preciso lembrar que um rádio que se desenvolve em cima de novidades, de modismos, da urgência da contração do tempo, não estimula a atenção, nem valores de permanência, nem muito menos a crítica.

Mas é possível encontrar alguns exemplos de programas diferenciados em emissoras educativas e comunitárias. Arturo Merayo Pérez (2000, p. 12) considera que esses programas são necessários em uma rádio educativa para promover a experimentação e a inovação:

Existe la necesidad de explorar de forma continuada las posibilidades educativas del medio. Esta labor está directamente relacionada con la "experimentación sonora"con el fin de adquirir más elementos y

conocimientos acerca del lenguaje radiofónico. Además de los estudios abundantes acerca de audiencias, formatos y contenidos es preciso seguir investigando en el lenguaje y la expresividad propios del medio.

Desta forma, localizando nosso objeto de estudos, o programa Visagem, veiculado pela Rádio Cultura FM do Pará, entendemos o mesmo como um programa diferenciado que tem atuação na forma experimental de se fazer rádio, conforme veremos nos próximos capítulos. Antes, porém, propomos uma breve descrição sonora de Belém e das principais emissoras FM da cidade, como forma de melhor entender o local a que nos referimos no decorrer da tese.

In document The UK and Afghanistan (sider 65-71)