• No results found

Experimental Results and Discussions

Ice Image Segmentation and Ice Floe Identification

6.3 Experimental Results and Discussions

A entrevista jornalística em Canal Livre pode ser definida como um conjunto multimodal, tendo em vista a presença dos seguintes elementos que participam da sua composição estrutural e de sentidos:

• Trilha incidental para destacar a vinheta de abertura do programa e a entrada dos blocos, após cada intervalo comercial.

• Fotografias de diversas personalidades do mundo político e artístico usadas na vinheta de abertura do programa.

• Divisão da tela da TV em dois enquadramentos: um deles sempre mostrando a imagem do entrevistado; o outro focalizando um dos entrevistadores, a depender do turno de fala.

• Música de fundo usada durante a apresentação inicial da entrevista, uma espécie de lide televisivo, porque mescla imagens e palavras lidas. • Reportagem de arquivo, um resumo, especialmente abordando como

se deu a vitória de Severino Cavalcanti sobre o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh na disputa pela presidência da Câmara.

• Trechos do Hino Nacional Brasileiro cantado por alguns deputados no término da reportagem de arquivo.

• Corte da câmera, quando da imagem em tela “cheia”, privilegiando a figura do entrevistado.

A entrevista em Canal Livre difere de Receita de Crescimento e de Operação Simpatia, entre outros fatores, pela presença da imagem em movimento. Os estudos feitos por Kress e van Leeuwen (1996) sobre a multimodalidade abordam mais o caso das imagens bidirecionais. Contudo, toda a extensão do oitavo capítulo de Readin Images refere-se à terceira dimensão, que pode ser analisada por meio de muitas das categorias aplicadas às imagens bidirecionais. Reitero que as imagens analisadas aqui funcionam como imagens paradas, pois só é possível captá-las desta forma. Quando me refiro à animação dessas imagens, apresento-as em seqüência, tentando, assim, sugerir alguns movimentos.

Em contraposição às entrevistas anteriores, em Canal Livre podemos “ler” a imagem de entrevistado e entrevistador enquanto a pergunta é formulada, ou seja, lemos o controle interacional no momento em que é produzido. Para tanto, um recurso utilizado na entrevista com Severino Cavalcanti é a divisão da tela da TV em dois enquadramentos, sendo um deles

sempre reservado para o entrevistado, como se pode observar nos exemplo (10a) e (10b) a seguir:

(10a) (10b)

Em (10b) tem-se, com clara evidência, a reação do entrevistador, com risos, à resposta dada pelo entrevistado. Se, em Carta Capital, os parênteses são usados para indicar, também, esses tipos de reação por parte dos interactantes, em Canal Livre o próprio telespectador lê e avalia a extensão de significado (de humor ou de sarcasmo), neste caso, do sorriso do Jornalista Fernando Mitre. O exemplo em (10b) captura um momento em que se debatia a Reforma Política. Na figura a seguir, tem-se o paralelo entre a pergunta de Mitre e a resposta de Severino Cavalcanti que causou o sorriso no entrevistador26:

Figura 6 Reação do jornalista Mitre à resposta de Severino Cavalcanti Fernando Mitre: (...) O Presidente Fernando Henrique sempre

defendeu a reforma política, mas quando assumiu o primeiro mandato já deixou para o Congresso. O Presidente Lula é a favor da Reforma Política, mas a coisa não anda. Com os deputados, a mesma coisa. Por que a Reforma Política não anda, embora haja tantos discursos bonitos a favor dela?

Severino Cavalcanti: Mas agora vai andar. A Câmara dos

Deputados tem o Severino na presidência. Então, com esse Severino vai modificar a maneira de proceder na Câmara dos Deputados (...).

26

A entrevista em Canal Livre foi transcrita sem marcas específicas de hesitações, silêncios, etc. Também não houve intervenção quanto ao registro dos interlocutores, ou seja, “correções” em termos de regência ou concordância, por exemplo, uma vez que estas categorias não interessam diretamente a esta pesquisa.

Os casos ilustrados em (10a) e (10b) referem-se à divisão da tela em dois enquadramentos, o que permite-nos a leitura dos gestos, sorrisos, indiferença, dúvida, enfim, das diversas reações que podem ter entrevistado e entrevistador durante a interação. Ler gestos e sorrisos, por exemplo, significa interpretar os sentidos que esses elementos constroem dentro do conjunto maior que se analisa: o gênero entrevista em Canal Livre. Além disso, ao se dividir a tela ao meio, são criadas duas perspectivas de valor da informação: os elementos dado e novo, como se pode se observar na figura a seguir:

---

dado novo

---

Figura 7 Ilustração dos elementos dado e novo em Canal Livre

O que faz do componente mais à esquerda um elemento dado é o fato de, na maioria das vezes, ele já ser do conhecimento dos viewers: no presente caso, os que assistem habitualmente ao Canal Livre sabem que o jornalista Fernando Mitre é um dos entrevistadores fixos do programa, por isso, ele é o elemento dado (já conhecido). O novo, aquilo que se presume não ser do conhecimento do leitor, geralmente, ocupa uma posição mais à direita. No caso que ilustramos, o novo é o Deputado Severino Cavalcanti, pois a cada edição do programa um outro entrevistado ocupa esse lugar na exibição. Em resumo,

em Canal Livre: o dado é o entrevistador elemento já conhecido pelos viewers e o novo é o entrevistado elemento que muda cada vez que o programa vai ao ar e que, portanto, não é do conhecimento do telespectador. Kress e van Leeuwen (1996) atentam para o fato de que essa disposição do layout (dado e novo, à esquerda e à direita, respectivamente) pode não acontecer em toda composição. Um exemplo disso, na TV brasileira, é o caso do Programa do Jô, em que o dado (Jô Soares) ocupa a posição à direita do vídeo, e o novo (o convidado) ocupa a posição mais à esquerda.

Nos casos em que não há a divisão da tela em dois enquadramentos, o que ocorre na maior parte do programa, o grande destaque é dado para a figura do entrevistado, quando o framing da câmera ocupa a tela inteira da televisão. Podemos observar isso nos exemplos (11a) e (11b) a seguir:

(11a) (11b)

O exemplo (11a) faz parte de uma reportagem de arquivo apresentada logo no início do último bloco de Canal Livre. Trata-se de um trecho de uma outra entrevista, desta vez concedida ao programa Falando Sério, da Rede 21, emissora que compõe o Grupo Bandeirantes de Televisão. Na ocasião, o deputado Severino Cavalcanti ainda estava em campanha pela presidência da Câmara dos Deputados. O caso de (11a) ilustra a grande preferência dos cortes de câmara por focalizar a imagem do entrevistado: o arquivo da entrevista em Falando Sério sequer nos mostra quem é o entrevistador, ou seja, toda a oportunidade de exibição recai sobre Severino Cavalcanti e sobre o seu turno de fala. A saliência que é dada ao entrevistado busca imputar-lhe

uma maior projeção, e isso pode ser avaliado pelos viewers. Em (11b), tem-se o exato momento em que o corte da câmara passa do entrevistado para o entrevistador, em plena enunciação, com os gestos correspondentes. Na subseção A imagem do entrevistado em Canal Livre, deste capítulo, analiso os gestos de Severino Cavalcanti ao tratar da categoria do ethos.