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In document Blockhashing as a forensic method (sider 39-46)

No pensamento prospectivo de futuro nos chama a atenção, principalmente, o aspecto relacionado com a intuição, geralmente contestada como parte do processo. Mencionada por Mariano e Slaughter, essa capacidade e forma de percepção do futuro está presente nas atividades de pensar o futuro, quando admitido o método subjetivo, porém a intuição tem sido

68[...] Richard Slaughter has extensively critiqued the Western bias toward scientism, rationalism, materialism, and objectivism and how these biases severely constrict the approaches to the future within future studies. For Slaughter, the methods of futurists pre-suppose theories or paradigms regarding the nature of reality, which are often influenced by cultural beliefs and values. The Western theory of reality, as defined and described through science, enphasizes materialism and “outer reality” of external physical world. Also, Western science

focuses on rationality and empirical observations of external world (LOMBARDO, 2006, p. 135).

69Rather than trying to found their own legitmacy on mimicking the hard sciences with their solid methodologies and confident acess to objectivity, the human sciences are accepting their irreductible semiotic and therefore

negada enquanto forma de conhecimento numa metodologia que se pretende como objetiva. Interessa-nos em particular fazer um breve percurso sobre essa questão, já que acreditamos que, quando existe se pensa, se imagina o futuro, existe uma parcela, na criação do mesmo, relacionado a essa faculdade de percepção. Abordaremos esse aspecto de maneira mais sintética e não nos estenderemos no tocante à origem das premissas dentro do conhecimento científico, tanto como o que concerne à crença, justificativa, verdade e coerência, já que a dimensão de tais questões requer um desdobrar minucioso, que não caberia nesse trabalho. O que nos interessa é de alguma forma apontar algumas questões que serviram para defender determinados processos dentro da construção da ideia de futuro.

De acordo com Moser, Mulder e Trout em seu estudo sobre Teoria do Conhecimento, os epistemólogos se valem de intuições ou juízos para defender algumas de suas teorias, mas os mesmos alertam que a confiança que é depositada em nossas intuições deve ser corrigida a seguir, contraposta por considerações epistemológicas mais gerais e teóricas. O que os autores defendem é que “as intuições têm algo a nos dizer acerca das teorias, e as teorias têm algo a nos dizer acerca da validade das intuições” (MOSER; MULDER; TROUT, 2009, p. 25). A ideia de que o conhecimento deve ser baseado em provas - em “razões” que justifiquem de que é necessário que existam “indícios suficientes” para que uma proposição seja considerada verdadeira ou, em outras palavras, de que seriam necessárias “provas” para que as mesmas sejam consideradas verdadeiras - foi defendida por inúmeros filósofos ao longo do tempo, como Platão ou Kant (MOSER; MULDER; TROUT, 2009).

De alguma forma herdamos, no decorrer da história, a tradição filosófica que se apoia na combinação do pensamento racionalista – que dá ênfase ao papel da razão – e do pensamento empírico – que sublinham que todo conhecimento tem uma causa, para a formulação de questões relacionadas ao conhecimento. O Círculo de Viena, por exemplo, que teve seu sistema filosófico conhecido como “positivismo lógico”, defendia um princípio de verificação de significado. Seus participantes viam na figura de David Hume um de seus principais predecessores. Friedrich Weismann, um dos principais intérpretes de Wittegenstein no Círculo de Viena defendia: “Se não há como se ter certeza de que uma proposição é verdadeira, a proposição não tem sentido nenhum; pois o sentido de uma proposição é o seu método de verificação” (MOSER; MULDER; TROUT apud WEISMANN, 2009, p. 117).

Como é possível, no caso de uma posposição relacionada a “Estudos do Futuro”, haver algum método de verificação, um método de justificação ou confirmação a partir de acontecimentos ou situações observáveis, já que o mesmo está por vir? Não estaríamos mesmo lindando com a objetividade científica, no caso de uma projeção futurística, com o

apoio de uma proposição subjetiva na elaboração do mesmo? Não faria sentido que a intuição faça parte do processo de projetar, de fazer uma prospecção sobre o futuro? A postura de James Ogilvy para “Estudos do Futuro” nos coloca frente a uma postura com relação às ciências:

Ao mesmo tempo em que o estudo do futuro não se integra facilmente no contexto de um paradigma científico positivista, ele pode exercer um papel central dentre as ciências humanas, seguindo uma mudança de paradigma que se distancia do paradigma positivista e se aproxima de algo novo, algo que não tem nome, algo que pode ser mal descrito como um paradigma semiótico/existencial (SLAUGHTER, 1996, p. 33).70

O que Moser, Mulder e Trout no seu livro Teoria do Conhecimento nos falam é que os argumentos epistemológicos normalmente começam com “intuições”, aquilo que são palpites teóricos, crenças relativamente espontâneas, ainda não refinadas.

O uso das intuições é às vezes identificado com o senso comum, uma coletânea primitiva de crenças cuja verdade teria sido depreendida da observação casual. Ao contrário do que dizem alguns filósofos, a intuição, como o senso comum, é sabidamente dependente de teorias; as intuições que uma pessoa considera plausíveis podem, no geral, ser previstas a partir de teorias que ela esposa. [...] A intuição, como a linguagem comum, pode ser um bom partido para a investigação filosófica, mas não é o campo adequado para a decisão de questões teóricas importantes. Por isso, nenhuma opinião teórica complexa pode ser criticada por ser “contra-intuitiva” (MOSER; MULDER; TROUT apud WEISMANN, 2009, p. 121; 122).

O que deve ser notado acima é que a questão da aprovação ou não do uso da “intuição” vem sendo defendida por alguns, que também a consideram uma forma de conhecimento, ou refutada, podendo ser acatada ou não nos métodos científicos, como foi visto no caso específico de “Estudos do Futuro” os exemplos de Richard Slaughter e Wendell Bell.

Segundo Vieira, a intuição tem como característica o inesperado, sendo uma construção mental que aparece na consciência e se apresenta como insight, emergindo de súbito para o sujeito, porém, de alguma forma essa construção foi elaborada sistemicamente ao longo de algum tempo de forma inconsciente. Vieira explica como a intuição, muitas vezes negada por filósofos, que no seu lugar adotam o termo instinto, faz parte da função memória e, portanto, pode ser relacionada a uma forma de conhecimento. “Sabemos que, do ponto de

70While future studies could not sit easily in the context of a positivist scientific paradigm, it can play a central role among the human sciences following a paradigm shift away from the positivist paradigm toward something new, something that lacks a name, something that clumsily be described as a semiotic/existencial

vista sistêmico, instintos fazem parte de uma função memória, a nucleação gerenciadora de hábitos. Nesse sentido, a função memória talvez seja uma base comum tanto aos instintos, quanto à essa forma menos explícita de conhecimento” (VIEIRA, 2008b, p. 50).

Baseado em um artigo de José Maria Filardo Bassalo, O Papel das Intuições nas Descobertas e Inovações da Física, Vieira cita três formas de intuições:

ƒ intuições emotivas - “aquelas que resultam em idéias isoladas e que estão além da compreensão de quem as teve” (VIEIRA, 2008b, p. 54). Nesse sentido, a intuição traz uma inovação fora do paradigma vigente, que pode inclusive estar fora de sua época, que pode resultar em uma inovação e descoberta. Isso pode acontecer de forma isolada, mas não impede que outros pensadores também possam intuir as mesmas perspectivas (VIEIRA, 2008b).

ƒ intuições racionais – “aquelas que decorrem de trabalhos conscientes sobre determinado problema” (VIEIRA, 2008b, p. 54).

ƒ intuições volitivas – “aquelas que resultam de acidentes de trabalho de quem as teve e para as quais a atenção do criador não estava voltada” (VIEIRA, 2008b, p. 54). Nesse caso, a vontade é um alicerce básico no processo do criador, que termina por irromper o inesperado e o surgimento de novas idéias (VIEIRA, 2008b).

Charles Sanders Peirce foi um dos filósofos que atacou a “intuição cartesiana”, com golpes tanto a Descartes quanto ao empirismo inglês, já que a mesma no aspecto cognitivo requeria a existência de “ideias inatas” ou de “primeiros dados dos sentidos”. Para isso, adotou a concepção de “inferências inconscientes”, fora do nosso controle e que estão no âmago de nossa percepção. Peirce evidenciou no processo de formatação de inferências, no que diz respeito às primeiras conjecturas espontâneas, a noção de “instinto”, que se conectaria com a capacidade de escolher a explicação apropriada para determinada questão, sugerindo o que “pode ser” (SANTAELLA, 2004).

Nos últimos anos de sua vida, Peirce dedicou muitos escritos ao estudo do que nomeou “abdução”, os quais muitos ainda não foram publicados e dependem de pesquisadores dos mesmos para sua divulgação. Segundo o espanhol Jaime Nubiola, diretor do Grupo de Estudos Peirceanos da Universidade de Navarra, a abdução era tão importante para Peirce, que ele a relacionava como o processo central do próprio pragmatismo por ele criado. O termo abdução foi usado para referir-se ao processo de adoção de hipóteses e é explicado por Nubiola como:

A abdução é um tipo de interferência caracterizada pela probabilidade. A conclusão a que se chega através da abdução é conjectural, e portanto apenas provável, mas para o pesquisador a conclusão parece totalmente plausível. De acordo com os pensamentos já amadurecidos de Peirce a respeito dessa conclusão plausível, é nessa força intuitiva da abdução que reside sua validade: “A probabilidade em si não tem nada a ver com a validade da abdução, a não ser de forma dubiamente indireta” (CP 2.102.1903) (NUBIOLA, 2005, p. 122).71

O fenômeno da introdução de novas ideias no meio científico, segundo Peirce, não poderia ser explicado meramente por cálculos de probabilidades, mas por uma combinação de abdução, dedução e indução. A abdução se relacionaria com a própria criatividade e seria o ponto de partida de qualquer investigação. Muitos filósofos da ciência, em uma sociedade onde o materialismo é fator dominante, tendem a refutar o processo por busca de hipóteses, pois para eles o método científico começa quando a teoria pode ser refutada ou confirmada pela experiência. Essa atitude se dá por não admitir o processo criativo dentro da ciência e a reduzir a uma linguagem física ou de matemática algorítmica o processo de conhecimento (NUBIOLA, 2005).

Nesse sentido, Peirce se coloca como um teórico que prevê a correção do que chamamos intuições. Santaella assinala a validação de uma hipótese por Peirce:

A negação da intuição cartesiana significava assim que toda cognição é determinada por cognição prévia, sendo que a introdução de um novo termo é resultado de uma inferência hipotética. A hipótese é responsável pelos julgamentos perceptivos e pela introdução de premissas menores em geral. A introdução de uma afirmação universal, servindo como premissa maior, pode ser vista como resultado da indução, sendo que a dedução responde, então, pelas conclusões derivadas (SANTAELLA, 1992, p. 87).

Foi somente entre 1890 e 1900, que Peirce adota o termo “retrodução” ao que antes era chamado de hipótese, o que depois ele nomeou como abdução. A abdução foi então relacionada ao contexto da descoberta e os modos de inferência para investigação científica passaram a ter a sequência de abdução, dedução e indução. Peirce via na abdução a possibilidade de um exame de uma massa de fatos que permitiria que desses fatos surgisse uma teoria. Segundo Santaella, “o conceito é uma ideia revolucionária, polêmica e controversa para o contexto da história da filosofia da ciência, da Lógica e da própria

71Abduction is a kind of inference charactherized by probability. The conclusion reached by abduction is

conjectural, thus only probable, but the researcher the conclusion seems totally plausible. In Peirce’s mature thought this plausibility, this intuitive force of abduction, is where its validity resides: “probability proper had

nothing to do with the validity of Abduction, unless in a doubly indirect manner” (CP 2.102.1903) (NUBIOLA,

Filosofia” (SANTAELLA, 1992, p. 92). Essa forma poderosa de raciocínio pode ser incerta e limitada, mas ao mesmo tempo esse quase raciocínio é responsável por todas as descobertas.

Um dos pontos que chamaram atenção para Nubiola nos Collected Papers de Peirce é que existem cerca de 127 ocorrências da palavra surpresa (e termos relacionados), a maioria delas em textos depois de 1901. Para Peirce, a “surpresa” surge da quebra de um hábito, ela “rompe com alguns hábitos de crenças” (PEIRCE apud NUBIOLA, 2005, p. 124). Portanto, nossas atividades de pesquisa começam quando reconhecemos que nós tivemos algumas expectativas erradas, na qual talvez não estivéssemos conscientes de ter (NUBIOLA, 2005).

Sendo assim, seria justamente essa “lógica da surpresa”, certo teor de anomalia diante de fatos regulares, que movimenta uma necessidade de quebra de hábito e nos leva como pesquisadores a tentar encontrar novas explicações. Essa surpresa causa impacto em nossas “crenças e hábitos”, demandam, portanto, a aquisição de novos. A surpresa se apresenta como certa irritação que pede uma hipótese. Esse primeiro momento de busca, esse lampejo de racional, que tenta encontrar uma resposta para entender esses estímulos, seria nossa forma de inferência ainda desnuda de expectativas, seria uma tentativa de entender o fenômeno (NUBIOLA, 2005).

Esse processo inferencial vem em forma de insight e portanto é falível, mas nele reside a relação com a criatividade, com a subjetividade, e faz surgir uma nova contemplação. É como uma oportunidade que se descortina para a resolução de determinado problema. “Para Peirce, a explicação desse fenômeno de surpresa, da habilidade humana para escolher corretamente entre inumeráveis hipóteses, reside no fato “que a mente humana deve ter estado acostumada com a verdade das coisas para auxiliar na descoberta do que ela tem descoberto” (NUBIOLA apud PEIRCE, 2005, p. 124).

Santaella enfatiza a importância da teoria da abdução peirceana dentro das ciências cognitivas e como os argumentos abdutivos formulam tentativas de explicação para todas as situações na ciência. Ao mesmo tempo, a “invenção” dessas “hipóteses” (a abdução) está relacionada com o ato criativo, manifesto tanto na ciência como na arte.

Sendo o tipo mais frágil de argumento lógico, a abdução serve com perfeição às necessidades da arte, pois esta não tem nenhum compromisso com a verdade da ciência, produzindo uma verdade que lhe é própria, a pura verdade da ciência, a pura verdade do admirável e do sensível da razão. Embora tenha a forma de um argumento frágil, essa fragilidade é, paradoxalmente, tudo de que depende também a criação na ciência, nela repousando o processo subsequente da investigação. Trata- se, em síntese, do princípio gerativo de mutações da sensibilidade e para o crescimento do conhecimento. A despeito da fragilidade de sua forma lógica, é nela que reside a fundação de qualquer espécie de investigação, seja ela teórica, prática ou aplicada na ciência, na academia ou na vida cotidiana. [...] a abdução é o processo pelo qual brota, engendra-se uma hipótese ou conjectura. Esse processo ou raciocínio tem a forma de uma inferência lógica, isto é, de um argumento frágil, ao mesmo tempo em que nasce no flash de um insight. Uma inferência que é simultaneamente um insight. Eis o nó da questão (SANTAELLA, 2004, p.103; 104).

Desse modo, a teoria peirceana da abdução amortece a querela que existe em “Estudos do Futuro” de situar o campo ou como arte ou como ciência, já que a mesma nos aponta uma lógica racional que serve para ambos. Acreditamos, por conseguinte, que a matriz de “Estudos do Futuro” possui aspectos que ora envolvem traços intuitivos, criativos, imaginativos e subjetivos relacionados à arte (mas, também estão presentes na ciência), como também se valem de apoio em métodos que buscam rigor, códigos e objetividade. Vemos que as primeiras conjecturas de “Estudos do Futuro” se dão por abdução, que passam por uma avaliação, explicação através do método (dedução), que leva a um processo comprobatório (indução), para a seguir envolver novamente a abdução, para através desses resultados, imaginar cenários, criar imagens de futuro, enfim vislumbrar o porvir.

Enquanto pioneiros como Bell, Lasswell e Jouvenel viam “Estudos do Futuro” como fora do campo da ciência, devido a sua natureza, outros o defendem como primariamente científico, apoiado em métodos, ferramentas de pesquisa e técnicas. Outros futuristas como Coates e Water A. Hahn assumem uma posição intermediária, reconhecendo tanto fundamentos da arte como da ciência na formatação de uma prospecção futurística, o que seria admitir que existem outros pressupostos epistemológicos e compromissos que não são subjacentes a cada método (BELL, 2006). Em resumo:

[...] A consciência futura envolve mais do que apenas o entendimento científico e o raciocínio lógico. Na criação do futuro, as pessoas são influenciadas por ideias e visões inspiradoras. As imagens nos movem tanto quanto a razão. As pessoas são emocionais e intuitivas a respeito do futuro, assim como também são racionais e factuais (LOMBARDO, 2006b, p. 148).72

72[...] future consciousness involves more than just scientific understanding and logical reasoning. In the

creation of the future, people are influenced by inspirational visions and ideas. Images drive us much as

reasons. People are emotional and intuitive about the future as well as rational and factual (LOMBARDO,

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