Adolescente é um ser humano em idade de controvérsias. Não é adulto, mas também não é mais criança. É uma fase humana de descobertas, individualismo e de aprendizado. O indivíduo, nesta fase, busca respostas para os fatos e o que eles geram em seu estado emocional. O que ocorre é um conjunto de mudanças hormonais provocadas pelo avanço de idade, aliada aos estímulos ambientais e que provocam alterações de comportamento.
Especialistas afirmam que a adolescência se inicia a partir dos 10 anos de idade. Com a necessidade de estar biologicamente ou fisicamente formado completamente, o ser humano deve ter, tanto para o aprendizado, como para o trabalho, capacidade mínima de compreensão e comunicação, o que é defeso pela lei e já foi exposto neste trabalho. Como exemplo, cita-se Spence (apud BIGGE, 1977), que discorre sobre a relação da linguagem com a aprendizagem e que “[...] achava que as palavras poderiam agir como estímulo e resposta, da mesma maneira que os objetivos físicos não verbais. Portanto, as palavras devem ser vistas como um tipo de estímulo e resposta humanos, mas diferem dos estímulos que produzem respostas”.
Isolando a idéia de Spence sobre estímulo e resposta, a questão ainda sem resposta pela ciência é justamente a idade em que o indivíduo pode desenvolver atividades consideradas de trabalho. Isso pode acontecer porque a avaliação individual mostra que algumas pessoas respondem a certos estímulos mais cedo ou mais tarde que outras e não apenas em função de seu desenvolvimento físico e mental, mas também por influência do meio em que vivem. Não obstante a idéia de que o estímulo neste caso pode ser a
linguagem falada e que, segundo o autor, não produzirá necessariamente respostas, é neste ponto que se inicia a dificuldade quanto ao aprendizado e o trabalho.
Ainda neste sentido, Hilgard (1973) já afirmava que:
A linguagem, do homem, é, talvez, o mais claro dos fatos emergentes que produzem progresso naquilo que pode ser aprendido. [...] A capacidade para a aprendizagem pode ter um significado quantitativo somente quando as diversas capacidades para a aprendizagem são identificadas e quando sabemos mais sobre os modos como essas capacidades são modificadas. [...] É evidente que há coisas a serem aprendidas que estão bem dentro da capacidade do homem mas que ele nunca adquirirá sem experiências anteriores adequadas. Sem instrumentos lingüísticos e matemáticos, por exemplo, há tipos de problemas que ele não pode resolver, não importa quanta inteligência nata ele tenha [...].
Para profissionalizar-se, principalmente num processo para adolescentes, é necessária a aprendizagem. Transportando a idéia de Hilgard ao ambiente de trabalho, é possível afirmar que, além dos requisitos físicos, as pessoas estarão prontas para o trabalho quando forem capazes de utilizar a linguagem para transmitir raciocínios lógicos como informações práticas. E, ainda, que tenha as experiências adequadas, que demanda tempo para serem adquiridas (aqui traduzido pela idade), e a capacidade mental para a absorção e compreensão dos novos conhecimentos que tais experiências podem proporcionar. A linguagem é prioritária e indispensável para a transmissão de todos os demais pré- requisitos.
Para a concretização do aprendizado deve-se considerar o conceito de Aguayo (1967), que afirmou que “Aprender não quer dizer estudar nos livros, nem ouvir lições orais, nem reter alguma coisa de memória (ainda que tudo isso possa ser parte de uma aprendizagem), mas adquirir nova forma de conduta ou modificar uma forma de conduta anterior”. A aprendizagem é algo maior que a simples aquisição de informações. Para efetivar o conhecimento deve haver alteração no comportamento humano.
Hamel e Prahalad (2005), numa contextualização da competitividade organizacional, afirmam que, tão importante como aprender é a capacidade de desaprender, dando conotação de genes defeituoso ou conhecimento que não serve mais para os novos propósitos da organização. Uma questão aqui é se o conhecimento antigo é descartado ou apenas deixa de ocupar um espaço nobre na intelectualidade do homem. De outro lado, a constância no aprender pode estar ligada à capacidade de desaprender, porque dele resulta um novo conhecimento que preencherá a lacuna deixada pelo conhecimento anterior (seja ele descartado ou depositado em arquivo mental secundário).
As afirmações de Aguayo e de Hamel e Prahalad mostram a comprovação do conhecimento adquirido em função da prática. Aguayo (1967) também faz menção à mudança, não apenas no comportamento exterior, mas também do processo mental, intelectual ou afetivo. Morrison (apud AGUAYO, 1967) reafirma a primeira definição com
relação à “mudança de atitude do indivíduo [...]” e, ainda, que a aprendizagem verdadeira é uma aquisição permanente. Neste ponto ocorre um contraste entre a afirmação de Morrison e a de Hamel e Prahalad. A questão é que, se ao ocorrer a aprendizagem, ela se torna permanente, não será possível “desaprender” para aprender novos conhecimentos.
A idéia de Morrison apud Aguayo (1967) foi questionada desde o princípio e segundo Aguayo (1967), existem conhecimentos que mudam tanto a atitude das pessoas, que não serão completamente esquecidos, mas que “[...] por efeito do desuso e por inibições patológicas, os produtos da aprendizagem podem enfraquecer-se, anquilosar-se e até desvanecer-se inteiramente”. Então, justifica-se a afirmação de Hamel e Prahalad, que têm visão de estratégias competitivas e contemplam o processo de aprendizagem dentro das organizações como contínuo. Resta aqui descobrir como será o desaprender e o aprender com a aprendizagem de adolescentes nas organizações empresariais.
Considerando o resultado do processo de aprendizado organizacional como parte da educação do indivíduo, as empresas podem, por vezes, questionar o reflexo deste “investimento” em sua lucratividade. Este é um cálculo ainda inexistente e a qualificação não garante produtividade para as organizações empresariais, já que é apenas um dos elementos da produção e, ainda, depende de fatores intrínsecos dos indivíduos, como a motivação.
Para Novaes, não é possível calcular o valor da educação refletida nos resultados organizacionais, e a soma material ou crescimento do negócio não está diretamente vinculada à educação ou à qualidade de aprendizado proporcionado por uma entidade. Sob este ponto de vista, Novaes (1970) afirma:
O resultado ou “produto” da educação é muito difícil de ser apreciado, quer em relação ao indivíduo, quer em relação à coletividade. Avaliar o resultado da educação só pode ser feito de maneira empírica e por critérios pessoais. Isso impede que se apliquem os métodos de avaliação de eficiência empresarial às atividades das entidades educacionais. Esses métodos servem para verificar se o patrimônio material aumentou ou não, como a entidade se comporta como um “negócio”, mas isso nada tem a ver com sua eficiência educativa.
A mesma situação exposta, com relação às entidades educacionais, pode ser transportada para as empresas, hoje obrigadas a fazer o papel de entidades de educação técnico-profissional. Este processo faz parte da educação dos indivíduos e do desenvolvimento da aprendizagem organizacional. No entanto, as empresas ainda não têm a resposta sobre quanto irão ganhar sobre este investimento, ou se será apenas mais uma despesa.
De outro lado, ao pensar em educação como conceito maior que o de aprendizagem, entra-se num contexto ético em que Novaes (1970) afirma que “supor que toda educação existe em função de uma demanda de trabalho qualificado é uma
simplificação inadmissível [...]. Uma educação única e exclusivamente de fins mercantis seria, instintivamente, condenável”. A educação propicia ao ser humano sua formação total: ética, cultural, social, cidadã, profissional, de caráter etc. Não é simplesmente um processo de aprendizagem de conhecimentos específicos, mas é a aprendizagem contínua (no cotidiano da vida humana).
Com esta colocação é possível compreender porque a legislação e as autoridades cuidam do processo de aprendizagem de adolescente. Ao contrário, poderiam ser condenados pela sociedade. Mais uma vez, então, uma contradição entre os interesses das empresas e os da sociedade.
A aprendizagem dos adolescentes deve ocorrer como parte da sua educação e como tal não pode ter caráter mercantil. Deve ensinar para a cidadania que conjuga, do individuo, seu caráter profissional, psicológico, social, econômico (na dimensão de aprendiz em idade adolescente). A educação deve ser para o ser humano e não para o comércio, apesar da grande utilidade mercantilista.
O texto da CEPAL - Comisión Económica para América Latina y el Caribe (1992) se refere à competitividade empresarial que pode ser alcançada com o conhecimento organizacional e ainda apresenta a forma de community colleges para a profissionalização nos Estados Unidos, como segue:
Ahora, en cambio, las empresas están adoptando nuevos modos de organización que exigen de su personal, en particular de los ocupados en tareas directas de producción – anteriormente definidos como puestos de bajas calificaciones -, un grado de instrucción mucho más alto. Se ha llegado pues a considerar que el grado de instrucción de la mano de obra de un país es factor importante de su competitividad [...] La capacitación técnica en los Estados Unidos se proporciona habitualmente dentro del sistema de educación formal, a través de una extensa red de community colleges, que otorgan, después de la secundaria, una formación de los años. No existen estructuras de capacitación de tipo dual, en que el educando alterne entre la escuela y la empresa, como ocurre en muchos países europeos. Aunque la formación impartida por los community colleges incluye períodos de práctica en empresas, éstas cumplen un papel subsidiario, de apoyo, y el establecimiento escolar conserva toda la autonomía pedagógica.
O modelo explicitado pela CEPAL não é, portanto, o adotado pela Lei de Aprendizagem Adolescente no Brasil, mas este se parece sim com o modelo europeu citado no mesmo texto. Há uma alternância no processo de aprendizagem, entre o ambiente escolar, o ambiente empresarial e ainda um terceiro elemento, que é o formador teórico- técnico, neste caso representado pela Universidade, em parceria com uma entidade filantrópica.
Ainda é possível analisar neste texto o que é de interesse da organização, o caráter de evolução competitiva, dado a partir da instrução de seu grupo de trabalho. E, um detalhe importante é que o texto destaca a mão-de-obra operária e não os níveis estratégicos das empresas. Esse é um indicativo de que as organizações necessitam buscar
o equilíbrio do conhecimento organizacional entre os diferentes níveis hierárquicos e isso irá atingir diretamente a visão que se tem sobre a aprendizagem nas empresas, tratando-a como necessária ao todo e não em partes.