• No results found

gas-air explosion in a test rig representing an offshore process module at a realistic scale

De acordo com Mattoso Câmara, o processo de flexão, ou de flectir, significa “fazer variar um vocábulo para nele expressar dadas categorias gramaticais” (Câmara, 1986, p.117). Para Crystal (1985, p.111), a flexão é considerada como “uma das principais categorias ou processo de formação de palavras; o outro processo é o de derivação”. Nas definições acima, é possível observar que nem sempre o processo de flexão é considerado como um processo formador palavras. Para Câmara, as formas flexionadas consistem em formas diferentes de uma mesma palavra que flectiu ou

165

dobrou-se para expressar diferentes categorias gramaticais. Por sua vez, Crystal, no tratamento da flexão como um processo de formação de palavras, juntamente com a derivação, está considerando formas flexionadas como palavras diferentes, e não como diferentes formas de uma mesma palavra. O autor diferencia os processos de derivação e flexão indicando os afixos flexionais como marcadores de relações gramaticais, por exemplo, o tempo verbal, o plural, o feminino etc, e a constituição de paradigma nas palavras flexionadas. Cristal aponta também para o fato de estes não alterarem a classe gramatical. Os dois últimos argumentos (da constituição de paradigma e da mudança da classe gramatical) estabelecem uma incisão entre os processos de derivação e de flexão, ao mesmo tempo em que marcam um ponto onde as alegações de Câmara e Crystal se encontram.

A distinção entre flexão e derivação data de tempos remotos, Varrão (116-27 a.C.) (cf. 4.1) decompôs o problema da separação em termos cognitivos, com a derivação sujeita à vontade do falante, que ele chamou de

derivatio voluntaria e a flexão imposta pelos padrões sintáticos, chamada de derivatio naturalis. Dessa forma, a derivação depende da vontade do falante

e a flexão está marcada na distinção gramatical, independentemente da vontade do falante. Ela é acionada pelas articulações gramaticais da língua. Teoricamente essa distinção traz a vantagem da generalização e impõe limites fronteiriços bastante rijos entre os processos. Na prática, porém, nem sempre resiste à análise com base em dados. No caso do português, podem- se esquematizar as diferenças da seguinte forma:

Flexão Derivação

- Derivatio Naturalis - Derivatio Voluntaria - Emprega a mesma palavra - Forma uma nova palavra

- Paradigma coeso, regularidade - Não tem paradigma, irregularidade

A regularidade do processo supõe que todos os itens lexicais sujeitos à flexão tem sua forma flexionada, de maneira regular e sistemática. Por exemplo, para cada substantivo masculino, a regularidade prevê a forma flexionada feminina. Seguindo o mesmo princípio, cada forma verbal tem a sua forma flexionada em número, pessoa, tempo e modo. No caso dos substantivos e adjetivos, a regularidade prevê que suas formas flexionadas sejam formas diferentes de uma mesma palavra e que todos apresentem as formas em número, gênero e grau. Porém, há a existência de lacunas, o que

166

fere a noção de paradigma. Rocha (1999, p. 196) declara que no português “apenas uma parte insignificante dos substantivos podem receber a marca morfológica distintiva de gênero”, 95% dos substantivos são seres não- sexuados e apenas 4,5% são sexuados e ainda assim, nem todos recebem a marca do feminino, como: jacaré, homem, selvagem (exemplos em Rocha). Essa discussão do gênero na morfologia tem a ver com a distinção maior entre gênero e sexo. Enquanto o sexo é uma característica dos seres do mundo, o gênero é uma propriedade formal dos nomes na língua. Embora essas propriedades coexistam no português, nem sempre são coincidentes, por exemplo, nos chamados “sobrecomuns” como em a testemunha, que pode ser alguém do sexo masculino, ainda nos epicenos, como o gavião, que pode ser um espécime feminino.

Para o estruturalismo, a idéia da oposição formal entre a marca de gênero [a] marcada no gênero feminino em oposição ao masculino não- marcado, reprepresenta uma oposição relevante à noção de sistema. É o jogo de relações, quando um elemento tem seu valor no sistema pelo jogo de oposições: um é tudo aquilo que o outro não é. Porém, essa oposição não se aplica sistematicamente no português e inexiste no guineense. Tampouco pode ser usado esse argumento para distinguir flexão e derivação, dado que a sistematicidade e a oposição não se confirmam.

Há autores como Bechara (1999), Azeredo, (2000) e Sandmann (1997) que consideram a marca do feminino [a] como sufixo derivacional nos substantivos, porém nos adjetivos, essa marca continua um sufixo flexional. Para esses autores, se galo e gala são duas palavras diferentes na língua, não podem ser consideradas como formas diferentes de uma mesma palavra. Nessa generalização, estão incluídas também gato e gata, galo e galinha etc. Mas o argumento principal reside no fato da flexão nos substantivos não ser um processo regular, e a regularidade é uma marca da flexão em oposição à derivação. A iregularidade pode ser notada nos exemplos abaixo.

l i x o # l i x a p o l í t i c o # p o l í t i c a b o l s o # b o l s a m a t o # m a t a b a r r a c o # b a r r a c a

167

Ainda em relação à regularidade, sabe-se da existência das lacunas verbais, nos verbos chamados defectivos, o que representa contra-exemplos na regularidade flexional dos verbos.

No caso do grau, a regularidade prevê o seguinte: dado um substantivo ou adjetivo é possível prever o diminutivo e o aumentativo. Porém, a carga discursiva do emprego de ambos nos substantivos é relevante para afirmação de que se trata de derivatio naturalis, pois, pode ocorrer uma sobreposição semântica da noção de diminutivo ou aumentativo,

como se pode notar em filho filhinho, pé pezão, grande grandinho,

abóbora abobrinha, exemplificados abaixo.

M e u f i l h i n h o p a s s o u n o v e s t i b u l a r . T i r a e s s e p e z ã o d o s o f á !

V o c ê e s t á f i c a n d o g r a n d i n h o p a r a u s a r f r a l d a s . U m a a b o b r i n h a g r a n d e , g r a n d e , g r a n d e .

Nos exemplos acima, a noção de intensidade ou tamanho está subordinada a uma relação de cooperatividade mútua entre o falante e seu interlocutor. Isso implica um significado que vai além da noção de tamanho nos sufixos aumentativo e diminutivo. Essa cooperatividade, que permite que interlocutor e ouvinte interpretem a conteúdo semântico além da carga literal, está no âmbito da pragmática. Essa noção não pode ser considerada como marcada nos padrões sintáticos, como derivatio naturalis, mas sim como derivatio voluntaria, uma vez que a interatividade e intencionalidade do falante estão presentes na articulação da regra. Assim, se acionada de forma voluntária, resultando uma outra forma da palavra com uma semântica diferente da primeira, porém, com traços semânticos aparentados, então é possível afirmar que se trata de um processo de derivação.