• No results found

Simulation Case 1 - A premixed hydrogen-air explosion in a vertical rectangular chamber :

4.2 Simulation setup

4.2.1 KFX-EXSIM

Há compostos que apresentam uma estrutura no âmbito da fraseologia da língua, são as chamadas de lexias complexas (Pottier, 1970). A estrutura interna desses compostos, principalmente aquelas com estruturas de orações relativas, como giz de cera, copo de leite, barco de pesca etc, apresenta uma configuração sintática quase sempre construída com base no núcleo, com exceção dos compostos coordenativos, conforme podem ser observados abaixo:

AP A NP

N

Susu korson ‘mau caráter’

susu korson A V V PP Prep NP N Pasa ku mon ‘abusar’

pasa ku

129

A sintaxe, por sua vez, gera as frases da língua. Esse

compartilhamento de traços estruturais dos grupos sintáticos e dos compostos resulta em confusão de identificação entre eles, ou seja, entre o que é um grupo sintático e o que é um item lexical, uma vez que, quando descontextualizados, apresentam a mesma estruturação sintagmática. Porém, em uma situação de fala, não apresentam dúvidas de significado ou percepção de estrutura para o falante. Por exemplo:

p o r tu g u ê s

- copo de leite (flor) e copo de leite (copo com leite)

(Co l h e r c o p o -d e - l e i t e ) e (B e b e r u m c o p o d e l e i t e20) g u i n e e n s e

- donakasa ' p ri m e i r a m u l h e r d o p o l í g a m o ’ e dona kasa ‘ p r o p ri e t á ri a ’

(kuma k u b u d o n a k a s a c o ma d u ? ) e (K u m a k u d o n a k a s a c o m a d u ? ) ‘ Co m o s e c h a m a s u a p ri m e i ra m u l h e r? ’ ‘ Co m o s e c h am a a d o n a d a c a s a ? ’

Nos exemplos acima, o falante deduz os valores semânticos e morfológicos da composição como um item lexical e configura o processamento dos itens na estrutura da sentença, conforme seu valor discursivo.

Segundo Roth (s.d.,p.75) “a avaliação de diferentes critérios – fonéticos, morfossintáticos e semânticos – faz com que o conceito de composição seja discutido”. No âmbito da formação das palavras a interpenetração dos componentes gramaticais é bastante aparente e nem sempre é possível uma distinção rígida entre os campos de cada um dos componentes. Ainda assim, alguns critérios podem ser utilizados para distinguir lexias complexas das composições. As lexias complexas, nos domínios da fraseologia, são formações sintagmáticas eventuais, enquanto as composições são formações

20 O exemplo se refere à fala, quando o hífen não marca a diferença.

N VP V SN Beija- for beija flor N NP N PP Prep NP N

Kusa di minjer ‘vagina’

kusa di

130

fixas que se estabeleceram na língua como signo, o que as caracteriza como lexemas. Sandmann (1977, p. 33 e 34) argumenta a favor da semântica como o melhor dos critérios de identificação na distinção dessas construções. Para ele, as composições “são entidades estabelecidas em nossa cultura, como que esteriotipadas, com nomes permanentes” (Sandmann, 1997, p. 33). As lexias complexas, que ele chama de “grupo sintático paralelo” “são sintagmas da frase produzidos ad hoc” e que outros lexemas podem ocupar a posição dos componentes do grupo a qualquer o momento, o que vai gerar outros grupos com a mesma estrutura sintática e uma relação semântica entre o grupo novo e o antigo. Talvez fosse melhor falar em distribuição paradigmática dessas lexias. Observe-se os exemplos abaixo.

p o r tu g u ê s - tênis de mesa - tênis de campo - tênis de dupla g u i n e e n s e fison fradi ‘ t i p o d e f e i j ã o ’ fison kongo ‘ t i p o d e f e i j ã o ’ fison mankaña ‘ t i p o d e f e i j ã o ’

Nota-se que a distribuição obedece uma relação paradigmática e há uma relação semântica entre eles, uma vez que o núcleo semântico e sintático é sempre o mesmo, porém o especificador altera a semântica da lexia complexa. Há uma tendência à relação de composicionalidade entre os constituintes, embora não seja uma característica constante, como se pode notar abaixo.

p o r tu g u ê s

- Casa de chá - Casa da sogra - Casa da mãe joana

g u i n e e n s e - Kau di sinta ‘ a s s e n t o ’ l o c a l ’ ‘ s e n t a r’ ( l i t e ra l ) - kau di lama ‘ l a m a ç a l ’ ‘ l o c a l ’ ‘ l a m a ’ (l i t e ra l ) - kau di cur ‘l u g a r d e p r e s t a r c o n d o l ê n c i a s , ve l ó ri o ’ ‘l o c a l ’ ‘ c h o ra r’ (l i t e ra l )

Sintaticamente, compostos e grupos sintáticos ocupam os mesmos espaços funcionais na estrutura frasal.

131

isto é, dois ou mais vocábulos formais associados intimamente na sentença” e que seriam distintos pelo fato de a justaposição não poder ser suprimida de nenhum dos componentes, enquanto essa supressão é permitida nas locuções.

Para Monteiro (2002, p. 184 e 185) o critério de Câmara não é válido pelo fato de muitas locuções apresentarem uma ordem fixada na língua. Para esse autor, o problema está em se interpretar a composição como mecanismo da morfologia, pois, para ele, “na maioria das situações, tem-se um processo de natureza sintático-semântica”. Monteiro se refere à estruturação e ao comportamento sintático dos componentes, como o uso de substantivo e adjetivo que requer a concordância nominal. Monteiro, porém, considera o aspecto semântico determinante na distinção entre eles, pois quando traduz um conceito único, uma só unidade semântica pode ser considerada como um sintagma fixo.

Diante da discussão acerca dos grupos sintáticos (Sandmann, 1997), locuções (Câmara, 1970) e lexias complexas (Pottier, 1970), a questão que emerge é a distinção de composição no âmbito da morfologia, a partir da qual foram selecionados os dados de análise do guineense.

Duas características básicas dos compostos surgem dos argumentos discutidos acima: i) semelhança com os processos sintáticos; ii) estrutura de constituintes, cuja construção frasal determina a realização do composto.

Embora a inter-relação entre sintaxe, semântica e morfologia seja bastante marcada nos compostos, quando se observa os traços morfológicos nas composições do guineense, assim como nas línguas em geral, é possível apontar mais alguns traços característicos que os colocam nos domínios da morfologia. A saber:

i. Lexicalização – há com postos (e grupos sintáticos) que se encontram lexicalizados na língua e sujeitos a m ovim entos sem ânticos que podem levar à não com posicionalidade, com o em

- susu bariga ‘m a u -c a r á t e r ’

‘ s u j o ’ ‘ b a rri g a ’ (l i t e ra l )

ii. Não referencialidade do elem ento que se constitui com o não-núcleo na estrutura com posta – os elem entos que não têm função de núcleo do

132 constituinte se apresentam sem pre com a função atributiva e sem referencialidade específica:

a) [ [ J ú n i o r ] [ a r r u m o u u m a m i g o c a c h o r r o ] ]

b ) [ [ J ú n i o r ] [ a r r u m o u u m [ a m i g o c a c h o r r o ] ] ]

No exem plo (a), cachorro se refere a um a entidade específica, diferentem ente de (b), que não tem referência específ ica.

iii. Integridade lexical, que não perm ite processos sintáticos nos constituintes, m as na íntegra do com posto, um a vez que seu com portam ento sintático não difere do com portam ento de um a palavra da língua.

A distinção com base no significado dos grupos sintáticos em relação às composições pode obscurecer o estatuto lexicológico das formações. No

Dicionário do Guineense (Scantamburlo, 2002, p. 311 e 312) muitas entradas

são, claramente, grupos sintáticos: - koba di guja ‘ b u ra c o d e a g u l h a ’ ‘ b u ra c o ’ ‘ a g u l h a ’ ( l i t r e r a l )

- Koba di naris ‘fossa nasal’ ‘b u r a c o ’ ‘ n a r i z’ (l i t e ra l )

Embora o autor destaque essas entradas com marca gramatical de ‘lexia complexa’, a inclusão dessas lexias como entrada não é justificada, dada a característica semântica de sua composicionalidade.

Katamba (1993, p.297) faz uma hierarquização da composionalidade começando pelos itens mais baixos da hierarquia lingüística até os constituintes mais altos da hierarquia estrutural, a saber: morfema > palavra > compostos > frase > sentença. Para ele, quanto mais alto na distribuição hierárquica, maior a carga composicional dos constituintes. Os compostos, considerados com um item lexical, e os grupos sintáticos estão posicionados em uma situação intermediária, entre o morfema e a sentença. Esse posicionamento aponta para a condição, por vezes, distribuída em ambos os campos, composicional e não composicional, dada a linha do continuum entre eles. Tanto que, gramaticalmente, isto é, dos pontos de vista sintático, fonológico e morfológico a distinção de composto e grupo sintático é obscurecida.

133

Embora ambos (compostos e grupo sintático) tenham a mesma estrutura sintática, não foram gerados no mesmo componente, o grupo sintático foi gerado na sintaxe e o composto, no componente lexical. Porém, em uma análise descontextualizada, a semelhança estrutural encobre uma distinção mais aparente entre eles.

Considerando que a sintaxe gerou o grupo sintático, ela somente vai ter acesso à estrutura interna deste grupo, sendo “cega” à estrutura interna do composto. Este fato aponta para a noção de hierarquização de composicionalidade de Katamba nos componentes da gramática (1993, p.297), pois, quanto mais baixo na escala, maior a rigidez componencial. Da mesma forma, é possível observar que quanto mais alto na escala gramatical, mais flexível para os processos sintáticos. Essa distinção pode, inclusive, determinar uma separação no componente sintático e morfológico, estando o componente morfossintático posicionado em um campo fronteiriço entre eles. Quando um fenômeno lingüístico está interagindo no componente morfossintático, as características de ambos estão aparentes, o que gera problemas de análise e conceituação.

Se o tratamento sintático dado a cada um deles é diferente, como é articulada tal diferença na sintaxe? Como isso acontece? Mesmo depois de gerada no componente sintático, a sintaxe terá acesso à estrutura interna da estrutura frasal. Já o lexema, uma vez acionada uma regra do componente lexical, o output da regra é inacessível a movimentos sintáticos nas bases de sua estrutura, somente no âmbito da frase. Isso quer dizer que, ao assumir a função de constituintes em sentenças, o composto estará protegido estruturalmente por sua integridade léxica. Seu tratamento pela sintaxe será o mesmo de qualquer palavra da língua, independentemente da constituição morfológica de sua estrutura. É a chamada integridade lexical, cujo comportamento gramatical prediz que formações compostas, simples ou derivadas são tratadas como indivisíveis pela regras da sintaxe. Nesse conjunto incluem-se também as expressões idiomáticas, pois as “ palavras tendem a ser referencialmente opacas, com isso, é impossível enxergar dentro delas ou fazer referência às suas partes” (Spencer, 1993, p. 42). Essa propriedade das palavras faz com que sejam chamadas de 'ilhas anafóricas (anaphoric island)', cujo mecanismo não permite que regras sintáticas se apliquem a partes separadas das palavras, ou seja, não se

134

pode referir, em uma retomada anafórica, a parte de uma palavra composta, mas ao seu todo, como se pode notar nos exemplos abaixo.

- [ [ K a u d i s i n t a ]i i p u k u , ii l u n j u ]

‘ A s s e n t o s s ã o p o u c o s , e l e s e s t ã o l o n g e ’

- [ K a ui d i j u g u i l u n j u , ii t e n k o b a d i i r a n s e g u]

‘ L o c a l d o j o g o é l o n g e , e l e t e m b u ra c o d e i ra n s e g u21’

As noções de integridade lexical e de ilha anafórica trazem uma leitura mais gramatical, com base em uma restrição marcada nos princípios das línguas para diferenciar grupo sintático de composição. Este é o ponto que marca a distinção entre grupo sintático e composição neste trabalho e o critério para a seleção dos dados analisados. Assim, inclui-se no âmbito das composições guineeses as frases relativas com as características das composições citadas acima, sobretudo pela integridade lexical desses dados. A predileção por esse critério não invalida a importância dos critérios semântico e morfológico na delimitação dos vocábulos.

Há autores que estabelecem subclassificações com base na possibilidade de flexão dos elementos constituintes dos compostos. Monteiro (1986) considera como verdadeiros compostos portugueses aqueles que admitem a marca do plural somente no último elemento da composição. Lee (1997) distingue compostos lexicais e pós-lexicais, em um padrão teórico estabelecido na Morfologia Lexical. Para Lee, os pós-lexicais, formados no componente pós-lexical, têm a característica de serem sintaticamente transparentes por permitirem processos de flexão, derivação e concordância. Por outro lado, os lexicais, formados no componente lexical, são sintaticamente opacos, isto é, não admitem flexão, derivação ou concordância em seus constituintes. Lee teve como base o trabalho de Di Sciullo & W illiams (1987), que distinguiram os compostos em objetos morfológicos e palavras sintáticas. Os objetos morfológicos têm comportamento sintático de palavra, mas são sintaticamente opacos. Já as palavras sintáticas apresentam transparência sintática entre os constituintes. Essa transparência não interfere na funcionalidade como um constituinte na construção sentencial.

A Gramática Tradicional, por sua vez, utiliza critérios fonológicos e

135

divide a composição em aglutinação e justaposição. Na aglutinação há supressão de fonemas de um dos elementos, ao passo que, na justaposição, os elementos constituintes se mantêm intactos na formação composta. Talvez o critério utilizado na descrição fonológica dos compostos esteja mais ligado à diacronia, pois, sabe-se que as palavras sofrem desgastes fonéticos ao longo de sua história na língua. A própria GT costuma usar com freqüência o exemplo de filho de algo, que passou, com o tempo e o uso, a ser fidalgo e aguardente, que foi água ardente, em tempos remotos da língua. Cabe questionar se, sincronicamente, essas composições (ainda) existem na mente do falante, ou se ele as interpreta como uma forma simples. Essa discussão será retomada em 5.1.4. Outra questão a ser levantada no tratamento da GT é a utilização de processos que acontecem na fonologia para a caracterização morfológica dos compostos, que é o caso da aglutinação e da justaposição.

As subclassificações de Monteiro (2002) Lee (1997) e Di Sciullo & W illiams (1987) não são aplicáveis aos dados do guineense, pois a flexão não é um processo produtivo, tampouco regular no crioulo. Quanto à divisão entre aglutinação e justaposição da GT, não é relevante para este trabalho, pois, a descrição tradicional se baseia nos contextos de língua escrita, o que também não é parte da realidade lingüística do crioulo da Guiné-Bissau.

Basílio (1987) declara que a composição apresenta função semântica de designação “que utiliza a estrutura sintática para fins de criação lexical” (Basílio, 1987, p.34) realizada por meio da combinação do significado de duas palavras “(...) onde se revela nitidamente a importância metafórica na engrenagem da criação lexical” (id.). Assim, a base para classificação das composições do guineense partiu da observação das formações que claramente apresentam a função denominativa, formada por duas ou mais entradas fundidas em uma única entrada lexical para o falante e com comportamento de uma palavra na construção das sentenças guineenses.