3.2 Accelerometer measurements
3.2.2 Exposure to more dynamic movements
A carreira de Saramago como um todo é intensamente pesquisada em Portugal e no Brasil, como atestam os vários artigos, teses e livros publicados sobre sua obra literária. Para uma melhor apreciação de AMRR, procedemos um levantamento do que foi escrito sobre este romance, guiando-nos principalmente pelo portal de teses da Capes28. Este, em acesso no dia 23 de julho de 2012, constou 30 entradas para teses e dissertações sob a pesquisa “saramago ano da morte de ricardo reis”; contudo, duas dessas entradas são idênticas, totalizando apenas 29.
Através dos resumos fornecidos pelos próprios autores é possivel realizar um levantamento das formas de abordagem do romance, que serão consideradas em dois grandes grupos: Leituras Focadas na Forma e Leituras Focadas no Conteúdo29; vale notar que há trabalhos multifacetados, onde várias partes correspondem a diferentes abordagens, bem como trabalhos onde as formas de encarar o texto apresentam-se fundidas, dificultando uma categorização rígida entre uma das duas classificações. Assim, o mesmo trabalho pode ser contemplado sobre diferentes aspectos.
As Leituras Focadas na Forma (totalizando dezenove), baseiam-se principalmente nos aspectos formais da narrativa, buscando um maior entendimento dos processos pelos quais a obra foi composta, com especial destaque à construção do narrador (duas abordagens), da personagem (onze abordagens) e do discurso intertextual (onze abordagens). A majoritária predominância do interesse pela personagem e pelo intertexto saramaguianos é um indício de o quão fortemente esses assuntos inserem-se não apenas no romance mas no discurso atual da crítica. São vários os pensadores que identificam na segunda metade do século XX uma radical mudança do
28 Disponivel em http://capesdw.capes.gov.br/capesdw/.
29 A discussão entre forma e conteúdo na literatura é extensa e capaz de levar à vários
desdobramentos. Estes termos serão usados aqui num sentido mais intuitivo, apenas para melhor esclarecer as diferenças entre as várias leituras do romance a que nos propomos discutir.
Zeitgeist30 do mundo ocidental, a que comumente se costuma chamar pós- modernidade. Entre outras mudanças, a radical transformação das idéias de indivíduo e discurso marcaram fortemente as artes. O homem anterior ao terceiro quartel do século XX esgotou suas possibilidades de grandes narrativas no momento em que abandonou a crença em discursos monológicos; assim, a arte na pós-modernidade conhece, antes de tudo, antinarrativas, histórias de pequenos gestos e sobrevivências em um cosmo de anarquia e mudança constantes. Ao que David Harvey considera como uma das respostas à compressão do tempo-espaço, a pós-modernidade responde com “a construção de uma linguagem e de imagens capaz de espelhá-la e, quem sabe, dominá-la”(HARVEY, 1989, p.316). Assim, entende-se que a crítica atual estude com tanto afinco em O ano da morte de Ricardo Reis tanto a personagem com uma história tão aparentemente prosaica quanto a linguagem fortemente carregada de intertextos que fundem e chamam para dentro de suas páginas parte de todo o universo da escrita.
Quanto às Leituras Focadas no Conteúdo (dezesseis ao todo31), suas principais abordagens são as mitopoéticas (duas), ideológicas (três) e históricas (onze); dentre estas últimas apenas três debruçam-se na comparação entre O ano da morte de Ricardo Reis e outro romance histórico, ao passo que todas as outras nove tem como tema central o que Eula Carvalho Pinheiro chama de “discurso metaficcional historiográfico”, tentando, assim, desvendar a transformação do que aparece ora como “real”, ora como “história”, ora como “discurso historiográfico” em ficção.
Antônio R. Esteves enxerga as relações entre história e literatura como sendo bastante difusas e sem fronteiras muito bem delimitadas por um longo período de tempo:
Basta um passeio pela historiografia ou pela história da literatura para se confirmar que a literatura e a história sempre caminharam lado a lado. Até quando parecia que o conflito era sério, era questão de
30 Termo alemão que indica o “espírito de uma época”, ou seja, as semelhanças na
forma de pensar de uma determinada época ou segmento.
31 Lembrando que há vários trabalhos que servem a ambos os propósitos. Logo, a soma
do total de abordagens de uma Leitura (dezenove) com a outra (dezesseis) resultará em um número maior do que o total de trabalhos informados pelo site da Capes (vinte e nove).
pouca monta: questão de aparência, pode-se dizer. Houve muitos períodos em que o discurso literário e o discurso histórico se misturavam. Então ficava muito difícil saber quem era quem. E nem tinha tanta importância. Embora Aristóteles tenha estabelecido que cabe ao historiador tratar daquilo que realmente aconteceu, e ao literato, daquilo que poderia ter acontecido, ficando o primeiro circunscrito à verdade e o segundo à verossimilhança, foi apenas no século XIX que a separação entre ambos os discursos parece ter ocorrido de fato. E mesmo assim, tal divórcio nem sempre foi muito claro ou de longa duração. (ESTEVES, 2010, p. 18)
Com efeito, nasce do século XIX a ciência histórica. Comentando o pensamento de Hegel sobre o assunto, Márcia Valéria Zamboni Gobbi afirma que Hegel reconhece ao historiador o papel muito semelhante do literato de organizar as informações disponíveis. Porém,
Distingue-se, assim, a atividade do historiador e a do ficcionista em termos de criação: Hegel não admite qualquer intervenção do historiador na história, a não ser enquanto organizador (e pensamos, hoje, se esta atividade de organizar não é já uma intervenção significativa do sujeito na escrita da história). O historiador deve narrar o que existe, e tal como existe positivamente (incluindo aí as “acidentalidades” da história, o jogo da contingência e do acaso), sem interpretações arbitrárias ou deformações poéticas. (Gobbi, 2004, p. 42)
A partir desse ponto, é evidente uma tentativa de separar o discurso historiográfico, aquele que pretende identificar inequivocamente o real, do discurso literário, no qual o real é encenado através de um jogo entre o organizador dos fatos (autor) e aquele que deles tira sentido (leitor). Tal tentativa começou a enfraquecer a partir do século XX, quando pensadores pós-modernos voltaram a encarar a história como um construto linguístico (GOBBI, 2004, p.56).